quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Velho Tema : a busca da felicidade.



Viver feliz, meu irmão Galião, todo mundo quer, mas ninguém sabe ao certo o que torna a vida feliz; e não é fácil conseguir a felicidade, uma vez que, quanto mais ardentemente cada um a procura, se erra o caminho, mais dela se distancia; se o caminho o leva no sentido oposto, a própria velocidade aumenta a distância. Portanto, em primeiro lugar, devemos estabelecer antecipadamente o que buscamos atingir; depois, devemos examinar por onde podemos chegar lá mais rapidamente, e veremos, pelo caminho, desde que seja o certo, quanto avançamos cada dia e quanto nos aproximamos do objeto para o qual nos impele um desejo natural.

Enquanto vagarmos ao acaso, tendo por guia apenas os rumores e clamores dicordantes que nos chamam de todos os lados, nossa vida será consumida em idas e vindas e, além disso, abreviada, embora trabalhemos dia e noite para o nosso aperfeiçoamento.

Portanto, temos de decidir aonde vamos e por onde, não sem a ajuda de alguém experiente que conheça bem o caminho que pegamos, pois aqui, a situação não é a mesma que nas outras viagens: nelas há um caminho, e os habitantes que interrogamos não deixam que nos extraviemos; mas aqui, o caminho mais movimentado e mais conhecido é o que mais engana.

Sêneca in Sobre a Vida Feliz.


Se colocarmos no Google a palavra "felicidade" , é uma enormidade o número de obras e conselhos que aparecem ensinando a ser feliz. Como se houvesse uma receita mágica que, consumida,nos tornasse aptos a merecê-la ou encontrá-la.E mais: a impressão é de que podemos retê-la indefinidamente , vivendo em um nirvana para sempre- amém.
 Sêneca , antes de Cristo, já filosofava sobre a arte de ser feliz, prova inconteste de que o homem sempre foi assombrado pela  necessidade de encontrar a tal felicidade..Qual é o  grande segredo?...Ninguém o tem.

 Talvez  mais correto esteja o nosso Vicente de Carvalho em Velho Tema :


Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mulheres.



"Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas. São espiãs. Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós. Pare para refletir sobre o sexto-sentido .Alguém duvida de que ele exista? E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco? Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião pra São Paulo. Só meia-hora de vôo. Ela fala pra você levar um casaco, porque "vai fazer frio". Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas, depois que você já entrou, antes de decolar. O ar condicionado chega a pingar gelo de tanto frio que faz lá dentro!
"Leve um sapato extra na mala, querido. Vai que você pisa numa poça..."você não levar o "sapato extra", meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro. Pois o seu estará, sem dúvida, molhado...O sexto-sentido não faz sentido!É a comunicação direta com Deus!
Assim é muito fácil...
As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?
E não satisfeitas em ensinar a vida elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral.
Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...

Tudo isso é meio mágico...Talvez Ele tenha instalado o dispositivo "coração de mãe" nos "anjos da guarda" de Seus filhos (que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravasam?
Homens também choram, mas é um choro diferente. As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher...

Já viram como as mulheres conversam com os olhos? Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar. Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar. E apontam uma terceira pessoa com outro olhar. Quantos tipos de olhar existem? Elas conhecem todos...Parece que frequentam escolas diferentes das que frequentam os homens!
E é com um desses milhões de olhares que elas enfeitiçam os homens. EN-FEI-TI-ÇAM !
E tem mais! No tocante às profissões, por que se concentram nas áreas de Humanas? Para estudar os homens, é claro !Embora algumas disfarcem e estudem Exatas...
Nem mesmo Freud se arriscou a adentrar nessa seara. Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano, disse que a mulher era "um continente obscuro". Quer evidência maior do que essa?

Qualquer um que ama se aproxima de Deus .E com as mulheres também é assim.O amor as leva para perto dEle, já que Ele é o próprio amor. Por isso dizem "estar nas nuvens", quando apaixonadas.
É sabido que as mulheres confundem sexo e amor. E isso seria uma falha, se não obrigasse os homens a uma atitude mais sensível e respeitosa com a própria vida.
Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm ao lado.Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga, elas ainda são mulheres a maior parte do tempo. Mas elas são anjos depois do sexo-amor .É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado e voltam a ser anjos.
E levitam. Algumas até voam .Mas os homens não sabem disso .E nem poderiam. Porque são tomados por um encantamento que os faz dormir nessa hora."

 Mulheres – Crônica de Luís Fernando Veríssimo 


O bom humor de  Veríssimo é, sem dúvida, parte inequívoca de seu talento. Delícia que alguém ( palavra de homem) nos veja assim, mas somos também muito más e vingativas quando a oportunidade assim o enseja.É muito mais fácil ter um inimigo do que uma inimiga...( palavra de mulher).

domingo, 5 de agosto de 2012

Há quem viveu muito e nunca viveu.



