domingo, 15 de abril de 2012
Um band-aid no coração.
Meu coração é um traço seco.
Vertical,pós-moderno,coloridíssimo de néon.
Puro artifício,definitivo.
Andei amando loucamente, como há muito tempo não acontecia. De repente a coisa começou a desacontecer. Bebi, chorei, ouvi Maria Bethânia, fumei demais, tive insônia e excesso de sono, falta de apetite e apetite em excesso, vaguei pelas madrugadas, escrevi poemas (juro). Agora está passando: um band-aid no coração, um sorriso nos lábios – e tudo bem. Ou: que se há de fazer.
E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça.Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.
Caio Fernando Abreu (excertos)
Desnudando- mais uma vez- a alma tortuosa de Caio Abreu
Entregou-se à vida , ao sofrimento até o fim e deixou marcados a ferro e fogo seus tormentos.Viveu pouco e muito.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Condenados a ser livres: filosofia ou paradoxo?
“Se
o homem não é, mas se faz, e se, em se fazendo, assume a responsabilidade por
toda a espécie humana, se não há valor ou moral dados a priori, mas se, em cada
caso, precisamos resolver sozinhos, sem ponto de apoio e, no entanto, para
todos, como haveríamos de não sentir ansiedade quando temos de agir?” “Queremos
a liberdade pela liberdade através de cada circunstância em particular. E, ao
querermos a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade
dos outros e que a liberdade dos outros depende da nossa(...)”
Sartre, O
existencialismo é um humanismo (1946)
"Realmente, só pelo
fato de ser consciente das causas que inspiram minhas ações, estas causas já são
objetos transcendentes para minha consciência; elas estão fora. Em vão tentaria
apreendê-las.
Escapo delas pela
minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência,
além das causas e motivos dos meus atos. Estou condenado a ser livre. Isso quer
dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido, exceto a
própria liberdade, ou, se você preferir; que nós não somos livres para deixar
de ser livres."
Jean-Paul Sartre, O
Ser e o Nada (1943)
O
homem é um ser apenas possível. Existo à medida que transformo esse possível em
real.
É
no processo livre de escolha, a cada dia, de nossa existência que construímos a
essência humana. Escolhemos a nossa essência ao procedermos à escolha do
personagem que pretendemos ser. Daí, a famosa frase de Sartre: “A existência
precede a essência”.
Frequentemente
esqueço que eu mesmo escolhi livremente construir os amores, esquecer-me dos
amigos ou curtir meus pais. Mas o mais saboroso, e quase fantástico, desta
aventura humana é que cada uma vai fazendo sua libertação ao longo deste
caminhar. E não só a sua vida, mas de toda a humanidade, pois, com sua vida,
está construindo sua essência humana.
O
homem é um ser que não pode querer senão a sua liberdade e que reconhece também
que não pode querer senão a liberdade dos outros. Daí que ninguém vive livre
sozinho... Enfim, para Sartre, não existe o destino, nós construímos o nosso
futuro.
F.J.
Almeida "Sartre - É Proibido Proibir", Editora FTD, São Paulo, 1988.
Toda manhã esconde um entardecer e este traz consigo a noite...a minha reflexão , hoje, desde a hora em que olhei pela janela.Não sou livre para escolhê-las.Será?!!!!
terça-feira, 10 de abril de 2012
É nos mínimos atos que se percebe "quem é quem"
(...) o inferno são os Outros.
(Jean-Paul Sartre)Alguém, cujo nome não me ocorre agora,afirmou em versos que "Viver é fácil,o difícil é conviver".Sabe-se lá o que lhe teria acontecido para a acidez de comentário sobre a sociedade, mas a verdade é tão contundente, quanto simples.
O homem, gregário por excelência, tem visto a tecnologia e a ciência alcançarem patamares nunca imaginados, mas, em contrapartida ,resvala em uma profunda involução quando se trata dele próprio.
As relações interpessoais são delicadas, difíceis , mas possíveis,sempre que seres humanos convivem.Há momentos em que a ética titubeia, mas em se tratando de contexto profissional a lisura de atitudes deve ser possível, mais do que isso : essencial.
É no cotidiano , nos mínimos atos, que percebemos " quem é quem". Arrogância e prepotência- camuflados por enorme falta de respeito e educação- são armas de fracos que, possuidores de um brutal complexo de inferioridade, se sobrepõem pela grosseria porque não sabem ser de outro modo.
Ainda assim, uma atitude grosseira não é perdoável em circunstância alguma, porque civilidade no trato com os demais precisa - e deve - ser regra básica de convivência.Às vezes, a " cegueira branca" torna-se conveniente para esconder algo que é incômodo mostrar(...), mas isso é problema individual, talvez precisando de terapia. Há muitos modos de uma pessoa complexada " tentar" se impor e nenhuma delas é admissível.
Já vivi uma situação dessas de uma maneira inexplicável e gratuita.Tentei fingir que não estava entendendo para que o ato parecesse menos, mas outras pessoas também assistiram a ele e ,então,não deu para ignorar...Hoje,vi acontecer com uma senhora que , constrangida, desculpou-se pela grosseria-do outro- como se fosse a culpada.E me incomodou muito.
Nos últimos tempos tenho me deparado com cenas chocantes de desrespeito, falta de ética absoluta.Somaram-se e transbordaram agora.O meu silêncio exterior, minha paciência e minha indignação multiplicaram-se e o resultado foi esse post.Um desabafo.
O mínimo essencial.
O termo ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa). Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado.
domingo, 8 de abril de 2012
A Ressurreição e a pipoca.
Excerto
(...)
É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.
Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...
Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.
Rubem Alves ( perfeito... e oportuno)
É muito triste ser um milho que não aconteceu. Um piruá no fundo da panela.
Renascer vai além da Páscoa, é sempre.Ou melhor, podemos fazer uma Páscoa a cada dia.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
A minha Páscoa não é de chocolate.
Replay
Hummm...cheiro de empadinhas quentes na madrugada. Cheiro de
Páscoa na casa da minha madrinha,cheiro de família, cheiro da minha infância.
Amanhece azul luminoso.É 10 de abril de 2003 .São 7.20hs em meu
caminho para a escola.O sinal fecha.Olho o outdoor à minha frente, onde
gigantescos ovos apregoam as delícias do chocolate, mas meu nariz respira
lembranças distantes de empadinhas quentes de frango, na madrugada.
E de repente...já não é cheiro. É gosto.Gosto das lágrimas de sal,
onde a lembrança me entra pela boca.
É Páscoa. O mesmo céu, o mesmo sol me levam a 1954.Faz muito
tempo...
Mércia e eu na procissão da Ressurreição.A missa na manhã fresca,o
ar de festa,manhã iluminada.
É muito cedo para comer empadas!Mas, resistir quem há-de? E outra
procissão se inicia, agora diante de uma montanha de empadinhas quentes:Sr
Egidio, sempre circunspecto e formal, Sr Ismael no seu amassadíssimo terno de
linho ( seria branco sujo?!...)Tio Nené, Sr Nicola Padula, minhas tias Joana,
Landa e Amália e minha madrinha, Nina, a responsável por aquela maravilha
gastronômica.Ih! chegou D.Véia, D.Nitinha e D. Olinda, as vizinhas-comadres e a
festa continua.
Como é que eu, com apenas 10 anos, poderia saber que aquele
bacião de empadas quentinhas, partilhadas entre amigos,em uma cozinha rústica,
de telhas pretas, sem forro, ao pé de um fogão a lenha, era a felicidade?
Quantas coisas , sei agora,perdi por não saber naquele
tempo.
" Onde estão todos eles?...Todos dormindo, dormindo
profundamente!"
O sinal abriu e me encanto mais uma vez com a manhã de
outono.Volto a 2003, sem saber exatamente o que faço ali, prá onde vou e
porquê. Seco as lágrimas.O trabalho me espera.O sinal abre e devo seguir...
Dentro de mim ficou a sensação de reencontro com a minha vida.
Sinto que ainda tenho raízes. Apesar de doer.
Não há mais cheiro de empadinhas quentes. Há sabor...Sabor
salgado. E ele está na minha boca. Na minha saudade.
Campinas, 10 de abril de 2003
9 anos foram-se e continuo a sentir a mesma inefável presença de pessoas e cheiros que não existem mais a não ser na minha memória.Esse texto foi o início desse blog em 2007, salvo de uma agenda que eu queria descartar.E está aqui , porque todos os anos tem representado o que eu gostaria de estar vivendo outra vez.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A morte não é o final.Eu somente passei para a sala seguinte.
A morte não é tudo. Não
é o final. Eu somente passei para a sala seguinte. Nada aconteceu. Tudo
permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, você é você, e a antiga vida
que vivemos tão maravilhosamente juntos permanece intocada, imutável. O que
quer que tenhamos sido um para o outro, ainda somos. Chame-me pelo antigo
apelido familiar. Fale de mim da maneira como sempre fez. Não mude o tom. Não
use nenhum ar solene ou de dor. Ria como sempre o fizemos das piadas que
desfrutamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim.
Deixe que
o meu nome seja uma palavra comum em casa, como foi. Faça com que seja falado
sem esforço, sem fantasma ou sombra. A vida continua a ter o significado que
sempre teve. Existe uma continuidade absoluta e inquebrável. O que é esta morte
senão um acidente desprezível? Por que ficarei esquecido se estiver fora do
alcance da visão? Estou simplesmente à sua espera, como num intervalo, bem
próximo, na outra esquina. Está tudo bem.
September(1990)
"Setembro" (Bertrand Brasil, 16a. edição, Tradução de Angela N.Machado, pág. 450).
Rosamunde
Pilcher "Setembro" (Bertrand Brasil, 16a. edição, Tradução de Angela N.Machado, pág. 450).
Contrariando o modo pelo qual eu procuro um livro, conheci Rosamund Pilcher pela capa de "Solstício de Inverno". A atração foi tamanha que não consegui ir-me embora sem ele e , não obstante suas 600 páginas, mergulhei no texto e dei cabo dele em um final de semana.De lá para cá, ela tornou-se assídua no meu mundo.Escreve sobre fatos improváveis de acontecer mas, que seriam maravilhosos se existissem.É um voo de imaginação para o autor e para o leitor que estiver disposto a acompanhá-la. Eu sempre estou...
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Uma pitada de Eros na amizade...
“Fico pensando se a amizade existe realmente. Não me refiro ao prazer ocasional de duas pessoas que se alegram por ter se encontrado num dado momento de suas vidas em que pensam da mesma maneira sobre determinados assuntos, descobrem os mesmos gostos e preferem as mesmas lutas. Nada disso tem a ver com amizade. As vezes acho que ela representa a relação mais íntima que existe na vida… Talvez por isso seja tão rara. E então, em que se funda? Na simpatia? É um termo impróprio, brando demais: não se pode dizer que a simpatia seja suficiente para levar duas pessoas a se responsabilizarem uma pela outra nas situações mais críticas de suas vidas.
Então, em que mais?
Não haverá talvez uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas?”
‘Verdades a granel’ - Sándor Márai
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