terça-feira, 10 de abril de 2012

É nos mínimos atos que se percebe "quem é quem"


(...) o inferno são os Outros.
                                                                  (Jean-Paul Sartre)


Alguém, cujo nome não me ocorre agora,afirmou em versos que "Viver é fácil,o difícil é conviver".Sabe-se lá o que lhe teria acontecido para a acidez de comentário sobre a sociedade, mas a verdade é tão contundente, quanto simples.
O homem, gregário por excelência, tem visto a tecnologia e a ciência alcançarem patamares nunca imaginados, mas, em contrapartida ,resvala em uma profunda involução quando se trata dele próprio.
As relações interpessoais são delicadas, difíceis , mas possíveis,sempre que seres humanos convivem.Há momentos em que a ética titubeia, mas em se tratando de contexto profissional a lisura de atitudes deve ser possível, mais do que isso : essencial.
É no cotidiano , nos mínimos atos, que percebemos " quem é quem". Arrogância e prepotência- camuflados por enorme falta de respeito e educação- são armas de fracos que, possuidores de um brutal complexo de inferioridade, se sobrepõem pela grosseria porque não sabem ser de outro modo.
Ainda assim, uma atitude grosseira não é perdoável em circunstância alguma, porque civilidade no trato com os demais precisa - e deve - ser regra básica de convivência.Às vezes, a " cegueira branca" torna-se conveniente para esconder algo que é incômodo mostrar(...), mas isso é problema individual, talvez precisando de terapia. Há muitos modos de uma pessoa complexada " tentar" se impor e nenhuma delas é admissível.
Já vivi uma situação dessas de uma maneira inexplicável e gratuita.Tentei fingir que não estava entendendo para que o ato parecesse menos, mas outras pessoas também  assistiram a ele e ,então,não deu para ignorar...Hoje,vi acontecer com uma senhora que , constrangida, desculpou-se pela grosseria-do outro- como se fosse a culpada.E me incomodou muito.
Nos últimos tempos tenho me deparado com cenas chocantes de desrespeito, falta de ética absoluta.Somaram-se e transbordaram agora.O meu silêncio exterior, minha paciência e minha indignação multiplicaram-se e o resultado foi esse post.Um desabafo.




O mínimo essencial.
O termo ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa). Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado.

domingo, 8 de abril de 2012

A Ressurreição e a pipoca.



Excerto
(...)
É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.


Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.


Rubem Alves ( perfeito... e oportuno)

É muito triste ser um milho que não aconteceu. Um piruá no fundo da panela.
Renascer vai além da Páscoa, é sempre.Ou melhor, podemos fazer uma Páscoa a cada dia.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A minha Páscoa não é de chocolate.



Replay
Hummm...cheiro de empadinhas quentes na madrugada. Cheiro de Páscoa na casa da minha madrinha,cheiro de família, cheiro da minha infância.

Amanhece azul luminoso.É 10 de abril de 2003 .São 7.20hs em meu caminho para a escola.O sinal fecha.Olho o outdoor à minha frente, onde gigantescos ovos apregoam as delícias do chocolate, mas meu nariz respira lembranças distantes de empadinhas quentes de frango, na madrugada.
E de repente...já não é cheiro. É gosto.Gosto das lágrimas de sal, onde a lembrança me entra pela boca.

É Páscoa. O mesmo céu, o mesmo sol me levam a 1954.Faz muito tempo...
Mércia e eu na procissão da Ressurreição.A missa na manhã fresca,o ar de festa,manhã iluminada.
É muito cedo para comer empadas!Mas, resistir quem há-de? E outra procissão se inicia, agora diante de uma montanha de empadinhas quentes:Sr Egidio, sempre circunspecto e formal, Sr Ismael no seu amassadíssimo terno de linho ( seria branco sujo?!...)Tio Nené, Sr Nicola Padula, minhas tias Joana, Landa e Amália e minha madrinha, Nina, a responsável por aquela maravilha gastronômica.Ih! chegou D.Véia, D.Nitinha e D. Olinda, as vizinhas-comadres e a festa continua.

Como é que eu, com apenas 10 anos, poderia saber que aquele bacião de empadas quentinhas, partilhadas entre amigos,em uma cozinha rústica, de telhas pretas, sem forro, ao pé de um fogão a lenha, era a felicidade?
Quantas coisas , sei agora,perdi por não saber naquele tempo.
" Onde estão todos eles?...Todos dormindo, dormindo profundamente!"

O sinal abriu e me encanto mais uma vez com a manhã de outono.Volto a 2003, sem saber exatamente o que faço ali, prá onde vou e porquê. Seco as lágrimas.O trabalho me espera.O sinal abre e devo seguir...
Dentro de mim ficou a sensação de reencontro com a minha vida. Sinto que ainda tenho raízes. Apesar de doer.

Não há mais cheiro de empadinhas quentes. Há sabor...Sabor salgado. E ele está na minha boca. Na minha saudade.

