domingo, 24 de junho de 2012
Nossa alma deseja o absoluto.
“Em todos nós, no mais profundo da alma, há uma subterrânea inquietação, o desejo daquilo que parece sempre escapar-nos, a dor por qualquer coisa que não sabemos bem o que seja.
Até quando estamos apaixonados e somos correspondidos, no momento em que nos vamos embora ou o nosso amado parte, mesmo numa separação breve, aquele sofrimento profundo reaparece. Por vezes reaparece até num momento de felicidade porque aquela felicidade se nos revela fugaz.
Nós olhamos para o céu, um pequeno pedaço de céu azul, como que para concentrar nele toda a nossa felicidade e sentimos tristeza porque poderemos recordar aquele céu mas não podemos prolongar esse instante. Experimentamos este sofrimento à noite, sem motivo, de manhã ao acordar sem saber porquê.
A nossa alma está construída para desejar algo absoluto e, portanto, inefável e inacessível. Quando estamos ocupados não nos apercebemos disso (…) mas toda a nossa vontade está orientada para a meta e é ela que se ilumina com aquilo que procuramos sempre…”
Francesco Alberoni in “A árvore da vida”
Talvez seja esse o nosso destino : procurar infinitamente algo que não sabemos o que é . No cotidiano nos deparamos com " pequenas felicidades certas", que não nos satisfazem, porque passamos a vida em busca da grande felicidade.E,se ela surge, não sabemos reconhecê-la.
A alma deseja o absoluto... e, por falta dele, permanece vazia.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
É Preciso Não Esquecer Nada.
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles
Jorge Luis Borges, num conto chamado "Funes o Memorioso", demonstrou, pelo absurdo, que lembrar tudo é impossível. O personagem, Funes, pode lembrar até o último detalhe um dia inteiro de sua vida, mas, para fazê-lo, requer outro dia inteiro de sua vida, o que é impossível (Borges, 1943).
De fato, é necessário esquecer, ou pelo menos manter longe da evocação muitas memórias. Há muitas que nos perturbam: aquelas de medos, humilhações, maus momentos. Há outras que nos prejudicam (fobias) ou nos perseguem (estresse pós-traumático). Em razão do problema da saturação, existem memórias que nos impedem de adquirir outras novas ou adquirir outras antigas, mais importantes (por exemplo, como fugir em uma situação de medo).
Borges, em seu conto, aponta que Funes era "incapaz de esquecer para poder pensar, (pois) para pensar é necessário esquecer (detalhes) para poder fazer generalizações".A melhor forma de manter viva cada memória em particular é recordando-a. Como isso nem sempre é possível, e certamente não desejável, devemos nos aprimorar na prática da arte de esquecer, tão cantada pelos poetas, desde Ovídio até Borges.
Será que esquecer é uma arte? Ou um hiato de dor?
terça-feira, 19 de junho de 2012
O inferno é o julgamento.
"O inferno dos vivos não é algo que será; se
existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que
formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é
fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até
o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e
aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do
inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
in As cidades invisíveis -Ítalo Calvino
"O inferno são os outros" -Sartre
Por que é que nos preocupamos tanto com a opinião das pessoas a nosso respeito? Por que é que damos tanto atenção a seus pensamentos e suposições? Inferno é não ser feliz consigo mesmo e querer mudar porque as outras pessoas podem não gostar de você como é; inferno é você achar que está fazendo a coisa errada, só porque está agindo diferente dos outros, inferno é quando alguém que não é você mesmo, controla a sua vida e as suas escolhas. Quando dependemos do julgamento e das ações dos outros, quando deixamos que eles façam nossas escolhas por nós, abrimos mão de nossa liberdade e nos tornamos nossos próprios carrascos, criamos nosso inferno particular, queimamos no fogo alimentado por nossos medos, pela nossa falta de autonomia. O inferno é o julgamento.Mais...é a aceitação em ser julgado.
