segunda-feira, 3 de junho de 2013

"O que a memória amou fica eterno"


Alguma
coisa mudou nos meus olhos. Suspeitei de doença e fui procurá-la nos textos de
oftalmologia. Mas, por mais que a procurasse, não a encontrei sequer
mencionada, fosse nos títulos de capítulos, fosse nos índices de assuntos. Os médicos
me disseram que consultei os livros errados. Falaram que melhor teria sido que
eu tivesse lido livros de poesia. Saudade,me explicaram, não é doença de olho. Não há colírio, óculos ou cirurgia que a curem. Aceito o veredito da ciência mas continuo sem entender.

 Por
favor, que me expliquem essa transformação estranha que acontece nos meus olhos
- deve ser doença rara, síndrome desconhecida, ainda não descrita, valendo
comunicação em congresso. A transformação é assim: quando a saudade bate, os
olhos param de ver o que dantes viam, e começam a ver coisas que dantes não
viam. Aquela mãe, da canção do Chico, olhou para o quarto do filho morto é pôs
flor na jarra: certamente, loucura da saudade: ela via algo que os outros não.
É parecido com o que acontece quando se olha as pranchas coloridas do livro OIho Mágico com olhar perdido. Isso que os autores do livro apresentam como novidade, eu já sabia, fazia tempo. Primeiro mudavam as cores. Depois certas coisas desapareciam, deixavam de ser vistas. Por fim, outras que não se viam, apareciam. E tudo ficava diferente.

 Certo
estava aquele que me mandou ler poesia. Lembrei-me que, de fato, eu já havia
lido antes sobre essa transformação do olhar, num texto de Octávio Paz.

"Todos
os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim. Todas as tardes os nossos
olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.De
repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de
nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora
ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais.
 Isso que estamos vendo pela primeira vez já havíamos visto antes. Em algum lugar, no
qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se
a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse
lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao
mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a
fronte. Estamos encantados, suspensos no meio da tarde imóvel."

 É
assim que ficam os meus olhos, é assim que fica o meu mundo, quando a saudade
se aconchega no meu colo, quando a velhice brinca comigo... Os olhos normais
vêem as ruas, os muros, os jardins, do jeito mesmo como eles são, do jeito
mesmo como apareceriam se deles se tirasse uma fotografia. Já os olhos que a
saudade encantou ficam dotados de estranhos poderes mágicos: eles vêem as
ausências, o que não está lá mas que o coração deseja.

 Quando
eu estava no grupo me fizeram memorizar muitas coisas. A maioria eu esqueci.
Algumas eu decorei. Destas eu ainda me lembro. Faço distinção entre memorizar e decorar. Memorizar é coisa mecânica. Decorar, como a própria etimologia revela, é coisa de amor. Decorar vem da palavra latina cor, que quer dizer coração. Decorar é escrever no
coração. O que é escrito no coração passa a fazer parte do corpo; não é esquecido nunca. Palavras da Adélia: "O que a memória amou fica eterno".

 A
meditação sobre os olhos e a saudade trouxe-me à lembrança este poema de Tomás
Antônio Gonzaga, decorado. Se, menino, o decorei, é porque vinha misturado com
o golinho de velhice que eu bebia todo dia.
"Acaso
são estes os sítios formosos,/ aonde passava os anos gostosos?/ São estes os
prados aonde brincava,/ enquanto pastava o manso rebanho/ que Alceu me deixou?/
Daquele penhasco um rio caía;/ ao som do sussurro/ que vezes dormia!/ Agora não
cobrem espumas nevadas/ as pedras quebradas: parece que o rio o curso voltou./
Meus versos, alegre, aqui repetia;/ o eco as palavras três vezes dizia./ Se
chamo por ele, já não me responde;/ parece se esconde,/ cansado de dar-me/ os
ais que lhe dou./ Aqui um regato corria sereno/ por margens cobertas de flores
e feno;/ à esquerda se erguia um bosque fechado,/ e o tempo apressado, que nada
respeita,/ já tudo mudou./ Mas como discorro?/ Acaso podia já tudo mudar-se no
espaço de um dia?/ Existem as fontes e os freixos copados;/ dão flores os
prados, e corre a cascata,/ que nunca secou./ Minha alma, que tinha liberta a
vontade,/ agora já sente amor e saudade./ Os sítios formosos, que já me
agradaram,/ ah! não se mudaram.../ ...mudaram-se os olhos,/ de triste que
estou./ São estes os sítios?/ São estes./ Mas eu o mesmo não sou./ Marília, tu
chamas?/ Espera, que eu vou."

 E,
para terminar, mais um golinho de velhice, um verso de Rilke: "Quem nos
desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?
Como aquele que, partindo, se detém na última colina a contemplar o vale na
distância - e ainda uma vez se volta, hesitante, e aguarda - assim vivemos nós,
numa incessante despedida."

Velhice

é assim. Miguilim sabia muito bem.

Rubem Alves /1992

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