sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Entre mim e a vida há um vidro tênue.
INTERVALO DOLOROSO
"Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha
dor.
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel
rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos
sombrios da pouca água.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a
vida, eu não posso lhe tocar.
Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode
esforçar-se. Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria
abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem!
qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de
eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me
esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e atos.
Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de
angústia.
Mesmo eu , o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas
aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de quem me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a
carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os
pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela."
Bernardo Soares, O Fernando Pessoa - de todos eles- que mais me toca o coração.
in O Livro do Desassossego.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Estou farto de mim.
Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens… São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos do meu destino.
Nuvens… Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria.
Nuvens… Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens… Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero!
Nuvens… Estão passando sempre umas muito grandes, parecendo, porque as casas não deixam ver se são menos grandes que parecem, que vão a tomar todo o céu; outras de tamanho incerto, podendo ser duas juntas ou uma que se vai partir em duas, sem sentido no ar alto contra o céu fatigado; outras ainda, pequenas, parecendo brinquedos de poderosas coisas, bolas irregulares de um jogo absurdo, só para um lado, num grande isolamento, frias.
Nuvens… Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto a parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim, objetiva e subjetivamente Estou farto de tudo, e do tudo de tudo.
Nuvens… São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula e o céu que não existe; farrapos indescritíveis do tédio que lhes imponho; névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um hospital sem paredes.
Nuvens… São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, alegrando brancas ou escureando negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu.
Nuvens… Continuam passando, continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu desfeito.
Bernardo Soares/FP in O Livro do Desassossego.
O "meu" livro para sempre!
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Não sou a mulher maravilha.
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo 'Olha que estou tendo muita paciência com você!'
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Canção das Mulheres - Lya Luft
In Pensar é Transgredir /Editora Record, 2004.
O problema , creio, é que nos esforçamos para ser a mulher maravilha e não conseguir é uma real frustração. Que fácil seria apenas viver...Como e onde se aprende isso?
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
O mal multiplica-se como sombra...
Não conhecemos nosso destino e nem as circunstâncias interiores e exteriores que o levarão ao sucesso ou ao malogro de nossas intenções de vida. O mal não necessita de nenhuma intrepidez de caráter: multiplica-se como sombra sem fonte de luz definida.
O bem requer um esforço de sociedade e uma disposição de vontade individual tais que sua realização é sempre um ato de coragem, como, aliás, a verdadeira alegria.
A distinção entre um e outro é objeto da ética e de seus finalismos morais.
A violência é a loucura do mal e a sua banalidade, para lembrarmos Hannah Arendt, pode ser mais danosa do que todos os maus instintos juntos.
Não podemos perder nossa capacidade de indignação.
A indigência ética - para lembrar agora uma expressão de Heidegger - de nossa época é o grande desafio de nossa sociedade. Buscar arrancá-la de um relativismo absoluto no qual tudo se compreende e tudo se perdoa, sem deixá-la resvalar pela pirambeira metafísica dos universalismos místicos e racionalistas, em que tudo se explica e nada se entende, é a tarefa maior que devemos nos propor realizar.
Estudar, sob os seus mais diferentes aspectos, os mecanismos da violência é, sem dúvida, um passo importante para o seu entendimento, mas não necessariamente para o seu perdão. Um pouco de Nietzche não fará mal a ninguém!
Violência : faces e máscaras.
In O mistério da impiedade
Carlos Vogt
"Por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira, e para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade". (Tessalonicenses, 2: 11- 12).
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Pela literatura os seres vivos se reconhecem e dialogam.
"Vivemos numa época de especialização do conhecimento, causada pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.
A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido de pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo - de povos ou indivíduos - gera paranoias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocabulários herméticos.
A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração."
Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa recebe prêmio literário Carlos Fuentes das mãos do presidente mexicano Felipe Calderon (21/11/12)
sábado, 17 de novembro de 2012
O que faz o sucesso da saga Crepúsculo?
O que faz uma professora de literatura que lê, relê e propaga incontáveis vezes ,
durante – quase- 48 anos, Fernando Pessoa, Saramago, Machado de Assis,
Drummond, Clarice Lispector, Borges, Lobo Antunes, Kafka e mais dezenas de clássicos, estar, hoje, imersa na saga “Crepúsculo”?!
