quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Um Natal Azul





Todos os Natais são especiais  na minha história, porque eu amo essa profusão de cores e  perfumes  que povoam o mês de Dezembro. E me preparo para ele como para uma festa. Mas, nesse ano antes da festa  veio o imprevisto, porque a vida sempre se incumbe de um roteiro próprio no qual não conseguimos interferir.
Um susto, um PS,um coração descontrolado, um quarto de hospital...E em 11 de dezembro, quando uma maca encostou no meu leito hospitalar para que eu fosse levada à UTI ,o desconforto evidente deu lugar a uma pergunta engasgando minha garganta: o que eu devo fazer agora, que providência tomar se posso morrer lá? 
Meu pensamento voava, mas meu cérebro acelerado foi se acalmando à medida que , pelo corredores, meus olhos visualizaram as sancas de gesso belíssimas  e recém pintadas nas altíssimas paredes dos corredores longos e quase desertos. Absolutamente lindo! Um prédio antigo e preservado.Quem era eu, afinal, que - em uma hora dessas- me detinha a pensar nisso?
Mas o inusitado – para mim- ainda iria acontecer , ao entrar na unidade de terapia intensiva. A sala exalava azul. As paredes lembravam os dias claros de abril quando o céu parece sorrir e as “ meninas” – sim meninas , poderiam ser minhas netas – sorriam em azul  a diluir meu medo. E comecei  a sentir paz, muito longe da agonia que esperava.
O lugar lúgubre que eu imaginava não existia. As luzes acesas ininterruptas , um pequeno exército de abelhinhas azuis se desvelando solicitas entre doentes, alguns inconscientes, mas todos vigiados e atendidos com  carinho, competência e sutileza, dia e noite.
Eu estava no nicho número 7,ligada a uma parafernália de aparelhos, realizando exames a cada hora, e ali estive por 4 dias  que deveriam ser longos, deveriam...  Amanda,  Antônia , Débora ,as mais próximas incumbiram-se de torná-los mais leves, mais curtos
Ao sair dali, senti-me um pouco desamparada no quarto para onde fui levada  por mais dois dias. Tenho certeza de que voltei com outra percepção do que estava vivendo .Percebi que todos que passavam por mim vestiam os mais diferentes tons de azul. Conheci  algumas histórias comoventes,  e cotidianos difíceis contados sem sofrimento, apenas como vida acontecendo.
Foi assim que, nesse ano, meu Natal mudou de cor : tornou-se AZUL em homenagem  aos bastidores de um  hospital, nos quais pessoas anônimas , em trabalho exaustivo ,cuidam de nós em momento de fragilidade absoluta, quando a morte se torna improvável, mas possível.
Voltei pra minha  casa  que continua verde e vermelha, mas desculpe-me o Natal tradicional : nesse ano meu coração e meus sentimentos são absolutamente azuis.

OBS : esse texto é dedicado ao pessoal de apoio da Casa de Saúde de Campinas, em especial aos que trabalham silenciosos nos bastidores( enfermeiros, plantonistas, merendeiras, faxineiras e aos demais )e aos quais sou imensamente grata por esse Natal.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Voltar prá casa...




Desde sempre , acostumei-me a gerenciar minha vida, mesmo que a prioridade não fosse eu. Escolhas difíceis cujas consequências não foram as esperadas aconteceram, mas não foram regra. Não obstante "virar a mesa" - e recomeçar- sempre me aconteceu.

Claro que, premida por circunstâncias incontornáveis, cedi algumas - muitas- vezes, sempre com a incômoda sensação de estar inadequada e transitória naquele momento e naquele lugar. Assim como uma peça do quebra-cabeças, a definitiva,que não se encaixasse por estar na moldura incorreta.Viver isso sempre foi, literalmente,um inferno, mas...
sempre se podia voltar prá casa.

Casa, o que é casa?Um belo apartamento? Um amontoado de tijolos que enfeita uma esquina? O quê?...a resposta dói.
Casa , a nossa, é onde estão nossos pais, nossos avós, nossa raiz.Nós construímos casas para nossos filhos que vem e vão ao sabor da vida.Somos a casa deles.Mas a nossa casa é outra.É onde fomos queridos, amados, desejados, sempre.

