segunda-feira, 16 de julho de 2012
Os livros e eu.
Minha relação com livros é transcendental.às vezes, tenho a impressão de que há um entendimento entre "nós" que escapa do que seria normal. Eu me sinto feliz ( não alegre) com um livro nas mãos : ouço-o, sinto-lhe o cheiro,as páginas parecem carícias, enfim o alumbramento. Livrarias são um mundo maravilhoso , no qual eu gostaria de morar...rs.
A propósito,encontrei um texto que me identifica , e descubro que deve haver um exército igual a mim. Tenho encontrado tantos textos assim, que já nem sei qual e quem eu sou. Enfim, continuo feliz nesse meu mudinho particular : eu e eles...claro, os livros.
Os livros.
Os livros são um amor pesado.
Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com eles, de lugar para lugar. Os livros tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, eles perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de capas rijas desafiando o nosso desejo de mobilidade.
Revoltamo-nos: decidimos deixá-los para trás, oferecê-los, esquecê-los - mas eles não deixam. Porque quando passamos as mãos nas estantes, medindo forças com eles, há-de tombar-nos aos pés um livro que no chão, aberto, tem alguma coisa para nos dizer, alguma coisa que esquecêramos ou que agora subitamente descobrimos. Alguma coisa tão nossa que não reparámos nela. Um verso sublinhado, uma imagem, uma página que nos acelera o bater do coração e o galope do cérebro.
Quantas vezes utilizámos os livros como refúgios do cérebro contra as investidas do coração? Quantas vezes os usámos como trincheiras sentimentais contra as razões da vida? Quantas vidas vivemos dentro deles, por procuração? Quantos anos passámos escondidos nas esquinas daquelas páginas, à espera que delas saltasse a surpresa redentora que, de tanto esperarmos, se esfumou? Os livros são os guardiões das nossas culpas: da muda acusação inscrita nas lombadas velhas e virgens dos que nunca lemos ao grito silencioso dos que se desmoronam nas nossas mãos, riscados, batidos, cheios de areia, manchas de café, marcas de lágrimas e até - nefando crime - sombras de tabaco.
Por que gostamos tanto de alguns livros maus e nos negamos a conhecer tantos livros bons? Por que insistimos em levar até ao fim alguns livros que parecem recusar-nos? Por que mergulhamos em livros que sabemos que nos vão magoar? O que faremos às horas que perdemos a ler livros de que não recordamos uma frase? Poderemos ainda reencontrar aqueles que só depois de perdidos descobrimos que amávamos de verdade? Quantas vezes sacrificámos a escuta das nossas verdades à leitura das verdades de um livro? Quantas vezes nos enganámos nos livros, quantas vezes nos enganámos por fugirmos dos livros?
Decidimos então escolher - mas os livros ensinaram-nos também a precariedade das escolhas e das decisões. Há uma época da vida em que descobrimos que aquilo a que chamámos escolhas fundamentais resultou de um conjunto de factores e circunstâncias que, afinal, não dominámos. Fomos arrastados na enxurrada, sobrevivendo a temporais diversos - e agora, no promontório a que damos o nome de maturidade (porque ganhámos nos livros o vício de dar nome a tudo, classificar, organizar, compreender, explicar) olhamos para as escolhas que esboçámos e abandonámos, e esforçamo-nos por recomeçar o desenho da nossa vida, numa página em branco. Mas aprendemos que o branco puro não existe - nem o negro, nem o amarelo, nem o azul ou o vermelho. Nenhuma cor é afinal absoluta como nós pensávamos, nesse tempo em que chamávamos razão ao instinto, paixão ao desejo, amor ao medo, originalidade à arrogância e ousadia à provocação. Ou vice-versa - tínhamos um feixe de certezas absolutas, e uma incapacidade atávica de escutar as várias versões de uma mesma história. Talvez fosse apenas impaciência - mas nós chamavamos-lhe idealismo. Gostávamos tanto de livros que nos tornámos caçadores de palavras - e deixávamo-nos balear por elas, como se fossem canções. Agora olhamos para os livros como sinfonias, feitas de deambulações em torno de um tema recorrente, que se vai revelando em diferentes tons - à semelhança das nossas vidas.
Quando éramos jovens, sabíamos arrumar os livros. Agora não sabemos - cresceram, multiplicaram-se, por dentro e por fora. Sociologia ou Filosofia? História ou Economia? Quanto mais lemos, mais difícil se torna decidir. A Ficção nas estantes de cima - como se lêssemos um romance de cada vez; sempre pensámos que quando acabássemos de crescer seríamos menos sôfregos. Mas o que fazer aos romances que nos habituamos a reler como ensaios ou poemas, e que sentimos necessidade de folhear ao acaso, com uma saudade sensual, numa tarde de chuva?
Os inclassificáveis empilham-se pelos cantos da casa, à espera de uma hora iluminante - e os recém-chegados acabam por se misturar com eles. Ao fim de uma semana já não conseguimos encontrar nada, e odiamos os livros por atacado, bradamos contra eles, juramos livrar-nos deles. Depois folheamos um e dizemos: vamos escolher, separar, deixar para trás, mudar. Mas os livros agarram-nos, lambem-nos as mãos, atiram-se ao chão para que olhemos para eles, seduzem-nos através do cheiro, do toque, do pó das memórias.
Encaixotamo-los, e mudamo-nos, de novo, com eles - embora saibamos que nunca teremos tempo para os ler todos, e que continuaremos a ser injustos com eles, a amá-los mal, a perdê-los, a maltratá-los, a emprestá-los e a arrependermo-nos.
"Antes a experiência que a nostalgia", disse-me certa vez uma amiga. Um bom conselho serve para tudo, até para arrumar bibliotecas e perder o medo do caos e o travo da culpa que assombra o amor dos livros."
Inês Pedrosa / Crônica /2008
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira.
Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o
não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens…
São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu
fosse um dos grandes perigos do meu destino. Nuvens… Passam da barra para o
Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às
vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras,
se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco
sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que
as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria.
Nuvens… Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira.
Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a
vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada,
sendo eu nada também. Nuvens… Que desassossego se sinto, que desconforto se
penso, que inutilidade se quero! Nuvens… Estão passando sempre umas muito
grandes, parecendo, porque as casas não deixam ver se são menos grandes que
parecem, que vão a tomar todo o céu; outras de tamanho incerto, podendo ser
duas juntas ou uma que se vai partir em duas, sem sentido no ar alto contra o céu
fatigado; outras ainda, pequenas, parecendo brinquedos de poderosas coisas,
bolas irregulares de um jogo absurdo, só para um lado, num grande isolamento,
frias.
Nuvens… Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de
útil nem farei de justificável. Tenho gasto a parte da vida que não perdi em
interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações
intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim,
objectiva e subjectivamente. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo. Nuvens…
São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula
e o céu que não existe; farrapos indescritíveis do tédio que lhes imponho;
névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um
hospital sem paredes.
Nuvens… São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e
a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando,
alegrando brancas ou escureando negras, ficções do intervalo e do descaminho,
longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens… Continuam
passando, continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num
enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu
desfeito.
Bernardo Soares in O Livro do Desassossego( minha bíblia).
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Está tudo andando como deve andar. Será?
Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir. Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
- E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranquilo, mas atormentado
. - Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos. Mas, mesmo agora, toda vez (frequentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
´
Ítalo Calvino in Um general na biblioteca
Para reflexão : a metáfora da vida, o caos cotidiano de cada um.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Morrer é um destino. Nascer, uma sorte.
O mistério do
nascimento é mais profundo, escreveu em algum lugar Simone Weil, e mais rico
para meditar que o mistério da morte. É que ele nos confronta com o acaso, que
é a verdadeira necessidade, ao passo que a morte nos entrega apenas ao destino,
que é uma necessidade programada ou retrospectiva. Quer eu morra totalmente ou
não, ou melhor, quer eu ressuscite ou não, minha vida nesta terra nem por isso
deixará de ter sido a mesma. Mas, e se eu não tivesse nascido? Ou se tivesse
nascido de pais diferentes? Ou simplesmente, com os mesmos pais, se tivesse
sido recebido a partir de um outro óvulo, de um outro espermatozóide? Seria
outra pessoa, ou melhor, não seria. Toda morte é inevitável (mesmo que ocorra
por acaso: de qualquer modo é preciso morrer). Nenhum nascimento o é, mesmo que
tenha sido desejado ou programado pelos pais. Morrer é um destino. Nascer, uma
sorte.
Se nossos pais não
tivessem feito amor naquele dia, ou se o tivessem feito algumas horas depois,
ou antes, ou talvez simplesmente em uma outra posição, não estaríamos aqui hoje
para pensar a respeito. Acasos do desejo. Loteria da vida. Nascer é para cada
um a primeira grande sorte, necessariamente a mais importante, pois condiciona
todas as outras. Mas isso não é tudo. A mesma improbabilidade extrema valeu
também para a concepção de nosso pai e de nossa mãe, para cada um de nossos
quatro avós, para cada um de nossos oito bisavós…Essas sucessivas
improbabilidades, cada uma delas condicionada pelas que as precedem,
multiplicam-se uma à outra. Ao fim de algumas gerações, a probabilidade de cada
nascimento, embora não nula, é tão ínfima que nenhum estatístico sério
aceitaria prevê-la de antemão. Ganhar na loto é, ao lado disso, brincadeira de
criança.
É isso que nos deve
tornar exigentes. Essa vida tão improvável que nos é dada, cabe a nós não a
desperdiçar. A vida não é um destino, é uma aventura. Ninguém escolheu nascer;
ninguém vive sem escolher. Cada qual é inocente de si, mas responsável por seus
atos. E responsável, portanto, ao menos em parte, por aquilo que se tornou.
Aristóteles mais profundo que Sartre. É forjando que alguém se torna forjador.
É realizando ações virtuosas que alguém se torna virtuoso. “Fazer”, dizia
Lequier, “e, fazendo, fazer-se”. Isso não fará de nós outra pessoa, o que
ninguém consegue. Mas impede de nos resignarmos rápido demais ao que somos, o que
ninguém deve fazer.
