quarta-feira, 30 de maio de 2012

Envelhecer a alma não tem volta.




Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exatidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.

in AS VELAS ARDEM ATÉ O FIM  / Sandór  Márai.

Desde sempre o homem se programa para tudo; estudar, viajar, amar , sorrir, passear, ser feliz.Entretanto, embora a gente ignore, há dois momentos dos quais se foge, como se fazendo isso, conseguíssemos escapar do previsível: a velhice e a morte.O que é envelhecer , senão uma fase do ciclo inevitável da vida? Só há uma possibilidade de escaparmos dessa realidade : morrer jovem . Isso é conformismo? Não. É aprendizado. Nâo se pode impedir o caminho do corpo, mas pode-se direcionar o caminho da alma.

domingo, 27 de maio de 2012

in "Neve"...Orhan Pamuk



Depois que Ka e Ïpek fizeram amor, ficaram na cama abraçados; por algum tempo, nenhum dos dois se mexeu. O mundo estava envolto em silêncio.
A felicidade de Ka era tão grande que o abraço parecia durar um tempo muito longo. Só isso pode explicar por que ele foi tomado de súbita impaciência e pulou da cama para ir olhar pela janela. Mais tarde, iria considerar aquele demorado momento de silêncio compartilhado como sua mais feliz recordação e se perguntaria por que interrompera tão bruscamente aquela felicidade inigualável, saindo dos braços de Ipek. A resposta é que ele se deixou dominar pelo pânico. Era como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer do outro lado da janela, na rua coberta de neve, e ele precisasse estar lá antes que acontecesse.



Neve, de Orhan Pamuk
"Um dos 4 livros mais importantes da primeira década do século XXI "– revista Bravo.


O próprio Orhan Pamuk diz que este é seu primeiro e último livro sobre política, mas não deveria. Apesar de trazer esse assunto espanta leitores, Neve conta a história do poeta e jornalista Ka, um exilado político que vive na Alemanha, mas que volta para sua cidade natal na Turquia, chamada, vejam só: Kars (que significa Neve, em Turco).
Ka pretende escrever uma matéria sobre Kars para um popular jornal da Alemanha e também investigar o estranho aumento repentino de suicídios entre as jovens da cidade. Durante a viagem, ele lembra de uma antiga colega chamada Ïpek, uma moça divinamente bela, pela qual ele se apaixona em um piscar de olhos.
O conflito político e religioso é intenso e envolvente, ao mesmo tempo que mistura o romance entre Ïpek e Ka, impregnado com os valores quase exóticos da cultura oriental.

sábado, 26 de maio de 2012

A paz possível é não ter nenhuma.


"Princípio"

Não tenho deuses. Vivo
Desamparado.
Sonhei deuses outrora,
Mas acordei.
Agora
Os acúleos são versos,
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte,
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma,
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma

Miguel Torga in Penas do Purgatório 




quarta-feira, 23 de maio de 2012

... o saber não reduz a solidão da vida.



Um dia despertei, sentei na cama e sorri. Nada mais doía. E de súbito compreendi que não existe mulher de verdade. Nem na terra nem no céu. Não existe em lugar algum, aquela. Existem apenas pessoas, e em todas há um grão da verdadeira, e nenhuma delas tem o que do outro nós esperamos e desejamos.

(...)
Você agora diz que sou um homem magoado.Alguém me feriu. Talvez essa mulher, a minha segunda esposa. Ou a primeira. Alguma coisa não deu certo.Fiquei só. Passei por um grande abalo emocional. Sinto ódio. Não acredito nas mulheres, no amor, na humanidade.

(...)
 Na escala inferior somos capazes de nos alegrar com muitas coisas que suavizam a severidade implacável da vida. Entretanto, a sensação feliz, calorosa, de viver eu não encontrei nem naqueles que pela profissão, ou por vocação, vivem num sentimento de comunhão com a "grande comunidade"...encontrei homens magoados, tristes, insatisfeitos, maldosos, intensamente combativos, resignados, débeis mentais e trabalhadores habilidosos e inteligentes. Pessoas que acreditavam que muito devagar, a custa de acontecimentos imprevisíveis, o destino dos homens melhoraria um pouco. É bom saber disto. Mas o saber não reduz a solidão da vida.