Ainda agora, sentada na minha sala, o prenúncio da Páscoa no ar,sinto uma vontade infinita de voltar prá casa.E não a tenho mais.
Quando nossos pais se vão, desmancha-se a nossa casa. Temos um domicílio,um endereço,uma paragem,mas nunca mais poderemos voltar prá nossa casa....

Um dia inacreditavelmente azul entra pelas largas portas de vidro. Doura, nesse momento,muitos e muitos outros domicílios de pessoas que, como eu, sabem , dolorosamente, que não podem mais voltar prá casa...



quinta-feira, 26 de março de 2015

Ainda.


                                      
O tempo passa. Às vezes penso que teria que andar depressa, aproveitar o máximo possível estes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de escrutinar minhas rugas: “Ora, mas você ainda é um homem jovem”. Ainda. Quantos anos me restam desse “ainda”? Penso nisso e me aflijo, tenho a angustiante sensação de que a vida está me escapando, como se minhas veias tivessem se aberto e eu não pudesse estancar o sangue. Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, que “nos apegamos à vida”, estamos fazendo com que seja assimilada por outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos fazendo que seja assimilada pelo Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é a vida. Daí vem a aflição (…).
 Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde aceitável, de ocupações rotineiras, de expectativa diante da sorte, mas quantos me restam de prazer? (…) “Ainda” quer dizer: está no fim.E este é o lado absurdo de nosso acordo: dissemos que levaríamos tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reveríamos a situação. Mas o tempo corre, deixemos ou não (…) A experiência é boa quando vem junto com o vigor; depois, quando o vigor se vai, resta apenas uma peça de museu, decorativa, cujo único valor reside em ser uma recordação daquilo que já se foi. A experiência e o vigor são simultâneos por muito pouco tempo. Estou agora nesse pouco tempo. Não se trata, porém, de uma sorte invejável.
Mario Benedetti

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um Natal para sempre.



É indiscutível reconhecer que o Natal me emociona.Gosto da época, do clima, das cores...

Quando a cidade se tinge de verdes e vermelhos e o dourado se confunde com as luzes , sinto uma inefável sensação de prazer. Desempacotar os enfeites cuidadosamente guardados e transformar minha casa em novas cores e  brilhos tem um sabor especial. Mas, enquanto a casa vai se modificando, um lugarzinho da minha alma, de um tempo para cá, permanece inquieto,incomodado.
Definitivamente falta algo, mas o quê?

Eu sei, mas procuro fugir da constatação. Passamos o ano inteiro em “mesas de iguarias de Natal”, ganhamos presentes todos os dias, esquecemo-nos de rezar e agradecer, só sabemos pedir e – o mais triste- a família vai se dispersando.

Na minha infância / adolescência nunca houve ceia. Íamos à Missa do Galo absolutamente encantados com o evento ,com a ansiedade do depois. E...reuniamo-nos diante de um caprichado bolo xadrez  que havíamos “namorado” o dia inteiro, enquanto minha mãe temperava carnes, picava legumes e tudo se transformava em uma mesa- de almoço - onde nada havia sido feito “fora de casa”.

O perfume do cipreste, colhido logo ali, impregnava a casa toda, havia um brilho especial nos olhos, mesmo não entendendo o porquê de nossos Natais serem agraciados com presentes tão simples: uma caixa de bombons,um livro de história...Em 1954 , ganhei um exemplar lindo : A Rainha das Neves ,de Andersen, embora estivesse longe do presente desejado, uma bicicleta que meu pai não pode comprar.

Mesmo que eu possa comprá-la agora, não a quero, quero meu pai, no Natal...mas ele já está encantado,é uma doce lembrança.O tender tem o sabor da presença dele que o apreciava tanto,enquanto para mim tem gosto de papel.

Minha mãe também foi partindo aos pouquinhos diante dos nossos olhos.E se foi , definitivamente há dois anos,levando com ela o melhor da minha história.Depois disso tornou-se impossível " voltar prá casa",aquela que era minha .

Quanto sabia eu da felicidade naquela época? 

Hoje, as filhas chegam com os netos,a alegria ruidosa que eu amo, os amigos (poucos) que restaram não os tenho por perto embora continuem presentes,mas o real é a sensação dolorida de que olhar para minha enfeitada casa não é suficiente.A festa não preenche mais por inteiro meu coração.

