terça-feira, 20 de março de 2012

Pareil a la feuille mort...



Impregnada de outono até os ossos...Feliz!
(Dei-me conta de que há anos  eu não dizia essa palavra sobre mim.)

Em todos os idiomas...



Chanson d'automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.              Paul Verlaine.





          Autumn Leaves - Eric Clapton



segunda-feira, 19 de março de 2012

O prazer íntimo de observar os céus.




Ah! se os homens soubessem, do mais modesto camponês cultivando os campos, do operário mais trabalhador das cidades,ao professor, ao homem que vive de renda até o homem de fortuna ou de glória mais eminente, e até a mulher mundana de aparência mais frívola, sim, se soubéssemos que prazer íntimo e profundo espera o observador dos céus, a França, a Europa inteira se cobririam de lunetas em vez de se cobrirem de baionetas, para grande proveito da paz e da felicidade universais.


Camille Flammarion /1880


Em alguns minutos, li , hoje pela manhã,algumas páginas sobre Newton e Halley e descobri que passei anos odiando algo que nunca entendi: matemática e física. Poderia ter sido muito diferente. Que pena!
Vistas sob um novo olhar , percebo a importância  e a responsabilidade de um professor  nos conceitos mais primários com que conduzimos a vida. Sim, temos personalidade, mas sofremos influências, as boas, e também as más, principalmente.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Acácias em uma curva do caminho.




De algum tempo para cá, tenho me percebido de inúmeras maneiras até então desconhecidas e uma delas é voltar em flashs – sob um novo olhar-  a algo que vivi em um determinado momento.
Hoje, aconteceu ao fazer uma curva na avenida e me deparar com um pé de acácias amarelinho e sem folhas. De qualquer maneira , eu iria notá-lo, porque sou atraída por essa cor desde que me entendo por gente.

Mas, nessa manhã, foi diferente: bati os olhos na bela árvore e vi a casa da minha avó, onde um imenso pé de acácias ficava rente ao muro, ao lado do portão do jardim. Abri esse portãozinho e mergulhei por  segundos em um mar de lembranças .
A magia de uma casa antiga e segredos desvendados por uma criança:
- A galinha cantou!.. e lá ia eu colher um ovo quentinho em um quintal cheio de maravilhas. Amoras, tamarindo, jambo ...frutas que se apanhavam no pé.

Na sala de jantar, um guarda-louças, em sua primeira gaveta, escondia um pedaço enorme de queijo parmesão italiano, com a casca escurecida, que minha avó cortava em grandes lascas .Sinto o sabor delas , agora, ainda. E o doce de leite?...hummm. Para mim , ainda havia a esperada sexta-feira, na qual invariavelmente o almoço era macarrão alho e óleo, polvilhado com as tais lascas do parmesão.

Há décadas ,minha avó se foi, mas , hoje eu estive na casa dela, com tal intensidade que bem poderia tocar nos móveis e sentir o sabor de sua presença .Voltei a mim, quando o sinal se abriu.

Acho que isso é o envelhecer. Você se dá conta,de repente, que viveu momentos prosaicos que parecem esquecidos, mas eles estão  intactos para saírem sob a forma de nostalgia, em um dia qualquer em que seu coração estiver aberto para a vida, ou simplesmente...para um lindo pé de acácias.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O medo rouba-nos a capacidade de viver.




não guardes os medos
por José Carlos Barros, sábado, 2 de abril de 2011 às 00:50.

não guardes os medos e o coração na mesma gaveta
não deixes o ruído de uns
intrometer-se onde
no outro a luz é quase de água
não escolhas entre duas verdades
não deixes acesas durante a noite as lâmpadas
tão difusas
dos provérbios                                                                                                                                                                    
às vezes é preciso queimar as páginas dos
livros dos usos
às vezes é preciso olhar de frente a luz
da flor da dedaleira
essa que dizem que cega
só de nos aproximarmos
dela

 Quem, por medo do terrível, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama.
Rubem Alves


O medo é meu terrível limite.Maior que a dor ou ...ela.

sábado, 10 de março de 2012

Gastamos tudo menos o silêncio.