André Comte-Sponville, A vida humana (Martins Fontes, pg. 24-26)
Está aí uma bela discussão: se formos pensar racionalmente, há momentos - e pessoas - em que morrer é sorte, nascer foi um destino, um mau destino.
Está aí uma bela discussão: se formos pensar racionalmente, há momentos - e pessoas - em que morrer é sorte, nascer foi um destino, um mau destino.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
A infelicidade humana se encontra na comparação.
Rubem Alves / Campinas,Correio Popular, 30/06/2002.
A noite chegou, o
trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está
escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta,
ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você
deseja é não estar em solidão…
Mas deixa que eu lhe
diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão.
Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música…
Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas
bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um
lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha.
Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se
lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza
entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair,
encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia
para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às
festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as
coisas da sua solidão… A noite estava perdida.
Faço-lhe uma
sugestão: leia o livro” A chama de uma
vela”, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que
jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é
sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de
claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama
solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório
bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro
solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o
leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas
acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É
precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o
abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece
que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um
coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard
iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há
mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho
a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha
solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A
solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma
realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas
coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que
fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com
você.” Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está
fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o
lugar onde você vai plantar o seu jardim.
Como é que a sua
solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se
comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão?
Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que
ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os
nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga.
Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: “Por muito tempo
achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a
lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a,
branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento
exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a
rouba mais de mim.!”
Nietzsche também
tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas
terríveis
que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de
longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele
amava. Eis aí três companheiras maravilhosas!
Vejo, frequentemente, pessoas que
caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares,
aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam
porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior
alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza.
Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento.
Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se
estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que
elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer
comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um
artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer
que “o inferno é o outro.” Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas,
voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela
me fala com ternura e felicidade! Não
discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas
abertas. Pois onde quer que
estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com
pés saltitantes.Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem
diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança
pede para aprender de mim a falar.”
E o Vinícius? Você se
lembra do seu poema "O operário em construção"? Vivia o operário em meio a muita
gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via,
nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o
operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo
naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde
operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento,
não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento!
Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem
sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de
operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia
no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante
solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário
adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.”
Rainer Maria Rilke,
um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras
de arte são de uma solidão infinita.” É na solidão que elas são geradas. Foi na
casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez
e se transformou em poeta.
E me lembro também de
Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:
“…Não me parecia
criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos
de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade,
restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância,
exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a
verdadeira Cecília…”
Sim, lá estava ela
delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias
que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe,
muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
O primeiro filósofo
que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até
hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação.
Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma
cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a
infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu
diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não
passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui
convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à
minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser
diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais
esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que
compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão
duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As
caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E
aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por
exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…
A sua infelicidade
com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a
cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em
celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da
inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual
pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.
Mas essa conversa não
acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.
Eu gostaria de ter criado esse texto,ele traduz exatamente o que eu sinto em relação à solidão.
domingo, 8 de julho de 2012
Todos os homens estão sós.
“A solidão, o sentir-se e saber-se só, desligado do mundo e
alheio a si mesmo, separado de si, não é característica exclusiva do mexicano.
Todos os homens, em algum momento da vida sentem-se sozinhos; e mais: todos os
homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no
que vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da
condição humana.
O homem é o único ser que sente só e o único que é busca de
outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao
homem, exatamente o ser que se inventou a si mesmo quando disse “não” à
natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e
busca de comunhão. Por isso, cada vez que sente a si mesmo, sente-se como
carência do outro, como solidão”.
Assim, sentir-se só possui um duplo significado: por um
lado, consiste em ter consciência de si; por outro, um desejo de sair de si. A
solidão, que é a própria condição de nossa vida, surge para nós como uma prova
e uma purgação, no fim da qual a instabilidade e a angústia desaparecerão. A
plenitude, a reunião, que é repouso e felicidade, e a concordância com o mundo,
nos esperam no fim do labirinto da solidão ."
Otávio Paz.
A solidão, aquela sensação ruim de ser incompreendido, de não poder contar com ninguém, de estar sozinho no mundo, pode causar mais males à saúde do que a obesidade e o tabagismo, tradicionalmente ligados a problemas cardíacos e cânceres, entre diversos outros problemas.
http://oglobo.globo.com/saude/solidao-pode-causar-mais-males-saude-que-obesidade-tabagismo-2805007#ixzz203lwLpk4
http://oglobo.globo.com/saude/solidao-pode-causar-mais-males-saude-que-obesidade-tabagismo-2805007#ixzz203lwLpk4
Será?!!!!!!!
Talvez solidão seja mais que não ter companhia física, palpável. Seja, sim, viver apartado de si próprio, sem conexão com o próprio "eu". Não ter autoestima é uma das piores formas de solidão (acho...)
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Quem não tem namorado não sabe o gosto da chuva...
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer sesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA!
Artur da Távola.
...sempre é tempo de celebrar o amor!
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