Estou feliz pelo que tenho,sim, mas nessa data sinto muito profunda a falta imensa do que se foi e dos que se foram.Talvez seja esse o momento em que a vida dói mais fundo : o Natal.

Definitivamente falta algo que eu nunca vou poder recuperar.E jamais comprar.
O Natal que ficou em minha memória é para sempre...mesmo que não exista mais.

PS : A receita do bolo xadrez permanece intacta, mas os ingredientes principais foram-se ao sabor do tempo:  meus pais.

O bolo,agora, é só uma imagem que não ouso reproduzir.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Meu Natal 2013 tem nome : Saudades.



Todos os anos eu espero pacientemente ( ou ansiosa? ...) o Natal. Passei a vida amealhando objetos, dezenas de papais-noéis, castiçais, velas, flores, talheres, pratos, enfim...tudo verde e vermelho, brilhante e iluminado. Transformo minha casa em uma “toca do Papai Noel”. E adoro viver nela em um mês de sonho.
Mas, nesse ano, mesmo com a casa enfeitada, uma sensação estranha e vazia fez-me sentir uma pária. Onde andaria o Natal? A casa pronta , mas eu não . O que acontecera?
No entanto, a vida surpreende a cada curva- e são muitas.

De repente, deparo-me aqui com uma foto que não sei bem se saltou da tela ou do meu coração : a igreja iluminada da aldeia em que nasci e onde estive há dois anos, pela última vez, para depositar os restos mortais da minha mãe.
E na imagem colorida e silenciosa desfilaram vultos dos que me amavam e amei sempre. Infância e adolescência , época de sonhos em que se acredita que temos que correr atrás da felicidade , porque " ela está onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos".

Olho a foto entre lágrimas e vou muito além: vejo nela as pessoas que não mais lá estão, mas eu os vejo, sim, com cada caraterística, o sorriso, ouço-lhes o timbre de voz. Tão nítido agora, o que estava esmaecido na minha memória.. Poderia mencioná-los um a um, mas não consigo registrar em ordem as lembranças que me vêm aos borbotões. Tantos e tão próximos.

Em nosso Natal não havia ceia, comilança e bebedeira não eram sinônimo dessa festa: havia uma lindíssima missa do galo, onde íamos vestidos de pastorinhas entregar frutas ao menino Jesus. Depois da missa , em casa, o famoso e esperado bolo xadrez da minha mãe, com um cálice de vinho Palmeiras Rosé, que nos era proibido.
Íamos dormir na expectativa dos presentes que eram modestos, os que cabiam no bolso do meu pai. Parcos presentes e ricas presenças. 


Jamais me esqueci de um livro ganho aos 10 anos “ A Rainha da Neve “ de Andersen, cuja capa era inacreditavelmente linda. Aqui nasceu meu amor pelos livros que cresce cada vez mais. Um Natal permanente.
E então ,o almoço da família : éramos tantos que a mesa crescia e crescia, mas nela sempre cabiam os amigos que iam aparecendo e a alegria ia se multiplicando.

Sim, Felizes, Felizes Natais! E foram muitos .

No meu mundo particular, aquele que é só meu,no qual ninguém entra, onde as companhias são personagens de ficção e as histórias têm vida, sempre há um texto que exprime o que eu sinto e quero dizer. Agora é Fernando Pessoa :

O sino da minha aldeia

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
 

Fernando Pessoa

Finalmente, felizmente, o Natal 2013 chegou à minha vida e ao meu coração!

19/12/2013 -8h43min.

Silvana Barradas Tizziotti e Sônia Ap Godoy...muito obrigada!

Feliz Natal, Sales Oliveira!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O primeiro dia.



O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora
combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia.
Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e
encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.
Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de
se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a
primeira manhã da sua separação - o primeiro de quantos dias? - em que acordaria sempre
sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si
mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas
nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem
apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores
com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais
friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso
espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema
liberdade - posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem,
ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir
sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: «Divorciado, 40 anos, bom
aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre,
terno e com sentido de humor». Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou
um partidão - concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista
de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é
próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto
de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição
das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos
últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio
que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

«Até agora vou-me aguentando», considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza
adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e
sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de
homem só, passou à fase seguinte do que chamara o «plano de sobrevivência»: desfolhar a
agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer «programas de
homens» ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que
achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A
primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem
mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de
«anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora».

 Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para otelefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. «Ah,a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vensme buscar». Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. «Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?»

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que
interessa se for um flop - achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da
esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as
pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente
lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham
ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três
ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os
respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira
ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um
retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. 

Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.

Miguel Sousa Tavares.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Professores são oleiros...





Esse blog tem andado abandonado, triste,vazio, talvez porque, em uma análise simplista, todo blog reflita o que vai na alma de quem o cria. E minha alma anda desencantada.
Entretanto há momentos e textos que eu quero preservar porque eles merecem ser lidos  e apreciados.
Fui agraciada, ao lado de muitos colegas, com essa preciosidade.Fui às lágrimas, porque vi minha vida descortinada por alguém que ainda não a viveu.
Obrigada, Esther! Beijo.



Dia dos Professores por Esther Ferreira Alves

Meu pai acredita que minha mãe criou seus três filhos do jeito errado: eu troquei a engenharia mecânica pela filosofia, minha irmã é formada em História e meu irmão cursa biologia. O que vamos fazer da vida? Dar aula? Ser professor? 
Minhas aulas de licenciatura na Faculdade de Educação reiteram a suspeita: a carreira de professor é árdua, ingrata, beira o impossível. São diret
ores que tolham o jeito de ser de cada professor, são pais que menosprezam e criticam o professor, são alunos que, revoltados e mal-criados, voltam-se contra a figura do professor, seja falando em aula, xingando ou, hoje em dia, até agredindo fisicamente. Professor tem que ser psicólogo de cada um e de todos, tem que ser mediador entre uma diretoria que quer notas altas no vestibular e um aluno que não sabe mais quem é e nem sabe ao menos o significado da palavra respeito, afinal de contas, é o aluno que paga o salário do professor... Professor precisa dar aula mesmo com dor nas costas, rouco e com sono atrasado porque ficou a noite corrigindo exercícios, professor precisa lidar com o pagamento baixo, o baixo status e as altas contas de livros e cursos de especialização e impostos para pagar. Tem que lidar com o olhar de pena quando as pessoas perguntam sua profissão: ah,você é professor...
Dizem que os pais têm uma vingança 'cármica' quando seus filhos têm filhos. Algo similar acontece quando nós alunos entramos na via de dar aulas. Nós fomos o aluno pentelho, que dorme e finge que não presta atenção, nós fomos o aluno puxa-saco, o que falava demais e passava bilhete na aula, nós fomos todos e cada um deles. E agora somos nós que temos que aprender a como lidar com essas pessoas. Tenho que admitir: dá vontade de desistir. Depois de toda aula de licenciatura, eu saio com a convicção que só é professor quem não é são. E aposto que todos os meus professores já chegaram no limite muitas vezes e até se arrependeram de seguir essa carreira. Alguns provavelmente optaram por outro rumo.
Por isso, agora, a admiração que eu tinha por todos os meus professores se transforma em algo de profundo respeito e quase-veneração. Eles são como heróis num palco trágico de muitas desventuras e aporias. São como semi-deuses, nascendo com uma força hercúlea e (sobre)vivendo no mundo terreno, cheio de intemperanças e lutas e desventuras. E como semi-deuses, deixam uma impressão indelével por onde passam: eu me lembro de quase todos os professores que tive, de como faziam as paredes da sala sumirem e nos transportavam para um mundo paralelo. Todos os professores que tive, tenho e hei de ter são como oleiros, manuseando um barro sem forma transformando-me num ser que parece humano. Eles são grandes responsáveis por quem sou hoje (e eu gosto de quem sou).
Agradeço a todos esses bravos heróis; que a roda da Fortuna seja agradável a todos eles. Por fim, agradeço a minha mãe: você criou seus filhos com valores e princípios, com livros e histórias e música, agradeço minha mãe, que foi nossa primeira professora. Um brinde de ambrosia a todos vocês e minha sincera gratidão.