( diariosdafilosofia)
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Dois anos sem Saramago, para sempre com Saramago.
Quando em uma manhã cinzenta , 18 de junho de 2010, ouvi pela primeira vez a notícia da morte de Saramago, senti um frio agudo me penetrando os ossos, ainda que houvesse calor.Era como se ele tivesse obrigação de permanecer para sempre e, de repente, saísse da vida, assim, deixando-me só. Só depois de algumas horas, dei-me conta de que ele não se iria jamais.Sim , para Pilar, talvez, mas para nós ,seus leitores e admiradores, ele estava deixando um legado de ousadia, coragem , estilo, uma obra fecunda e crítica.
Bastava abrir um livro seu e mergulhar em sua companhia.
Dois anos depois , hoje, em busca de um texto que tivesse um significado especial , encontrei na WEB, o blog http://letterbombwithoutguns.blogspot.com.br/ , no qual em 19 de Junho de 2011 foi postado :UM ANO SEM JOSÉ SARAMAGO, que transcrevo aqui com a certeza de que é uma bela homenagem.
Um ano sem José Saramago. O homem que fez a diferença em Portugal, odiado por alguns, amado por muitos. O português que conquistou o coração da Espanha, mais amado por eles do que por nós. A Espanha, esse país fisicamente tão próximo e civilizacionalmente tão distante de nós, teve a capacidade de respeitar e entender a obra de Saramago. E desengane-se quem pensa que Saramago era menos provocador lá do que cá! Saramago não tinha duas faces. Aqui, neste país infetado de velhos do Restelo, apelidavam-no de arrogante e provocador (no sentido pejorativo da palavra); lá, a escassos 150 km daqui mas noutra galáxia civilizacional, respeitavam o seu génio provocador (no melhor sentido que a palavra encerra). Saramago dividiu os Portugueses e uniu os Espanhóis que o consideravam tão seu como Camilo José Cela, privilégio apenas concedido a alguns não nacionais, em regra hispânicos, como o peruano Mario Vargas Llosa ou o mexicano Octavio Paz. Mesmo em relação a estes, não existe o carinho devotado, e que persiste, a José Saramago. Uma áurea romântica invadiu quase por instinto o coração dos espanhóis relativamente ao severo e racional Saramago, o homem que sendo obrigado a exilar-se do seu país foi acolhido pelo enorme coração de Pilar del Rio. Saramago não se exilou de Portugal em busca de sucesso e reconhecimento. Isso fazem-no agora, sem hesitar e quase sem pensar, milhares de jovens que não se reveem neste país supostamente moribundo. Pelo contrário. Saramago exilou-se por não suportar a mesquinhez provinciana da classe política portuguesa e, ao fazê-lo, tornou-se o primeiro prisioneiro de consciência da democracia portuguesa. Nunca renegou Portugal. Amou-o até ao fim. Nas suas obras fala sempre de países hipotéticos e cenários abstratos e, se nos revemos recalcados e humilhados pelas suas obras, é porque nos encaixamos muito bem e muito tristemente nesses retratos literários. Que melhor prova de amor para com um Povo e um País do que Viagem a Portugal? Ao contrário do Povo de Portugal, que Saramago amava e tão bem entendia, porque fazia intrínseca parte dele, irritava supostos democratas, tão distantes do Portugal profundo, definitivamente burocratas, tão bem colocados na vida e barricados no discurso político supostamente correto. Todos sabemos quem eles são.
Não sei por onde vou, só sei que não vou por aí, dizia José Régio. Saramago também. E não foi. E fez muito bem. E está, em definitivo, nos memoriais deste País. E, para irritação de alguns (e, repito, todos sabemos quem são), ainda está cá. Pilar del Rio demonstrou-o ontem, um ano depois da sua morte, ao colocar as suas cinzas em frente à Fundação José Saramago. Desenganem-se senhores burocratas recalcados e génios (politicamente) vingativos, profissionais do desdém e do escárnio político! Não, Saramago não desapareceu nem será esquecido nesta terra de políticos sem Povo que o renegaram e censuraram. Não poderia subir para as estrelas, se à terra pertencia! Habituem-se à ideia senhores!
