quarta-feira, 5 de junho de 2013

O impossível não se corrige.




“Abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sobre o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos, a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso.
 eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só  vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir.

 “a máquina de fazer espanhóis” de valter hugo mãe

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"O que a memória amou fica eterno"


Alguma
coisa mudou nos meus olhos. Suspeitei de doença e fui procurá-la nos textos de
oftalmologia. Mas, por mais que a procurasse, não a encontrei sequer
mencionada, fosse nos títulos de capítulos, fosse nos índices de assuntos. Os médicos
me disseram que consultei os livros errados. Falaram que melhor teria sido que
eu tivesse lido livros de poesia. Saudade,me explicaram, não é doença de olho. Não há colírio, óculos ou cirurgia que a curem. Aceito o veredito da ciência mas continuo sem entender.

 Por
favor, que me expliquem essa transformação estranha que acontece nos meus olhos
- deve ser doença rara, síndrome desconhecida, ainda não descrita, valendo
comunicação em congresso. A transformação é assim: quando a saudade bate, os
olhos param de ver o que dantes viam, e começam a ver coisas que dantes não
viam. Aquela mãe, da canção do Chico, olhou para o quarto do filho morto é pôs
flor na jarra: certamente, loucura da saudade: ela via algo que os outros não.
É parecido com o que acontece quando se olha as pranchas coloridas do livro OIho Mágico com olhar perdido. Isso que os autores do livro apresentam como novidade, eu já sabia, fazia tempo. Primeiro mudavam as cores. Depois certas coisas desapareciam, deixavam de ser vistas. Por fim, outras que não se viam, apareciam. E tudo ficava diferente.

 Certo
estava aquele que me mandou ler poesia. Lembrei-me que, de fato, eu já havia
lido antes sobre essa transformação do olhar, num texto de Octávio Paz.

"Todos
os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim. Todas as tardes os nossos
olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.De
repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de
nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora
ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais.
 Isso que estamos vendo pela primeira vez já havíamos visto antes. Em algum lugar, no
qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se
a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse
lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao
mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a
fronte. Estamos encantados, suspensos no meio da tarde imóvel."

 É
assim que ficam os meus olhos, é assim que fica o meu mundo, quando a saudade
se aconchega no meu colo, quando a velhice brinca comigo... Os olhos normais
vêem as ruas, os muros, os jardins, do jeito mesmo como eles são, do jeito
mesmo como apareceriam se deles se tirasse uma fotografia. Já os olhos que a
saudade encantou ficam dotados de estranhos poderes mágicos: eles vêem as
ausências, o que não está lá mas que o coração deseja.

 Quando
eu estava no grupo me fizeram memorizar muitas coisas. A maioria eu esqueci.
Algumas eu decorei. Destas eu ainda me lembro. Faço distinção entre memorizar e decorar. Memorizar é coisa mecânica. Decorar, como a própria etimologia revela, é coisa de amor. Decorar vem da palavra latina cor, que quer dizer coração. Decorar é escrever no
coração. O que é escrito no coração passa a fazer parte do corpo; não é esquecido nunca. Palavras da Adélia: "O que a memória amou fica eterno".

 A
meditação sobre os olhos e a saudade trouxe-me à lembrança este poema de Tomás
Antônio Gonzaga, decorado. Se, menino, o decorei, é porque vinha misturado com
o golinho de velhice que eu bebia todo dia.
"Acaso
são estes os sítios formosos,/ aonde passava os anos gostosos?/ São estes os
prados aonde brincava,/ enquanto pastava o manso rebanho/ que Alceu me deixou?/
Daquele penhasco um rio caía;/ ao som do sussurro/ que vezes dormia!/ Agora não
cobrem espumas nevadas/ as pedras quebradas: parece que o rio o curso voltou./
Meus versos, alegre, aqui repetia;/ o eco as palavras três vezes dizia./ Se
chamo por ele, já não me responde;/ parece se esconde,/ cansado de dar-me/ os
ais que lhe dou./ Aqui um regato corria sereno/ por margens cobertas de flores
e feno;/ à esquerda se erguia um bosque fechado,/ e o tempo apressado, que nada
respeita,/ já tudo mudou./ Mas como discorro?/ Acaso podia já tudo mudar-se no
espaço de um dia?/ Existem as fontes e os freixos copados;/ dão flores os
prados, e corre a cascata,/ que nunca secou./ Minha alma, que tinha liberta a
vontade,/ agora já sente amor e saudade./ Os sítios formosos, que já me
agradaram,/ ah! não se mudaram.../ ...mudaram-se os olhos,/ de triste que
estou./ São estes os sítios?/ São estes./ Mas eu o mesmo não sou./ Marília, tu
chamas?/ Espera, que eu vou."

