quarta-feira, 12 de setembro de 2012

... sem saber para onde.




Separação
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. 

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. 

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. 

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos.

 Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. 

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

Vinicius de Moraes.

Uma agonia...qualquer separação dói tanto que, mesmo quando é um alívio, continua a ser uma agonia.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Cada idade tem seu brilho.


                                      Tela a óleo- Rute Martins

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.


Affonso Romano de Sant'Anna

Em uma época em que o culto da juventude é lei,parece difícil encontrar pessoas cujos valores tenham tanta sensibilidade. Mas...para toda regra há exceções, felizmente.E essa poesia toda transborda no texto de Sant'Anna.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Melancolias...e um sapato de verniz.



Dizem que ser velho ou jovem é apenas estado de espírito. Será?

Um olhar de relance a uma vitrine, na manhã chuvosa de segunda-feira passada,fez-me questionar essa afirmação.

Em uma prateleira de loja, fartamente iluminada, ali estava "ele", um delicioso sapato de verniz preto, de saltos altíssimos, exercendo seu poder de sedução.Semelhante a outros que usei , há muito tempo, com a leveza de quem é jovem.
Senti uma vontade imensa de calçá-los,mesmo que só o fizesse sem sair dali, mas o trânsito fluiu e a imagem não se apagou da minha memória.
E me incomodou.
Poderia tê-lo comprado só para ostentá-lo no meu quarto.Por que não?

A verdade,porém, é que o que ficou desse olhar não podia ser comprado , o tempo.
Senti na boca um gosto de sal e açucar. Gosto de certezas difíceis de aceitar.

Dei-me conta- de repente- do" nunca mais".E este veio aos borbotões, numa avalanche de certezas -camufladas- até então :
-nunca mais esmaltes escandalosamente vermelhos e brilhantes,
-nunca mais noites intensas de carnaval,
-nunca mais vestidos esvoaçantes de musselina rosa,
-nunca mais beijos roubados no escurinho do cinema,
-nunca mais sussuros ao pé do ouvido em intermináveis noites de lua cheia...
e tantos e tantos outros "nunca mais", tão ou mais belos que estes.

O gosto na saliva persiste . É agridoce. Saudades e pesar.

Metáforas à parte, ser jovem pressupõe muito mais do que alma ou espírito.
Só quem o foi , um dia, terá coragem de admitir isso.

Assim, em uma manhã bem cinzenta, conscientemente, admito : envelheci.

20 /maio/ 2009

Ah! um dia vou ficar livre das minhas agendas " de ontem"...


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sou o que perdi.



"Sou aquele pedacinho de inocência que deixei no berço,
 sou aquela imaturidade que perdi na adolescência,
 sou aquelas insanidades que cometia quando não possuía responsabilidades,
 sou aquela doçura infantil que tornou-se amarga ao crescer...

 Sou aquela falta de senso,
 sou aquele ser que escutava tudo e sobre tudo perguntava, que hoje fecha-se em lábios calados...
 Sou a antiga pureza que foi profanada.
 Sou o mancebo que tanto cortejava, e que não se importava em receber nãos.
 Sou aquela esperança, hoje tão rala, que aos poucos, esvai-se do meu coração.
 Sou feita do amor daqueles que me tanto amaram nesta vida passageira,
 Sou feita do afeto tão precioso dos meus escassos, porém dedicados amigos.
 Sou a princesinha que cansou de sonhar acordada com seu príncipe encantado,
 sou a donzela que largou a vida de rainha atrás de aventuras,
 sou a adulta que não suporta a ideia de velhice...
 Sou o que perdi."

Fernando Pessoa


É preciso mais?

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Voltar prá casa....


Desde sempre , acostumei-me a gerenciar minha vida, mesmo que a prioridade não fosse eu.
Escolhas difíceis  cujas consequências não foram as esperadas aconteceram, mas não foram regra.  Não obstante"virar a mesa"  e recomeçar sempre me aconteceu

.Claro que, premida por circunstâncias incontornáveis,cedi algumas - muitas- vezes,sempre com a incômoda sensação de estar inadequada e transitória naquele momento e naquele lugar.Assim como uma peça do quebra-cabeças, a definitiva,que  não se encaixasse por estar na moldura incorreta.

Viver isso sempre foi, literalmente,um inferno, mas sempre se podia voltar prá casa. Casa, o que é casa?Um belo apartamento? Um amontoado de tijolos que enfeita uma esquina? o quê?

Ainda agora, sentada na minha sala, sinto uma vontade infinita de voltar prá casa.E não a tenho mais.