Dedicado a:
Professora Gizelda Nogueira 
Professor Diego López Silva 
Professor Flávio Ribeiro 
Professora Isabella Tardin Cardoso
Professor Marcos Pereira 
Professor Paulo Sérgio Vasconcellos 
Professora Patrícia Prata
Professor Trajano Vieira 
aos PADs e PEDs que muito me ensinaram:
Quel Faustino 
Lilian Costa 
Carol Martins da Rocha 
Felipe Weinmann 
Rafael Testa

domingo, 1 de setembro de 2013

Um prenúncio de primavera...presente prá alma.


Quando você acorda em uma manhã enevoada de domingo e encontra algo assim na sua página, você decobre que não viveu em vão. 
Lindo demais para não ser compartilhado. Bruno...você não imagina o que fez com a minha alma , hoje. E prá sempre.
Obrigada. Beijo.


Bruno De Oliveira Pinto publicou em Gizelda Nogueira
há 5 horas próximo a Ribeirão Preto, São Paulo

Fiz um poema pra você, minha querida:

"Nunca mais o dia de hoje será de novo,
nunca mais o dia de ontem será de novo
as vírgulas de hoje ocuparão lugares novos
as interrogações estarão sempre criando novas
dúvidas, medos, angústias........... de novo.

Os dias vividos ao seu lado, ao som da sua voz
às letras, às palavras, às viagens que nos fazia
Sempre novas
Sempre surpreendentes
Não diziam muito quem você era...

Mas o olhar nunca, veja bem, eu disse nunca
esconde o futuro, ele é misterioso e mágico
mesmo quando só consegue ser trágico
Este olhar renova
inova
E remove o passado olhando sempre
para o que nunca foi
Para o que sempre ficará
E para o que é.

Você é amada... Todos os dias da sua vida.
0,00001% da população terrestre gostaria de ser...

Matemática não combina muito com poema...
Ou não...

Mas ela realmente equaciona todas as variáveis
cujas imagens estão contidas no seu olhar.

Um beijo.

Seu sempre amigo e aluno, Bruno.

terça-feira, 2 de julho de 2013

No caminho inexistente


.


Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.

Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranquila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

23 histórias de um viajante. Marina Colasanti.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Existe algo mais sufocante do que a cegueira moral?



"...a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

... se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala" (EC: 84).
O medo, o comodismo e o fatalismo levam uma pessoa a se habituar a tudo, "...sobretudo se deixou de ser pessoa..." (EC: 218).

"O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos..." (EC: 131)


Saramago : polêmico e arrasador, como sempre.


Ensaio sobre a cegueira ( síntese) aborda a emergência da epidemia de uma repentina cegueira que abate os moradores de uma localidade não identificada. Tudo se inicia quando um homem cega repentinamente ao volante de seu automóvel, enquanto aguardava a mudança das cores no sinal de trânsito que o permitiria continuar a seguir seu caminho. A cegueira repentina e inexplicável inicia então, lentamente, o seu alastramento.

No entanto, diferente da cegueira usual, em que os cegos possuem apenas a percepção da escuridão, essa é uma “cegueira branca”, como a define o narrador. No lugar da ausência de luz, as pessoas infectadas enxergam apenas a completa brancura de uma superfície aparentemente leitosa.

Ao perceber a gravidade dos problemas que tal epidemia poderia ocasionar, as autoridades decidem enviar os novos cegos e aqueles com quem eles tiveram algum tipo de contato a um manicômio desativado. Essas pessoas são colocadas em quarentena em condições que chegam a se tornar desumanas. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos, pela obscuridade, a meros seres lutando por seus instintos. Somente uma mulher não é acometida pelo mal da epidemia. Resta apenas a sua visão em meio à completa cegueira, moral e física, que assola os homens, tornando-se ela a única testemunha da degradação a que foi capaz de alcançar essa sociedade absolutamente cega.

Mesmo para os habituados com leituras difíceis, "Ensaio sobre a cegueira" não é um livro fácil. A certa altura, lê-lo é bem parecido a padecê-lo.Mas isso conta como mérito para Saramago, também: sua parábola sobre o vazio e o desespero que nos cercam procura ser precisa, incômoda, inquietar ao máximo. É preciso um estado de espírito especial para enfrentá-la.