ADEUS

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. 
Já gastamos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E, no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
 Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.


 EUGÊNIO DE ANDRADE  In "Os Amantes sem Dinheiro"


...pedras das esquinas em esperas inúteis. Que enormidade é a tristeza que essas palavras traduzem.Escorrem como rios de sal e sangue na alma de quem já esperou em vão.

terça-feira, 6 de março de 2012

A vida se incumbe de mudar nossos sonhos.


Há 45 anos , eu era assim...um repositório de sonhos e expectativas.22 tenros e inexperientes anos.
Em meu rosto,  olhos e sorriso não conseguiam reproduzir a sensação de alegria de "ter chegado lá" ao receber um diploma de advogada. Era apenas uma, em um exército de jovens,sentindo-se onipotente.Essa  foto guardada e as lembranças adormecidas foram restauradas por um email- convite: um reencontro 4 décadas e meia depois. Por que não?
Nesse sábado,com o coração aos pulos, a primeira impressão, um  misto de surpresas, alegrias, ausências definitivas ( ...tão cedo!), tristezas e..sonhos ( ainda!).Não os mesmos, a vida incumbiu-se de mudá-los.A princípio o reconhecimento entre nós ,difícil na fisionomia e fácil no olhar, ou no som da risada. Ecos de um passado tão longínquo ao alcance das mãos...mas só ecos. Audíveis,mas intocáveis porque só a memória os tinha, ou fotos já envelhecidas em preto-e-branco..
E a inevitável pergunta silenciosa, não formulada: quantos de nós , realmente, teriam chegado lá? Alguns, dentre eles muitos dos mais brilhantes alunos, jamais exerceram a advocacia, outros acumularam cargos e aposentadorias e poucos ainda exercem a profissão.
Conclui o que já sabia:não me arrependo de haver cursado Direito, nem de uma coleção de diplomas (11) que complementaram meu curso, porque a leitura habitual, o sentido crítico aguçado, a amplidão cultural , enriqueceram minha vida  e estenderam meu horizonte.Mas, definitivamente, nunca fui uma advogada, nem nos dois parcos anos em que exerci realmente a profissão. De toda a colheita, para os que ali estavam, os troféus exibidos foram filhos e netos, a família, enfim. O mais havia se esvaído em uma gama de sustos,tropeços, sucessos, quando algum houve.
Reencontrei pessoas de quem fui muito próxima e os laços se restabeleceram e perdi outras que, sob um novo olhar, não consegui resgatar.
Volto para casa no final da tarde com uma inquietação latente.Quero relatar a sensação que me vai na alma e as palavras - tão fáceis no cotidiano - não saem.Na verdade foi uma alegria - não felicidade- o reencontro.Mas a emoção que eu contava sentir não veio.Tenho dúvidas e indagações , não sobre os outros , mas sobre mim mesma e continuo sem  resposta.


O que éramos naquela época? O que somos,hoje? Poderia ou deveria ter sido diferente?E eu, quem sou?
Não se vai ao passado impunemente , esperando reencontrar o que lá ficou guardado. O que vivemos é memória, saudade, ou qualquer outro sentimento, mas irrecuperável.
Os sonhos impulsionam a vida, mas esta se incumbe de mudá-los para que a gente consiga continuar...





quinta-feira, 1 de março de 2012

A lua não chora quando amanhece.



Envelhecer : com mel ou fel ?


Conheço muitas pessoas que estão envelhecendo mal. Desconfortavelmente. Com uma infelicidade crua na alma. Estão ficando velhas, mas não estão ficando sábias. Um rancor cobre-lhes a pele, a escrita e o gesto. São críticos azedos, aliás estão ficando cítricos sem nenhuma doçura nas palavras. Estão amargos. Com fel nos olhos.