Campinas, 10 de abril de 2003



9 anos foram-se e continuo a sentir a mesma inefável presença de pessoas e cheiros que não existem mais a não ser na minha memória.Esse texto foi o início desse blog em 2007, salvo de uma agenda que eu queria descartar.E está aqui , porque todos  os anos tem representado o que eu gostaria de estar vivendo outra vez.





quarta-feira, 4 de abril de 2012

A morte não é o final.Eu somente passei para a sala seguinte.



A morte não é tudo. Não é o final. Eu somente passei para a sala seguinte. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, você é você, e a antiga vida que vivemos tão maravilhosamente juntos permanece intocada, imutável. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda somos. Chame-me pelo antigo apelido familiar. Fale de mim da maneira como sempre fez. Não mude o tom. Não use nenhum ar solene ou de dor. Ria como sempre o fizemos das piadas que desfrutamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim. 

Deixe que o meu nome seja uma palavra comum em casa, como foi. Faça com que seja falado sem esforço, sem fantasma ou sombra. A vida continua a ter o significado que sempre teve. Existe uma continuidade absoluta e inquebrável. O que é esta morte senão um acidente desprezível? Por que ficarei esquecido se estiver fora do alcance da visão? Estou simplesmente à sua espera, como num intervalo, bem próximo, na outra esquina. Está tudo bem.

September(1990)
"Setembro" (Bertrand Brasil, 16a. edição, Tradução de Angela N.Machado, pág. 450).
Rosamunde Pilcher 




Contrariando  o  modo pelo qual  eu procuro um livro, conheci Rosamund Pilcher pela capa de "Solstício de Inverno". A atração foi tamanha que não consegui ir-me embora sem ele e , não obstante suas 600 páginas, mergulhei no texto e dei cabo dele em um final de semana.De lá para cá, ela tornou-se assídua no meu mundo.Escreve sobre fatos improváveis de acontecer mas, que seriam maravilhosos se existissem.É um voo de imaginação para o autor e para o leitor que estiver disposto a acompanhá-la. Eu sempre estou...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma pitada de Eros na amizade...



Fico pensando se a amizade existe realmente. Não me refiro ao prazer ocasional de duas pessoas que se alegram por ter se encontrado num dado momento de suas vidas em que pensam da mesma maneira sobre determinados assuntos, descobrem os mesmos gostos e preferem as mesmas lutas. Nada disso tem a ver com amizade. As vezes acho que ela representa a relação mais íntima que existe na vida… Talvez por isso seja tão rara. E então, em que se funda? Na simpatia? É um termo impróprio, brando demais: não se pode dizer que a simpatia seja suficiente para levar duas pessoas a se responsabilizarem uma pela outra nas situações mais críticas de suas vidas.
Então, em que mais?
Não haverá talvez uma pitada de Eros no fundo de todas as relações humanas?”



‘Verdades a granel’ - Sándor Márai

sexta-feira, 30 de março de 2012

Pela liberdade a criatura enfrenta o Criador.

Vicente
Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados pelo mesmo destino - , apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava: - a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.


Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.


A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em leitos e condenados.


Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
-Noé, onde está meu servo Vicente?


Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante.


Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
-Deve andar por aí... Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...


Nada.
-Vicente!... Ninguém o viu? Procurem-no!


Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
-Vicente! Vicente! Em que sítio é que ele se meteu?
-Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
-Vicente fugiu...
-Fugiu?! Fugiu como?
-Fugiu... Voou...


Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.


-Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trêmulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
-Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...


-Noé!...Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.


Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas - , dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?


Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?


Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravaram-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia, correu a Arca de lés a lés como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo.


Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor. Terra... Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.


Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada. Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo. Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino. Ah, mas estavam "rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu" ! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania. Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as conseqüências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.


Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.


Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.


Miguel Torga - Bichos.


Lindo, lindo, lindo...comovente  em todos os contos . Uma sensibilidade impar .

quarta-feira, 28 de março de 2012

Existir é bom.




A vida é boa acima de tudo; é boa por si mesma; o raciocínio nada conta para isso. Não se é feliz por viagem, riqueza, sucesso, prazer. É-se feliz porque se é feliz. A felicidade é o sabor mesmo da vida. Como o morango tem gosto de morango, assim a vida tem gosto de felicidade.

O sol é bom; a chuva é boa; todo ruído é música. Ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar não é mais do que uma sucessão de felicidades. Mesmo os pesares, mesmo as dores, mesmo o cansaço, tudo isso tem um sabor de vida. Existir é bom; não melhor do que outra coisa; pois existir é tudo, e não existir não é nada.

Agir é uma alegria. Perceber é uma alegria também. Não somos condenados a viver; vivemos avidamente. Queremos ver, tocar, julgar; queremos descobrir o mundo. Viver é querer viver. Qualquer vida é um canto de regozijo.





André Comte-Sponville, Bom dia, angústia!, p. 45-6 (Martins Fontes)