Em princípio, o mesmo que me levou a Harry Potter, Senhor do Anéis ...a curiosidade em saber por que era
tão difícil convencer um adolescente a ler, enquanto essa obras disparavam como
sucessos editoriais e cinematográficos. Linguagem ágil, fantasia, um mundo
paralelo, no qual tudo era possível e que falava a linguagem jovem que um adulto faz muito
esforço para compreender.
Com “ Crepúsculo”, a história começou com minha neta – Cíntia, aos 11 anos – absolutamente fascinada pelo personagem e pelo inusitado da trama Ela conseguia ler em dois, três dias, um calhamaço de páginas , com a maior sofreguidão. E queria mais.
Mergulhei nos cinco exemplares do texto , e senti que não era de todo mal, mas alguma coisa não se encaixava. Assisti aos filmes mais de uma vez e – confesso- achava tudo um pouco absurdo, mas os contos de fada também o são.
Ontem ,depois de assistir a “Amanhecer, o final”, enquanto a Cíntia chorava copiosamente pela segunda vez, porque já havia chorado na estreia, finalmente entendi. Uma família de vampiros que se mantém unida para defender-se, que se ama, que protege o mais fraco. Um vampiro jovem que ama e RESPEITA a mulher amada, a protege e luta por ela. A amizade para lá de improvável – e leal- com um ser de outra espécie e- de novo – o respeito.
Acredito que as adolescentes pensem que gritam e choram pelo mocinho-vampiro rico, bonito ,apaixonado, cavalheiro, protetor...sem dúvida, é por isso mesmo, mas tem mais...é por umA questão de valores. Em uma sociedade, no qual estes estão esquecidos ,vilipendiados e desprezados, Stephenie Meyer conseguiu passar- sutil subliminarmente a mensagem de respeito seja em que linguagem for.
O que faz Edward querer Bella, uma garota insossa ( ou seria recatada, em uma época de “periguetes”?). O que faz Bella querer um vampiro branquelo que brilha? ( uma “fadinha “segundo os meninos enciumados com o sucesso do Edward).AMOR E RESPEITO DE AMBOS, UM PELO OUTRO. Simples assim.
Penso que a saga cumpriu seu papel para os jovens e para os adultos que se dispuserem a enxergar. O mundo real está distorcido. Vanguarda , futurismo, contemporaneidade não têm que sepultar valores morais. Estes vivem apesar de.
Estou feliz por ter descoberto isso. A Cíntia vai guardar os livros na estante e a história no coração.
(...mas continuo desejando, do fundo do meu coração, que todos leiam , TAMBÉM, Fernando Pessoa, Saramago, Guimarães Rosa, Garcia Marquez,etc, etc, etc....)
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Os vestígios também se vão.
(...)Naturalmente, nada impede que você recoloque a cadeira no mesmo lugar de antes, se sente nela e permaneça ali por quanto tempo quiser, ou conseguir, e durante todo esse tempo goze a sensação de estar na posse da sua materialidade perdida. Mas essa sensação é ilusória, pois esses vestígios não fazem mais parte de você: só podem ser ocupados provisoriamente, como uma roupa que se veste. Assim que se cansar desse jogo e se levantar da cadeira, você vai voltar a perdê-los: mais ainda, vai perder também uma pequena porção adicional de sua matéria, mais vestígios seus que vão ficar no ar, superpostos aos anteriores.
Esses vestígios mais cedo ou mais tarde vão se dispersar, com o movimento constante de corpos no quarto, e se perder para sempre. Assim, você está constantemente largando camadas sucessivas de seu ser, desintegrando-se a cada instante de sua existência no espaço; e é por isso que você não é eterno, não pode ser eterno, pelo mesmo motivo que um lápis ou uma borracha não podem ser eternos.
Mas há uma maneira simples de alterar essa situação - quer dizer, não alterá-la objetivamente, o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma situação é a mesma coisa que modificar a situação em si): basta sentar-se na cadeira, pegar um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever.
in Paraísos Artificiais ( P.H.Britto)
´
É instigante lembrar que apenas passamos pela vida e de nós se vão até os vestígios.
Que tudo se desintegra por completo,mesmo a simples memória.
A única permanência possível está em palavras ...as que permanecem.
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