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Todos os que perdem a paixão de viver tornam-se bartlebys.
"Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Antes, eu jamais havia sentido qualquer coisa além de uma tristeza meio desagradável. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse atingido por um irresistível desalento. Uma melancolia fraternal! Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão. Lembrei-me das sedas cintilantes e dos rostos luminosos que eu havia visto naquele dia, em roupas de gala, deslizando como cisnes pelo Mississipi da Broadway; comparei-os com o pálido escriturário e pensei comigo mesmo: ah, a felicidade corteja a luz, então acreditamos que o mundo é alegre; o sofrimento esconde-se a distância, então supomos que não haja sofrimento. Esses tristes pensamentos - quimeras, sem dúvida, de uma mente doente e tola - levaram a outras reflexões especiais, essas a respeito das excentricidades de Bartleby. Pairavam sobre mim pressentimentos de estranhas descobertas. A silhueta pálida do escriturário surgia estendida, entre estranhos que não se importavam com ele, envolvida em um sudário gelado."
in Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street
uma fábula sobre a recusa humana em
agir diante da vida.
Herman MelvilleUma pequena grande obra. ( 96 páginas).
Tenho a nítida sensação de que precisaria nascer de novo para recuperar preciosidades que perdi por aí, sem saber onde ou quando....para poder viver em outro mundo , no qual ficção e realidade se mesclariam com tanta harmonia que me fariam sempre, como estou me sentindo agora : plena. É assim que eu me sinto toda vez que um livro como esse me propicia reflexão profunda, porque mergulho nela e , ainda que não dê frutos concretos,me dão momentos de inacreditável prazer.
Recomendado a todos os que não querem desistir da vida, mesmo que para tanto tenham que sangrar.Não é obra de leitura descompromissada.Dói.
Em tempo:
Bartleby, o Escriturário: Uma Historia de Wall Street Cod. do Produto: 21613606
ww.submarino.com.br/produto/1/21613606/bartleby,+o+escriturario:+uma+historia+de+wall+street
Desconto para você: R$ 0,70
De: R$ 6,99Por: R$ 6,29
Alguém acredita?
quarta-feira, 13 de junho de 2012
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
O aniversário é DELE, a festa é nossa!
Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/fernando-pessoa/aniversario.php#ixzz1xh5JEqCT
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Falta nada para ser feliz, agora. Depois?...é outro tempo.
"Por fim a fúria da tormenta amainou, e
com a primeira luz da manhã a entrar pela janela tomei um duche e vesti-me,
enquanto o Willie, envolto nas suas vestes de xeque tresnoitado, se encaminhava
para a cozinha. O cheiro do café acabado de moer chegou-me como uma carícia:
aromaterapia. Estas rotinas diárias unem mais que a desordem da paixão; quando
estamos separados, esta dança discreta é o que mais falta nos faz. Precisamos
de sentir a presença do outro neste espaço intangível que nos pertence apenas a
nós. Um amanhecer frio, o café e as torradas, tempo para escrever, uma cadela
que abana o rabo e o meu amante; a vida não podia ser melhor."
in " A Soma dos Dias " Isabel Allende
Às vezes , abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola.Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham a boca sonhando com pardais.Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta.Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela,uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
in " A Arte de ser feliz" Cecilia Meirelles
Às vezes , abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola.Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham a boca sonhando com pardais.Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta.Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela,uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
in " A Arte de ser feliz" Cecilia Meirelles
Há rotinas que são preciosos momentos de paz.Seria esta a felicidade?
Fazendo o possível - e o impossível- para olhar a vida com leveza e encontrar a felicidade mesmo onde ela não está.
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