Sandór Marái  in De Verdade.( excertos)

Assim...
O ideal só existe na mente de quem idealiza.O texto é narrado com uma elegância de linguagem admirável, que transmite ao leitor as dores do narrador ou dos narradores.De verdade é um romance que trabalha com quatro vozes narrativas. A esposa, o marido, a amante e o amante da amante. Todos contam um casamento falido a partir de suas próprias vivências.

A sedução da palavra , o ato de narrar – não propriamente boa história cheia de tramas  – é o que faz em verdade um romance genial. Simples , preenche a alma de quem o lê.


terça-feira, 22 de maio de 2012

O tempo não dura para sempre.



Penelope desligou, tornou a colocar o telefone sobre a mesa e recostou-se na poltrona. 
 Agora, nada mais havia a ser feito. Percebeu que estava muito cansada, 
porém era um cansaço suave, acalentado e confortado por tudo que a cercava, como se sua casa fosse uma pessoa carinhosa, que a abraçasse com ternura. Na sala aquecida, com a lareira acesa e a funda poltrona familiar, ela se percebeu surpresa, impregnada pelo tipo de felicidade irracional que há anos não sentia. 
Deve ser porque estou viva. Tenho sessenta e quatro anos e, se devo crer naqueles médicos idiotas, sofri um ataque cardíaco. Ou qualquer coisa assim. Sobrevivi, agora isso ficou para trás, e não falarei mais a respeito, nunca mais. Nem pensarei. Porque estou viva. Posso tocar, ver, ouvir, cheirar, saborear; cuidar de mim mesma; deixar o hospital por vontade, pegar um táxi e voltar para casa. 
Há anêmonas brotando no jardim, e a primavera está a caminho. Eu a verei. Testemunharei o milagre anual, sentirei o sol começar a ficar mais quente à medida que as semanas passarem. E, porque estou viva verei tudo isto acontecer e serei parte do milagre. 
 
Recordou a história do querido Maurice Chevalier. "Qual a sensação de estar 
com setenta anos?", perguntaram a ele. "Não é tão ruim", respondera Chevalier, "se a gente considerar a alternativa." 
 
Para Penelope Keeling, no entanto, a sensação era mil vezes melhor do que 
apenas "não tão ruim". Agora, viver se tornara não a simples existência que a 
pessoa tinha como garantida, mas um prêmio, uma dádiva, com cada dia ainda por vir, transformado em uma experiência a ser saboreada. O tempo não duraria para sempre. Não desperdiçarei um só momento, prometeu a si mesma. Jamais se sentira tão forte, tão otimista. Era como se voltasse a ser jovem, desabrochando, e algo maravilhoso estivesse prestes a acontecer. 

in Os Catadores de Conchas  /  Rosamunde Pilcher

Desde que me lembro criança, livros são o meu vício.Quando não tenho um exemplar novo, releio algum que me emocionou com a sensação de novidade e descubro nele algo que não havia visto na primeira vez. Achei Rosamunde ,por acaso, em " Solstício de Inverno", 600 páginas de uma história tão improvável, quanto deliciosa.
O excerto acima é de uma obra  que segue a mesma linha: gostoso de ler, porque comum.Um história que poderia se passar com pessoas comuns , como a gente.
Enfim, viver o texto é o segredo para gostar de  " Os Catadores de Conchas".

sábado, 19 de maio de 2012

Para esquecer é preciso cansar o coração, de lembrança em lembrança.




Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. 

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume"

Ás vezes, simplesmente não se esquece e continua-se com a sensação de que ontem é hoje. E nunca vai terminar.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

. A verdade está na viagem, não no porto.



“A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. A verdade está na viagem, não no porto. Não há mais verdade do que a busca da verdade. Estamos condenados ao crime? Bem sabemos que os bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos”.
( os grifos são nossos)
Eduardo Galeano in De Pernas Pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso