
Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir.
Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo.
E quanto me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamentamente.
O Livro do Desassossego -Fernando Pessoa
Impregnada de Bernardo Soares até os ossos.
Meu Deus! Como esse homem consegue escrever assim?
Gizelda, gosto do seu desassossego, no fundo um desassossego sossegado. Sabe que, apesar dos temas tratados, o seu estar transmite imensa calma? Pelo menos a mim transmite.
ResponderExcluirBeijos
A maioria dos rios mostra uma superficie plácida, mas , lá no fundo, há turbilhões escuros e grandes segredos, AC.
ResponderExcluirNão tenho grandes , nem escuros segredos, mas , muito turbilhões...
E que bom você encontrar aqui algo de que eu preciso e nunca achei.
Beijooooos. Obrigada por ser tão gentil.
Giselda
ResponderExcluirObrigada pela visita e pelo comentário tão gentil.
O seu blog também me agradou muito pois para mim as palavras são como água para uma sede que nunca acaba. E gosto muito de Fernando Pessoa.
Um beijo e até breve