segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O mundo é refém da embalagem!




Não importa se é bom ou belo, mas sim de onde vem e quanto custa. Este é o paradigma clássico do comportamento consumista de uma sociedade que prioriza o capital. Afinal, dinheiro e luxo – quase – necessariamente casam-se, e o que é genuíno, autêntico, simples, se é barato, é relegado ao descarte.
Assim, a humanidade evolui em tecnologia e ciência, enquanto os seres humanos vão sendo reificados, desqualificando-se .
A pesquisa cênica criada pelo Washington Post demonstrou não apenas o desconhecimento de um talento consagrado,mundialmente, mas a ausência de sensibilidade com que as pessoas conduzem suas vidas no cotidiano. Não enxergam nem o belo gratuito. Somem-se aí as manhãs azuis e ensolaradas, os jardins floridos, a algazarra das crianças em parquinhos, pássaros em vôos livres, o sabor do vento...e tantos mais.
Acostumou-se a valorizar o contexto luxuoso, o invólucro, a embalagem,uma vez que esses colocam o sabor do dinheiro em suas “pobres” vidas.


(Numa experiência inédita, Joshua Bell, um dos mais famosos violinistas do Mundo, tocou incógnito durante 45 minutos, numa estação de metro de Washington, de manhã, em hora de ponta, despertando pouca ou nenhuma atenção. A provocatória iniciativa foi da responsabilidade do jornal 'Washington Post', que pretendeu lançar um debate sobre arte, beleza e contextos. Ninguém reparou também que o violinista tocava com um Stradivarius de 1713 - que vale 3,5 milhões de dólares.

Três dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam 100 dólares, mas na estação de metro foi ostensivamente ignorado pela maioria.)




sábado, 4 de fevereiro de 2012

Valores morais não estão à venda.




(Reply com adendo)


O que move o homem  em direção à sua plenitude são os valores que ele cultiva  e nos quais transita fiel no decorrer de sua jornada. Obviamente, mudanças, imprevistos ocorrem , mas somos maleáveis o suficiente  para nos moldarmos às transformações  sem  que se perca nossa dignidade. Afinal, somos seres humanos, sensíveis , sim, mas racionais.Transgredir valores morais conspurca a alma, destrói o ego.
 Quando algo, seja contextual, seja interior ,quebra nossa convicção , e obriga-nos a ter consciência, é hora de atitude e de ação.
Consequências? Virão aos borbotões...mas serão menores do que o vazio , suportáveis quando estamos “ limpos” e em paz.

Conviver em e com uma sociedade de valores transitórios é tristíssimo, mas muito pior é aceitar dobrar-se a ela. Não quero isso para mim.Definitivamente. A juventude é poderosa, mas a maturidade nos dá chance de balanço, de pesar o que aprendemos e como  ( e se queremos...)colocar em prática.


Ninguém é suficientemente sábio para para se declarar dono da verdade, mas para escolher o que quer para si, sem dúvida.Isso é questão de princípios.Por isso...


... eu tivesse algum poder , hoje, gostaria de dizer com pompa e circunstância :

“ Parem o mundo que eu quero descer.”


Como essa possibilidade inexiste, é hora de escolher.


(...)


Há um ano , era assim que eu me sentia: extremamente frustrada por estar me comportando de maneira antagônica a tudo que sou e valorizo. A imagem que coloquei no texto era um galho de espinhos, exatamente como estava meu coração: machucado. 
E o tempo foi se arrastando, algumas arestas foram sendo aparadas, mas a sensação de vazio continuou.Inadequação, é essa a palavra. Inadequada no lugar e no tempo.
Reproduzo o texto na integra , porque finalmente escolhi ser Gente, em primeiro lugar .
Demorou um pouco, mas consegui.
Se vai dar certo?
Não sei...quem sabe? Ninguém. Errar, tentando é uma coisa, desistir é outra...
A minha alma agradece a atitude, aquela que sempre preguei e não estava exercendo : consciência sem atitude é nada.


O amanhã é só um substantivo.




( O sol brilha muito forte em um céu absolutamente azul...)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma única vida é pouco.



Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência. Quando os números deixam de ser números. Trinta, quarenta, cinquenta anos.

As gerações sucedem-se. Os degraus de uma escada rolante que desaparecem lá em cima enquanto subimos, subimos, olhamos para trás e ainda vemos o primeiro degrau, quase como quando tínhamos acabado de chegar e, no entanto, continuamos a subir e vemos já o fim.

Os nossos avós mortos, os nossos pais mortos, nós, os nossos filhos, os nossos netos. E, se existir um horizonte, podemos olhá-lo e perceber finalmente que estamos parados no tempo e que o tempo, nesse presente definitivo, está parado dentro de nós.