Casa , a nossa, é onde estão nossos pais, nossos avós, nossa raiz.Nós construímos casas para nossos filhos que vem e vão ao sabor da vida.Somos a casa deles.Mas a nossa casa é outra.É onde fomos queridos, amados, desejados, sempre.

Quando nossos pais se vão, desmancha-se a nossa casa. Temos um domicílio,um endereço,uma paragem,mas nunca mais poderemos voltar prá nossa casa....

Uma lua cheia inacreditável banha as largas portas de vidro.Doura muitos e muito outros domicílios de pessoas que, como eu, sabem , dolorosamente, que não podem mais voltar prá casa...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma árvore, uma galinha, uma estrela. Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?



VAMOS REORDENAR AS PRIORIDADES...

Sou uma pessoa comum. Fui criado com princípios morais comuns.

Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação a segurança era a de que os "lanterninhas" dos cinemas nos expulsassem devido as batidas com os pés no chão quando uma determinada musica era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo.

Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, idosos, autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais/mães das crianças da rua, do bairro, da cidade.Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.

Ouvindo hoje o jornal da noite, deu-me uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo o que meu filho precisa temer. Pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, sequestrar jovens, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidades de noticias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo .

Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de industrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade.Regalias em presídios são matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos.

Não levar vantagem e ser otário. Pagar dívidas em dia e bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.

O que aconteceu conosco? Professores surrados em salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas portas e janelas.

Crianças morrendo de fome, gente com fome de morte.

Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos que recém largaram as fraldas. TV, DVD, telefone, vídeo game, o que vai querer em troca desse amasso, meu filho? Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto.

Que lares são esses? Bom dia, boa noite, até mais. Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o presente uma droga. O que é aquilo?

Uma árvore, uma galinha, uma estrela. Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo? Quando foi que senti amor pela última vez? Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que fechei a janela do meu carro? Quando foi que me fechei?

Quero de volta a minha dignidade, a minha paz e o lugar onde o bem e o mal
são contrários, onde o mocinho luta com o bandido e o único medo e de quem
infringe, de quem rouba e mata. Quero de volta a lei e a ordem.

Quero liberdade com segurança. Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores. Quero sentar na calçada, e minha porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho.

Quero a vergonha, a solidariedade e a certeza do futuro. Quero a esperança,a alegria. Eu quero ser gente e não peça de um jogo manipulado por TV a cabo.

Eu quero a noticia boa, a descoberta da vacina, a plantação do arroz. Eu quero ver os colonos na terra, as crianças no colégio, os jovens divertindo-se, os velhinhos contando historias. Eu quero um emprego decente, um salário condizente, uma oportunidade a mais. Uma casa para todos, comida na mesa, saúde a mil.

Quero livros e cachorros e sapatos e água limpa. Não quero listas de animais em extinção. Não quero clone de gente, quero cópia das letras de música.

Eu quero voltar a ser feliz!
Quero dizer basta a esta inversão de valores e ideais.
Quero mandar calar a boca quem diz "a nível de", "neste país", "enquanto pessoa", "eles tem que", "é preciso que".

Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba um lápis, quem ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não paga a conta, quem não dignifica meu voto.

Quero rir de quem acha que precisa de silicone, implante, conta no banco, carro importado, laptop, bolsa XYZ, calca ZYX para se sentir inserido no contexto ou ser "normal".

Abaixo a ditadura do "tem que", as receitas de bolo para viver melhor, as técnicas para pensar, falar, sentir! Abaixo o especialista, o sabe-tudo rodeado de microfones e câmeras!

Abaixo o "ter", viva o "ser"!

E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã!

E definitivamente comum, como eu.
.



Não tenho a mínima noção de quem seja autor, ,mas o texto foi, casualmente, encontrado na WEB,sob múltipla autoria. Confesso que fiquei tocada por ele.  Á medida em que o li, fui subscrevendo o texto. Creio que a maioria de nós sente-se assim , aviltada e ludibriada por valores invertidos com os quais convivemos oprimidos no cotidiano.Como bois no matadouro, damos a cabeça a prêmio e a fila segue interminável.No entanto, palavras são apenas palavras , enquanto não se concretizam em ações. Querer não é poder...o ditado é ilusório.O poder está em ações que não realizamos. Mea culpa.

Seja lá quem o escreveu, é um "senhor" desabafo!Valeu para quem o escreveu, valeu para mim e pode valer para você!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O amor reparte, mas sobretudo acrescenta.



A fruta aberta

Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.


Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.


Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.


Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.



Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962)
Thiago de Mello