 E,
para terminar, mais um golinho de velhice, um verso de Rilke: "Quem nos
desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?
Como aquele que, partindo, se detém na última colina a contemplar o vale na
distância - e ainda uma vez se volta, hesitante, e aguarda - assim vivemos nós,
numa incessante despedida."

Velhice

é assim. Miguilim sabia muito bem.

Rubem Alves /1992

sábado, 1 de junho de 2013

Ser o que se pode é a felicidade.


Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.

Um dia, depois de ter comprado um grande boneco de pano que encontrou à venda numa feira, o Crisóstomo sentou-se no sofá abraçando-o. Abraçava o boneco e procurava pensar que seria como um filho de verdade, abanando a cabeça igual a estar a dizer-lhe alguma coisa. Afagava-lhe os cabelos enquanto fantasiava uma longa conversa sobre as coisas mais importantes de aprender. Começava sempre as frases por dizer: sabes, meu filho. Era o que mais queria dizer. Queria dizer meu filho, como se a partir da pronúncia de tais palavras pudesse criar alguém.

A certa altura, abraçou mais forte o boneco, encolhendo-o até por o espremer de encontro ao peito, e acabou chorando muito, mas não chorou sequer metade das lágrimas que tinha para chorar. Achando que tudo era ausência, achava também que vivia imerso, como no fundo do mar. Pensava em si como um pescador absurdamente vencido e até a idade lhe parecia maior. O Crisóstomo começou a pensar que os filhos se perdiam, por vezes, na confusão do caminho. Imaginava crianças sozinhas como filhos à espera. Crianças que viviam como a demorarem-se na volta para casa por terem sido enganadas pela vida. Acreditou que o afeto verdadeiro era o único desengano, a grande forma de encontro e de pertença. A grande forma de família. Sentia uma urgência grave sem saber ainda o que fazer.

Valter Hugo Mãe in " O filho de mil homens"

A felicidade possível não importa como,onde,ou com quem.

sábado, 25 de maio de 2013

O casamento: às vezes, quem ganha é quem perde.



TÊNIS X FRESCOBOL 

Depois de muito meditar sobre o assunto  concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte  de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta ‘Você crê que você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa, até a sua velhice?’ Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.”

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos  baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte,  como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer  através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa  conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo...” Barthes advertia: “Passada a primeira  confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez  poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário - e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de  outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado.
Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ire vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de  palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário  pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros Cadernos, é sobre este jogo de tênis: “Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida.’ A situação está salva e o ódio vai aumentando.”

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

Rubem Alves 
(Correio Popular)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A vida é uma obrigação de que é preciso dar conta.



                                              


A Velha Amiga
Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.
E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.


A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.


E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.


Rachel de Queiroz

(Crônica publicada no jornal "O Estado de São Paulo"  -  13/01/2001)

Não ter saudade de nada.

A vida é uma obrigação de que é preciso dar conta.
A morte é a amante dos moços e  a companheira dos velhos
...que triste!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um presente sem preço...



Um presente sem preço, daqueles que a vida nos dá , de repente, e que consegue colocar a gente nos trilhos , em um momento que parecia estar descarrilhada. Esse texto veio da Gi ...Giovana Peruchi, uma menina-mulher doce e corajosa.Postado no Facebook, fadado a se perder...um texto confessional que quero guardar aqui, além de no fundo do meu coração.

Não sei se o mereço, mas ele me fez olhar prá mim com outros olhos e me fez saber que -sim- ainda vou continuar...


14 de maio de 2013

E de repente, eu senti aquela imensa vontade de visitar a pequena livraria da cidade em q situo e, é claro, que nâo me contive e acabei seguindo meu instinto. Enquanto apreciava as prateleiras de Literatura Brasileira, me deparei com um pequeno livro da Cia. de Bolso e ao olhar o titulo eu senti aquele vazio da sua ausência. A vontade do seu cheiro, dos nossos encontros semanais, das suas dicas de vó, mãe e professora eram os que mais se destacavam em mim naquele momento.
Gizelda, vc não sabe a falta que faz, a falta que todos de Casa me fazem. Enquanto ai eu tinha vc,Isabella e a Nicoli pra desabafar a qualquer instante, aqui eu me sinto rodeada de pessoas mas, na realidade, mais sozinha do q nunca (eu sei, isso é cliche, mas é verdade).
Ainda gosto de dizer que o seu blog continua sendo a minha página inicial da internet. Mesmo com poucas atualizações, é um alivio saber que vc continua ali.. em algum lugar no mundo, mas principalmente, em algum lugar me mim mesma.
Acho q isso prova q ngm nunca nos deixa de verdade, pq a memória smp será mais forte q qualquer adeus profundo e uma distancia eterna.
Eu sei q te decepcionei ao descobrir que troco mts vezes um bom livro por calculo, fisica, quimica e essas matérias que pouco te interessam, mas o sacrificio é grande pra fazer essa troca, principalmente por pertencer a uma faculdade que poucos entendem o valor de uma boa leitura.
Percebi aqui que o livro é minha melhor companhia, principalmente nos meus momentos de maior desespero, saudade e angustia.
Acho que a esse momento vc ja desconfia qual livro seja, e admito que entrou pra minha lista de livros pra ler antes de morrer.. por mais q isso pareça exagero e acima de td, desespero, vc mesmo sabe que "ele é o que nos mantém vivos".
Beijo
Saudades
Gi


De Gi para Gi :Muito obrigada.


terça-feira, 14 de maio de 2013

A dura obrigação de ser feliz.



Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.” Já escrevi sobre essa frase. Sim, repito alguns temas, que são parte do meu repertório, pois todo escritor, todo pintor, tem seus temas recorrentes. No alto dessa escada nos seduzem novidades e nos angustia o excesso de ofertas. Para baixo nos convocam a futilidade, o desalento ou o esquecimento nas drogas. Na dura obrigação de ser “felizes”, embora ninguém saiba o que isso significa, nossos enganos nos dirigem com mão firme numa trilha de contradições.
Como ficcionista, meu trabalho é inventar histórias; como colunista, é observar a realidade, ver o que fazemos e como somos. A maior parte de nós nasce e morre sem pensar em nenhuma das questões de que falei acima, ou sem jamais ouvir falar nelas. Questionar dá trabalho, é sem graça, e não adianta nada, pensamos. Tudo parece se resumir em nascer, trabalhar, arcar com dívidas financeiras e emocionais, lutar para se enquadrar em modelos absurdos que nos são impostos. Às vezes, pode-se produzir algo de positivo, como uma lavoura, uma família, uma refeição, um negócio honesto, uma cura, um bem para a comunidade, um gesto amigo.Apregoa-se a liberdade, mas somos escravos de mil deveres. Oferecem-nos múltiplos bens, mas queremos mais. Em toda esquina novas atrações, e continuamos insatisfeitos. Desejamos permanência, e nos empenhamos em destruir. Nós nos consideramos modernos, mas sufocamos debaixo dos preconceitos, pois esta nossa sociedade, que se diz libertária, é um corredor com janelinhas de cela onde aprisionamos corpo e alma. A gente se imagina moderno, mas veste a camisa de força da ignorância e da alienação, na obrigação do “ter de”: ter de ser bonito, rico, famoso, animadíssimo, ter de aparecer – que canseira.
Mas cadê tempo e disposição, se o tumulto bate à nossa porta, os desastres se acumulam – a crise e as crises, pouca trégua e nenhuma misericórdia. Angústias da nossa contraditória cultura: nunca cozinhar foi tão chique, nunca houve tantas delícias, mas comer é proibido, pois engorda ou aumenta o colesterol. Nunca se falou tanto em sexo, mas estamos desinteressados, exaustos demais, com medo de doenças. O jeito seria parar e refletir, reformular algumas coisas, deletar outras – criar novas, também. Mas, nessa corrida, parar para pensar é um luxo, um susto, uma excentricidade, quando devia ser coisa cotidiana como o café e o pão.
 Para alguns, a maioria talvez, refletir dá melancolia, ficar quieto é como estar doente, é incômodo, é chato: “Parar para pensar? Nem pensar! Se fizer isso eu desmorono”. Para que questionar a desordem e os males todos, para que sair da rotina e querer descobrir um sentido para a vida, até mesmo curtir o belo e o bom, que talvez existam? Pois, se for ilusão, a gente perdeu um precioso tempo com essa bobajada, e aí o ônibus passou, o bar fechou, a festa acabou, a mulher fugiu, o marido se matou, o filho… nem falar.
Então vamos ao nosso grande recurso: a bolsinha de medicamentos. A pílula para dormir e a outra para acordar, a pílula contra depressão (que nos tira a libido) e a outra para compensar isso (que nos rouba a naturalidade), e aquela que ninguém sabe para que serve, mas que todo mundo toma. Fingindo não estar nem aí, parecemos modernos e espertos, e queremos o máximo: que para alguns é enganar os outros; para estes, é grana e poder, beleza e prestígio; para aqueles, é delírio e esquecimento.
Para uns poucos, é realizar alguma coisa útil, ser honrado, apreciar a natureza, sentir o calor humano e partilhar afeto. Mas, em geral medicados, padronizados, desesperados, medíocres ou heroicos, amorosos ou perversos, nos achando o máximo ou nos sentindo um lixo, carregamos a mala da culpa e a mochila da ansiedade. Refletindo, veríamos que somos apenas humanos, e que nisso existe alguma grandeza. Mas, convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado.

Lya Luft / julho de 2009.
Para Giovana Peruchi...que me fez sentir que continuo subindo a escada rolante pelo lado que desce..