Qualquer que seja a duração de nossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na
quantidade de duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu.
Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos,
terdes vivido bastante.


Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de
servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um
mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e coação.


 Montaigne in "Filosofar é aprender a morrer"


De “morre-se só” para “vive-se só” a conseqüência não é exata, pois se apenas a dor e a morte
forem invocadas para definir a subjetividade, então, para ela, a vida com outros e no mundo
serão impossíveis… Estamos verdadeiramente sós apenas quando não o sabemos. Essa
ignorância é a solidão… A solidão de onde emergimos para a vida intersubjetiva é apenas a
névoa de uma vida anônima e a barreira que nos separa dos outros é impalpável.


"O filósofo e sua sombra" /  Merleau-Ponty




Viver é um risco, principalmente quando se sabe- embora ninguém pense nisso - que podemos morrer em qualquer tempo.
Segundo Montaigne,saber morrer nos exime de toda sujeição e coação.Isso deveria ser o bastante, mas não é. Talvez,o que nos falte seja aceitar a morte como fato e não como probabilidade.
Mas, como se consegue  aceitar que somos o princípio e o fim? E que isso não é  filosofia, é realidade? 




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Palavras são acaso e fatalidade.




Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. 



Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.



Clarice Lispector

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado, 
sem roteiro de unha 
ou marca de dente
nessa pele clara. 
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sozinha com um estranho...que sou eu.



Eu queria estar só de um modo inusitado, totalmente novo. O oposto do que vocês pensam: isto é, sem mim e, portanto,com um estranho por perto.

Isso já lhes parece um primeiro sinal de loucura?Talvez porque não tenham refletido bem.Pode ser que a loucura já estivesse em mim, não nego, mas peço que acreditem que o único modo de estar realmente só é este que lhes digo.

A solidão nunca está com você, ela está sempre sem você e, portanto, ela só é possível na presença de algo estranho, lugar ou pessoa que seja, que o ignore completamente, e que você desconheça totalmente, de tal modo que a sua vontade e o seu sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiosa e, cessando toda afirmação de sua pessoa, cesse também a própria intimidade de sua consciência. 

A verdadeira solidão está em um lugar que vive por si e que para você não tem nem voz nem feição, onde o estranho é você.

Assim eu queria estar só. Sem mim. Quero dizer, sem aquele “mim” que eu já conhecia ou pensava conhecer. Sozinho com um certo estranho que eu já sentia obscuramente não poder afastar para longe, que era eu mesmo: o estranho inseparável de mim.

Luigi Pirandello


É precisamente isso : estou sozinha com uma estranha que sou eu. Difícil...
O precipício que existe em nós sempre é descoberto por alguém que o desnuda diante de nossos olhos.Olhar é sempre, ver, de vez em quando.Fatal.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fantoches da vida.




Às  vezes , temos  sensação de onipotência. Munidos de uma lufada de ousadia, caminhamos como se tudo dependesse de nós . Acreditamos que resolvemos todos os problemas  e que o indefectível livre-arbítrio conspira a nosso favor. Claro, esse “nós” diz respeito aos corajosos , aos otimistas, àqueles que pensam a vida e acreditam ter domínio sobre ela. Àqueles que acreditam ter as rédeas do destino nas mãos e brigam com unhas e dentes pela sua posse. Os amorfos são em maior número, acomodam-se,  conformam-se. (Há uma palavra mais triste do que conformismo?)

Mas...
...de repente o telefone toca e nossa tão propalada segurança nos escapa em um passe de mágica. Uma voz distante determina o fim da certeza e um ponto de interrogação paira no ar. E agora? Tornamo-nos reféns de algo que foge do nosso alcance. Temos que resistir, aceitar, reformular, e descobrir que, na maioria das vezes, somos impotentes. Ainda que façamos tudo  o que nos caiba, descobrimos a duras penas uma verdade cristalina :

É ela ,A VIDA, a protagonista de todas as histórias. Os holofotes estão nela e o desenrolar do enredo só ela sabe e só ela tem poder para mudar. Somos coadjuvantes, meros coadjuvantes, no entanto é imperioso acreditar que poderemos levar o Oscar  (como coadjuvantes, claro!), dependendo de como desempenhamos nosso papel e conseguimos nos destacar .  

Isso não é um questionamento, é uma ( triste?) constatação.

( emocionalmente exausta)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A monotonia é que é a felicidade.



Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exata à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.

Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.

Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.

Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.

É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, para meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa in 'Reflexões Pessoais'





É mais ou menos como a história do príncipe encantado.Enquanto o procuramos- em vão- deixamos passar um possível grande amor que vive ao nosso lado, Assim  é a felicidade : em busca das grandes , perdemos as pequenas, aquelas que vivemos todos os dias sem perceber.Só as percebemos quando se vão, mas então...que pena! Elas não nos querem mais.