E alguns desses, no entanto, teriam tudo para ser o contrário : aparentemente tiveram sucesso em suas atividades. Maior até do que mereciam. Portanto a gente pensa : o que querem? Por que essa bílis ao telefone e nos bares ? Por que esse resmungo pelos cantos e esse sarcasmo que se pensa humor ? Isto está errado. Errado, não porque esteja simplesmente errado, mas porque tais pessoas vivem numa infelicidade abstrusa. E, ademais, deveria-se envelhecer maciamente. Nunca aos solavancos. Nunca aos trancos e barrancos. Nunca como alguém caindo num abismo e se agarrando nos galhos e pedras, olhando enquanto despenca. Jamais também, como quem está se afogando, se asfixiando ou morrendo numa câmara de gás.

Envelhecer deveria ser como plainar. Como quem não sofre mais (tanto), com os inevitáveis atritos. Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral, e vai silente, e vai gastando nenhum-quase combustivel, flutuando como uma caravela no mar ou uma cápsula no cosmos.

Os elefantes, por exemplo, envelhecem bem. E olha que é uma tarefa enorme. Não se queixam do peso dos anos, e nem da ruga do tempo, e , quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para um certo lugar - o cemitério dos elefantes, e aí morrem, completamente, com a grandeza existencial só aos sábios permitida.

Os vinhos envelhecem melhor ainda. Ficam ali nos limites de sua garrafa, na espessura de seu sabor, na adega do prazer. E vão envelhecendo e ganhando vida, envelhecendo e sendo amados, e, porque velhos, desejados. Os vinhos envelhecem densamente. E dão prazer.

O problema da velhice também se dá com certos instrumentos. Não me refiro aos que enferrujam pelos cantos, mas a um envelhecimento atuante como o da faca. Nela o corte diário dos dias a vai consumindo. E no entanto, ela continua afiadíssima, encaixando-se nas mãos da cozinheira como nenhuma outra faca nova.

Vai ver, a natureza deveria ter feito os homens envelhecerem diferente. Como as facas, digamos, por desgaste, sim, mas nunca desgastante. Seria uma suave solução: a gente devia ir se gastando, se gastando, se gastando até se evaporar. E aí iam perguntar: cadê fulano? E alguém diria: gastou-se foi vivendo, vivendo, e acabou. Acabou, é claro, sem nenhum gemido ou resmungo. 
Isto seria muito diferente de ir envelhecendo por um processo de humilhações sucessivas, como essa coisa de ir deixando rins, pulmões, dentes e intestinos pelas mesas de cirurgia, numa mutiladora dispersão.

Acho que o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos. Se dimensionaram equivocadamente. Deveria ser proibido, por algum mecanismo biológico, colocarmos metas acima de nossas forças.

Seria a única solução de acabar com a fábula da raposa e as uvas. Assim a raposa não envelheceria resmungando por não ter devorado o que não lhe pertencia. Deveria, portanto, haver um relais, que desligasse nossos impulsos toda vez que quiséssemos saltar obstáculos para os quais não temos músculos.
Assim sofreríamos menos e não amargaríamos não ter tido certas mulheres, conquistado certos reinos, escrito certas obras primas.

A literatura tem lá seus personagens-símbolos a esse respeito: o Fausto e Dorian Gray. Apavorados com a velhice e a morte, venderam a alma ao diabo, e em troca pediram a juventude de volta. Não deu certo. O diabo não joga para perder. Dizem que a única vez que foi realmente derrotado foi naquela disputa com o próprio Deus a respeito de Jó. Mesmo assim, deu um trabalho danado.

Especialistas vão dizer que envelhece mal o indivíduo que não realizou suas pulsões eróticas assenciais; que deixou coagulada ou oculta uma grande parte de seus desejos. Isto é verdade. Parcial porém. Pois não se sabe por que estranhos caminhos de sublimação, há pessoas que, embora roxas de levar tanta pancada da vida, têm, contudo, um arco-íris na alma.

Bilac dizia que a gente deveria aprender a envelhecer com as velhas árvores. Walt Whitman tem um poema onde vai dizendo: " Penso que podia viver com os animais que são plácidos e bastam-se a si mesmos".

Ainda agora tirei os olhos do papel e olhei a natureza em torno. Nunca vi o sol se queixar no entardecer. Nem a lua chorar quando amanhece.


Affonso Romano de Sant'anna 
Jornal do Brasil
30/07/87.