Não é um livro concessivo, nem flerta minimamente com o entretenimento. Em se tratando de romances que oferecem uma situação sufocante em crescendo, espera-se sempre que um final redentor clareie aquilo e nos liberte, nos alivie. Mas Saramago vai noutra direção: mostra evidente prazer em pormenorizar com crueldade uma situação cruel, implausível, uma enorme metáfora do mal-estar do mundo presente
através de sua epidemia de cegueira, que é curiosa: as pessoas não se tornam exatamente cegas, mas passam a enxergar uma claridade ofuscante, excessiva, que parece precisamente o negativo da visibilidade.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Eu e eles...os livros, claro!


Minha relação com livros é transcendental.Às vezes, tenho a impressão de que há um entendimento entre "nós" que escapa até de mim mesma. 
Eu me sinto feliz ( não alegre) com um livro nas mãos : ouço-o, sinto-lhe o cheiro,as páginas parecem carícias, enfim o alumbramento.  Livrarias são um mundo maravilhoso , no qual eu gostaria de morar...rs.
A propósito,encontrei um texto que me identifica , e descubro que deve haver um exército de pessoas igual a mim. Tenho encontrado tantos  textos assim, que já nem sei qual e quem eu sou. 

Enfim,sempre fico feliz nesse meu mundinho particular : eu e eles   ...claro, os livros.

Os livros.

Os livros são um amor pesado.
 Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com eles, de lugar para lugar. Os livros tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, eles perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de capas rijas desafiando o nosso desejo de mobilidade. 
Revoltamo-nos: decidimos deixá-los para trás, oferecê-los, esquecê-los - mas eles não deixam. Porque quando passamos as mãos nas estantes, medindo forças com eles, há-de tombar-nos aos pés um livro que no chão, aberto, tem alguma coisa para nos dizer, alguma coisa que esquecêramos ou que agora subitamente descobrimos. Alguma coisa tão nossa que não reparámos nela. Um verso sublinhado, uma imagem, uma página que nos acelera o bater do coração e o galope do cérebro. 

Quantas vezes utilizámos os livros como refúgios do cérebro contra as investidas do coração? Quantas vezes os usámos como trincheiras sentimentais contra as razões da vida? Quantas vidas vivemos dentro deles, por procuração? Quantos anos passámos escondidos nas esquinas daquelas páginas, à espera que delas saltasse a surpresa redentora que, de tanto esperarmos, se esfumou? Os livros são os guardiões das nossas culpas: da muda acusação inscrita nas lombadas velhas e virgens dos que nunca lemos ao grito silencioso dos que se desmoronam nas nossas mãos, riscados, batidos, cheios de areia, manchas de café, marcas de lágrimas e até - nefando crime - sombras de tabaco.

Por que gostamos tanto de alguns livros maus e nos negamos a conhecer tantos livros bons? Por que insistimos em levar até ao fim alguns livros que parecem recusar-nos? Por que mergulhamos em livros que sabemos que nos vão magoar? O que faremos às horas que perdemos a ler livros de que não recordamos uma frase? Poderemos ainda reencontrar aqueles que só depois de perdidos descobrimos que amávamos de verdade? Quantas vezes sacrificámos a escuta das nossas verdades à leitura das verdades de um livro? Quantas vezes nos enganámos nos livros, quantas vezes nos enganámos por fugirmos dos livros?

Decidimos então escolher - mas os livros ensinaram-nos também a precariedade das escolhas e das decisões. Há uma época da vida em que descobrimos que aquilo a que chamámos escolhas fundamentais resultou de um conjunto de factores e circunstâncias que, afinal, não dominámos. Fomos arrastados na enxurrada, sobrevivendo a temporais diversos - e agora, no promontório a que damos o nome de maturidade (porque ganhámos nos livros o vício de dar nome a tudo, classificar, organizar, compreender, explicar) olhamos para as escolhas que esboçámos e abandonámos, e esforçamo-nos por recomeçar o desenho da nossa vida, numa página em branco. Mas aprendemos que o branco puro não existe - nem o negro, nem o amarelo, nem o azul ou o vermelho. Nenhuma cor é afinal absoluta como nós pensávamos, nesse tempo em que chamávamos razão ao instinto, paixão ao desejo, amor ao medo, originalidade à arrogância e ousadia à provocação. Ou vice-versa - tínhamos um feixe de certezas absolutas, e uma incapacidade atávica de escutar as várias versões de uma mesma história. Talvez fosse apenas impaciência - mas nós chamavamos-lhe idealismo. Gostávamos tanto de livros que nos tornámos caçadores de palavras - e deixávamo-nos balear por elas, como se fossem canções. Agora olhamos para os livros como sinfonias, feitas de deambulações em torno de um tema recorrente, que se vai revelando em diferentes tons - à semelhança das nossas vidas.

