quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Palavras são acaso e fatalidade.




Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. 



Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.



Clarice Lispector

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado, 
sem roteiro de unha 
ou marca de dente
nessa pele clara. 
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sozinha com um estranho...que sou eu.



Eu queria estar só de um modo inusitado, totalmente novo. O oposto do que vocês pensam: isto é, sem mim e, portanto,com um estranho por perto.

Isso já lhes parece um primeiro sinal de loucura?Talvez porque não tenham refletido bem.Pode ser que a loucura já estivesse em mim, não nego, mas peço que acreditem que o único modo de estar realmente só é este que lhes digo.

A solidão nunca está com você, ela está sempre sem você e, portanto, ela só é possível na presença de algo estranho, lugar ou pessoa que seja, que o ignore completamente, e que você desconheça totalmente, de tal modo que a sua vontade e o seu sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiosa e, cessando toda afirmação de sua pessoa, cesse também a própria intimidade de sua consciência. 

A verdadeira solidão está em um lugar que vive por si e que para você não tem nem voz nem feição, onde o estranho é você.

Assim eu queria estar só. Sem mim. Quero dizer, sem aquele “mim” que eu já conhecia ou pensava conhecer. Sozinho com um certo estranho que eu já sentia obscuramente não poder afastar para longe, que era eu mesmo: o estranho inseparável de mim.

Luigi Pirandello


É precisamente isso : estou sozinha com uma estranha que sou eu. Difícil...
O precipício que existe em nós sempre é descoberto por alguém que o desnuda diante de nossos olhos.Olhar é sempre, ver, de vez em quando.Fatal.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fantoches da vida.




Às  vezes , temos  sensação de onipotência. Munidos de uma lufada de ousadia, caminhamos como se tudo dependesse de nós . Acreditamos que resolvemos todos os problemas  e que o indefectível livre-arbítrio conspira a nosso favor. Claro, esse “nós” diz respeito aos corajosos , aos otimistas, àqueles que pensam a vida e acreditam ter domínio sobre ela. Àqueles que acreditam ter as rédeas do destino nas mãos e brigam com unhas e dentes pela sua posse. Os amorfos são em maior número, acomodam-se,  conformam-se. (Há uma palavra mais triste do que conformismo?)

Mas...
...de repente o telefone toca e nossa tão propalada segurança nos escapa em um passe de mágica. Uma voz distante determina o fim da certeza e um ponto de interrogação paira no ar. E agora? Tornamo-nos reféns de algo que foge do nosso alcance. Temos que resistir, aceitar, reformular, e descobrir que, na maioria das vezes, somos impotentes. Ainda que façamos tudo  o que nos caiba, descobrimos a duras penas uma verdade cristalina :

É ela ,A VIDA, a protagonista de todas as histórias. Os holofotes estão nela e o desenrolar do enredo só ela sabe e só ela tem poder para mudar. Somos coadjuvantes, meros coadjuvantes, no entanto é imperioso acreditar que poderemos levar o Oscar  (como coadjuvantes, claro!), dependendo de como desempenhamos nosso papel e conseguimos nos destacar .  

Isso não é um questionamento, é uma ( triste?) constatação.

( emocionalmente exausta)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A monotonia é que é a felicidade.



Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exata à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.

Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.

Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.

Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.

É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, para meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa in 'Reflexões Pessoais'





É mais ou menos como a história do príncipe encantado.Enquanto o procuramos- em vão- deixamos passar um possível grande amor que vive ao nosso lado, Assim  é a felicidade : em busca das grandes , perdemos as pequenas, aquelas que vivemos todos os dias sem perceber.Só as percebemos quando se vão, mas então...que pena! Elas não nos querem mais.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Entre o vento e o olvido.




Uma voz na pedra


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio. 
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa


Onde está essa palavra? E com quem? Talvez seja essa a eterna e inútil esperança...

terça-feira, 24 de julho de 2012

...há um pássaro azul no meu coração que quer sair




há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?


Charles Bukowski


No meu coração há um pássaro amarelo que se recusa a sair e a cantar.

sábado, 21 de julho de 2012

Antes de haver meu e teu, havia amor



“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso.
 No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terra se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu.”


Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70

Vieira é atemporal : ontem, hoje e sempre.