Eu olho para esse horizonte, arrependo-me e não me arrependo, tento compreender ou lembrar-me daquilo que quero mesmo. Depois, penso em tudo aquilo que posso fazer para que aconteça: os gestos e as palavras. Depois, hoje é um dia mais forte e, de repente, imenso. 

Depois, penso em tudo aquilo de que terei de desistir para alcançar o que quero: para ser o que desejo ser. Então, não fico triste. Aceito tudo aquilo que nunca fiz e que acredito que nunca terei vida suficiente para fazer. Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada. Uma única vida é pouco. Aceito essa certeza sem que ninguém me pergunte se estou disposto a aceitá-la.

"na hora de pôr a mesa éramos cinco
 o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu, depois, a minha irmã mais velha
 casou-se, depois, a minha irmã mais nova

casou-se, depois o meu pai morreu, hoje
 na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está
 na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu
 pai, menos a minha mãe viúva, cada um

deles é um lugar vazio nessa mesa onde
 como sozinho, mas irão estar sempre aqui

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco,
 enquanto um de nós estiver vivo, seremos
 sempre cinco."


   José Luís Peixoto  in  Cemitério de Pianos.


Em todos os seus romances Família e Morte são temas sempre presentes.O autor de “Morreste-me”, “Nenhum Olhar”, “Uma Casa na Escuridão” e “Antídoto”, ambiciona tornar-se um escritor atemporal, interpretado através dos seus textos quantas vezes a vontade o quiser e pelo pouco que nos é possível opinar, parece óbvio que irá conseguir.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Amizade não se procura,exercita-se.





Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. É preciso recusá-la para se ser digno de a receber: ela é da categoria da graça («Meu Deus, afastai-vos de mim...»). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Toda a ilusão de amizade merece ser destruída.[…]

A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se (é uma virtude).
[…]
A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre existe, simplesmente, no fato de que ela existe.


Simone Weil, 'A Gravidade e a Graça'






Talvez esteja aí a resposta para a alegria ruidosa de quem vive entre "muitos amigos" e só os tem em momentos festivos. Alegria transitória mascarada em fotos ocasionais , nas quais a roupa e o sorriso não mostram a alma. Amigos são " coisa para se guardar dentro do peito". Poucos  e essenciais. O encaixe perfeito.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Éramos uma manhã...




...éramos dentro da noite uma manhã.
Uma manhã assim, quando a gente acorda com vontade de viver e de sonhar.
Temos que fazer dos momentos os motivos
e senti-los em sonhos.

Éramos dentro da noite uma manhã de sol e luz.
Nasciam flores dos sorrisos dos pássaros e não existia mais nada.
Nem as imagens que chegam,nem as que fogem,
Nem a vida lá fora, nem o começo,nem o fim...

( Não se explica como nasce uma flor...Sente-se.
De repente, a dama da noite dança e existe.
Em outro dia, talvez, tenha sumido,
Mas existiu, foi lindo.)
Assim éramos nós.

Contávamos estrelas e nos apoderávamos delas.
Acendíamos lampiões, fazíamos cálculos e
Derrubávamos árvores que não dão flores...
Éramos dentro da noite uma manhã de céu azul.

Tudo pedia conquistas...e elas pareciam tão fáceis!
...a luz baça da lua iluminava com a doçura  de gatinhos dormindo
as diferenças entre nós.
Na periferia dos meus sonhos eu fazia equações impossíveis
Com variável e invariável- justo eu que odeio matemática.
Destruía as pálpebras do mundo que queriam cerrar nossos olhos e
poupavam tigres que comiam as flores nascidas de sorrisos...

Éramos uma manhã dentro da noite escura...
Tínhamos um poder estranho que nos levava a mundos incríveis,
Dormíamos sobre as nuvens e sonhávamos.

Enquanto tudo existia e nada existia
Houve uma manhã dentro da noite...

Só agora vejo quanto o tempo passou.
Sinto-me perdida na claridade do deserto.
Percebo que o oásis onde tudo existe ficou lá
na manhã que fomos dentro da noite.

Sinto a cada instante que gosto mais e mais da manhã que fomos,
E que, nunca mais , voltaremos a ser.

Hoje não há noites nos meus dias
Nem manhãs nas minhas noites.

Estou só.


Gizelda
( noites de sol, lá longe, em outras manhãs...)

domingo, 22 de janeiro de 2012

O fim da viagem é apenas o começo da outra.






A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. 
É preciso recomeçar a viagem. Sempre..."


In Viagem a Portugal, de José Saramago ( eterno,felizmente.)




Quando não há mais o que ver é que a vida começa. E com ela, a pluralidade de encontros e as surpresas.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O amor SEMPRE acaba.


O amor acaba
Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba.
 Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira



Triste  constatação.
Nada e ninguém é capaz de reter o amor.É uma gigantesca onda que vem, mas vai-se em seguida...em nossas mãos resta a areia, apenas.