Quando éramos jovens, sabíamos arrumar os livros. Agora não sabemos - cresceram, multiplicaram-se, por dentro e por fora. Sociologia ou Filosofia? História ou Economia? Quanto mais lemos, mais difícil se torna decidir. A Ficção nas estantes de cima - como se lêssemos um romance de cada vez; sempre pensámos que quando acabássemos de crescer seríamos menos sôfregos. Mas o que fazer aos romances que nos habituamos a reler como ensaios ou poemas, e que sentimos necessidade de folhear ao acaso, com uma saudade sensual, numa tarde de chuva?
Os inclassificáveis empilham-se pelos cantos da casa, à espera de uma hora iluminante - e os recém-chegados acabam por se misturar com eles. Ao fim de uma semana já não conseguimos encontrar nada, e odiamos os livros por atacado, bradamos contra eles, juramos livrar-nos deles. Depois folheamos um e dizemos: vamos escolher, separar, deixar para trás, mudar. Mas os livros agarram-nos, lambem-nos as mãos, atiram-se ao chão para que olhemos para eles, seduzem-nos através do cheiro, do toque, do pó das memórias.

 Encaixotamo-los, e mudamo-nos, de novo, com eles - embora saibamos que nunca teremos tempo para os ler todos, e que continuaremos a ser injustos com eles, a amá-los mal, a perdê-los, a maltratá-los, a emprestá-los e a arrependermo-nos. 
"Antes a experiência que a nostalgia", disse-me certa vez uma amiga. Um bom conselho serve para tudo, até para arrumar bibliotecas e perder o medo do caos e o travo da culpa que assombra o amor dos livros."

Inês Pedrosa / Crônica  /2008

domingo, 9 de junho de 2013

É diferentemente que vale cada coisa.



“Não busque mais, no futuro, reencontrar um dia o passado. Apreende a novidade dessemelhante de cada momento e não prepares tuas alegrias, ou saibas que em seu lugar preparado outra alegria te surpreenderá.

Como não compreendeste que toda felicidade é casual e se apresenta a ti em cada instante como um mendigo em teu caminho. Infeliz de ti se disseres que tua felicidade é morta porque não a tinha sonhado igual a isso – e que só a admites conforme com teus princípios e desejos.

O sonho de amanhã é uma alegria, mas a alegria de amanhã outra alegria é, e nada felizmente se assemelha ao sonho que se tenha tido; porque é diferentemente que vale cada coisa.

Não quero que me digas: vem, preparei-te tal ou qual alegria; não gosto mais senão das alegrias casuais, e as que minha voz faz que jorrem do rochedo. Escorrerão assim para nós, novas e fortes, como os vinhos abundam no lagar.

Não gosto que minha alegria se enfeite, para beijá-la não limpei de minha boca as manchas que os cachos de uvas deixaram; depois dos beijos bebi o vinho doce sem refrescar a minha boca; e comi com a cera o mel da colmeia.


 Não prepares nenhuma de tuas alegrias.”

André Gide in Frutos da Terra.


















quarta-feira, 5 de junho de 2013

O impossível não se corrige.




“Abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sobre o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos, a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso.
 eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só  vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.
com a morte, também o amor devia acabar. ato contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir.

 “a máquina de fazer espanhóis” de valter hugo mãe

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"O que a memória amou fica eterno"


Alguma
coisa mudou nos meus olhos. Suspeitei de doença e fui procurá-la nos textos de
oftalmologia. Mas, por mais que a procurasse, não a encontrei sequer
mencionada, fosse nos títulos de capítulos, fosse nos índices de assuntos. Os médicos
me disseram que consultei os livros errados. Falaram que melhor teria sido que
eu tivesse lido livros de poesia. Saudade,me explicaram, não é doença de olho. Não há colírio, óculos ou cirurgia que a curem. Aceito o veredito da ciência mas continuo sem entender.

 Por
favor, que me expliquem essa transformação estranha que acontece nos meus olhos
- deve ser doença rara, síndrome desconhecida, ainda não descrita, valendo
comunicação em congresso. A transformação é assim: quando a saudade bate, os
olhos param de ver o que dantes viam, e começam a ver coisas que dantes não
viam. Aquela mãe, da canção do Chico, olhou para o quarto do filho morto é pôs
flor na jarra: certamente, loucura da saudade: ela via algo que os outros não.
É parecido com o que acontece quando se olha as pranchas coloridas do livro OIho Mágico com olhar perdido. Isso que os autores do livro apresentam como novidade, eu já sabia, fazia tempo. Primeiro mudavam as cores. Depois certas coisas desapareciam, deixavam de ser vistas. Por fim, outras que não se viam, apareciam. E tudo ficava diferente.

 Certo
estava aquele que me mandou ler poesia. Lembrei-me que, de fato, eu já havia
lido antes sobre essa transformação do olhar, num texto de Octávio Paz.

"Todos
os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim. Todas as tardes os nossos
olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano.De
repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de
nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora
ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais.
 Isso que estamos vendo pela primeira vez já havíamos visto antes. Em algum lugar, no
qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se
a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse
lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao
mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a
fronte. Estamos encantados, suspensos no meio da tarde imóvel."

 É
assim que ficam os meus olhos, é assim que fica o meu mundo, quando a saudade
se aconchega no meu colo, quando a velhice brinca comigo... Os olhos normais
vêem as ruas, os muros, os jardins, do jeito mesmo como eles são, do jeito
mesmo como apareceriam se deles se tirasse uma fotografia. Já os olhos que a
saudade encantou ficam dotados de estranhos poderes mágicos: eles vêem as
ausências, o que não está lá mas que o coração deseja.

 Quando
eu estava no grupo me fizeram memorizar muitas coisas. A maioria eu esqueci.
Algumas eu decorei. Destas eu ainda me lembro. Faço distinção entre memorizar e decorar. Memorizar é coisa mecânica. Decorar, como a própria etimologia revela, é coisa de amor. Decorar vem da palavra latina cor, que quer dizer coração. Decorar é escrever no
coração. O que é escrito no coração passa a fazer parte do corpo; não é esquecido nunca. Palavras da Adélia: "O que a memória amou fica eterno".

 A
meditação sobre os olhos e a saudade trouxe-me à lembrança este poema de Tomás
Antônio Gonzaga, decorado. Se, menino, o decorei, é porque vinha misturado com
o golinho de velhice que eu bebia todo dia.
"Acaso
são estes os sítios formosos,/ aonde passava os anos gostosos?/ São estes os
prados aonde brincava,/ enquanto pastava o manso rebanho/ que Alceu me deixou?/
Daquele penhasco um rio caía;/ ao som do sussurro/ que vezes dormia!/ Agora não
cobrem espumas nevadas/ as pedras quebradas: parece que o rio o curso voltou./
Meus versos, alegre, aqui repetia;/ o eco as palavras três vezes dizia./ Se
chamo por ele, já não me responde;/ parece se esconde,/ cansado de dar-me/ os
ais que lhe dou./ Aqui um regato corria sereno/ por margens cobertas de flores
e feno;/ à esquerda se erguia um bosque fechado,/ e o tempo apressado, que nada
respeita,/ já tudo mudou./ Mas como discorro?/ Acaso podia já tudo mudar-se no
espaço de um dia?/ Existem as fontes e os freixos copados;/ dão flores os
prados, e corre a cascata,/ que nunca secou./ Minha alma, que tinha liberta a
vontade,/ agora já sente amor e saudade./ Os sítios formosos, que já me
agradaram,/ ah! não se mudaram.../ ...mudaram-se os olhos,/ de triste que
estou./ São estes os sítios?/ São estes./ Mas eu o mesmo não sou./ Marília, tu
chamas?/ Espera, que eu vou."

 E,
para terminar, mais um golinho de velhice, um verso de Rilke: "Quem nos
desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?
Como aquele que, partindo, se detém na última colina a contemplar o vale na
distância - e ainda uma vez se volta, hesitante, e aguarda - assim vivemos nós,
numa incessante despedida."

Velhice

é assim. Miguilim sabia muito bem.

Rubem Alves /1992