sábado, 10 de março de 2012

Gastamos tudo menos o silêncio.



ADEUS

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silêncio. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas, gastamos as mãos à força de as apertarmos, gastamos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. 
Já gastamos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E, no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
 Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.


 EUGÊNIO DE ANDRADE  In "Os Amantes sem Dinheiro"


...pedras das esquinas em esperas inúteis. Que enormidade é a tristeza que essas palavras traduzem.Escorrem como rios de sal e sangue na alma de quem já esperou em vão.

terça-feira, 6 de março de 2012

A vida se incumbe de mudar nossos sonhos.


Há 45 anos , eu era assim...um repositório de sonhos e expectativas.22 tenros e inexperientes anos.
Em meu rosto,  olhos e sorriso não conseguiam reproduzir a sensação de alegria de "ter chegado lá" ao receber um diploma de advogada. Era apenas uma, em um exército de jovens,sentindo-se onipotente.Essa  foto guardada e as lembranças adormecidas foram restauradas por um email- convite: um reencontro 4 décadas e meia depois. Por que não?
Nesse sábado,com o coração aos pulos, a primeira impressão, um  misto de surpresas, alegrias, ausências definitivas ( ...tão cedo!), tristezas e..sonhos ( ainda!).Não os mesmos, a vida incumbiu-se de mudá-los.A princípio o reconhecimento entre nós ,difícil na fisionomia e fácil no olhar, ou no som da risada. Ecos de um passado tão longínquo ao alcance das mãos...mas só ecos. Audíveis,mas intocáveis porque só a memória os tinha, ou fotos já envelhecidas em preto-e-branco..
E a inevitável pergunta silenciosa, não formulada: quantos de nós , realmente, teriam chegado lá? Alguns, dentre eles muitos dos mais brilhantes alunos, jamais exerceram a advocacia, outros acumularam cargos e aposentadorias e poucos ainda exercem a profissão.
Conclui o que já sabia:não me arrependo de haver cursado Direito, nem de uma coleção de diplomas (11) que complementaram meu curso, porque a leitura habitual, o sentido crítico aguçado, a amplidão cultural , enriqueceram minha vida  e estenderam meu horizonte.Mas, definitivamente, nunca fui uma advogada, nem nos dois parcos anos em que exerci realmente a profissão. De toda a colheita, para os que ali estavam, os troféus exibidos foram filhos e netos, a família, enfim. O mais havia se esvaído em uma gama de sustos,tropeços, sucessos, quando algum houve.
Reencontrei pessoas de quem fui muito próxima e os laços se restabeleceram e perdi outras que, sob um novo olhar, não consegui resgatar.
Volto para casa no final da tarde com uma inquietação latente.Quero relatar a sensação que me vai na alma e as palavras - tão fáceis no cotidiano - não saem.Na verdade foi uma alegria - não felicidade- o reencontro.Mas a emoção que eu contava sentir não veio.Tenho dúvidas e indagações , não sobre os outros , mas sobre mim mesma e continuo sem  resposta.


O que éramos naquela época? O que somos,hoje? Poderia ou deveria ter sido diferente?E eu, quem sou?
Não se vai ao passado impunemente , esperando reencontrar o que lá ficou guardado. O que vivemos é memória, saudade, ou qualquer outro sentimento, mas irrecuperável.
Os sonhos impulsionam a vida, mas esta se incumbe de mudá-los para que a gente consiga continuar...





quinta-feira, 1 de março de 2012

A lua não chora quando amanhece.



Envelhecer : com mel ou fel ?


Conheço muitas pessoas que estão envelhecendo mal. Desconfortavelmente. Com uma infelicidade crua na alma. Estão ficando velhas, mas não estão ficando sábias. Um rancor cobre-lhes a pele, a escrita e o gesto. São críticos azedos, aliás estão ficando cítricos sem nenhuma doçura nas palavras. Estão amargos. Com fel nos olhos.

E alguns desses, no entanto, teriam tudo para ser o contrário : aparentemente tiveram sucesso em suas atividades. Maior até do que mereciam. Portanto a gente pensa : o que querem? Por que essa bílis ao telefone e nos bares ? Por que esse resmungo pelos cantos e esse sarcasmo que se pensa humor ? Isto está errado. Errado, não porque esteja simplesmente errado, mas porque tais pessoas vivem numa infelicidade abstrusa. E, ademais, deveria-se envelhecer maciamente. Nunca aos solavancos. Nunca aos trancos e barrancos. Nunca como alguém caindo num abismo e se agarrando nos galhos e pedras, olhando enquanto despenca. Jamais também, como quem está se afogando, se asfixiando ou morrendo numa câmara de gás.

Envelhecer deveria ser como plainar. Como quem não sofre mais (tanto), com os inevitáveis atritos. Assim como a nave que sai do desgaste da atmosfera e vai entrando noutro astral, e vai silente, e vai gastando nenhum-quase combustivel, flutuando como uma caravela no mar ou uma cápsula no cosmos.

Os elefantes, por exemplo, envelhecem bem. E olha que é uma tarefa enorme. Não se queixam do peso dos anos, e nem da ruga do tempo, e , quando percebem a hora da morte, caminham pausadamente para um certo lugar - o cemitério dos elefantes, e aí morrem, completamente, com a grandeza existencial só aos sábios permitida.

Os vinhos envelhecem melhor ainda. Ficam ali nos limites de sua garrafa, na espessura de seu sabor, na adega do prazer. E vão envelhecendo e ganhando vida, envelhecendo e sendo amados, e, porque velhos, desejados. Os vinhos envelhecem densamente. E dão prazer.

O problema da velhice também se dá com certos instrumentos. Não me refiro aos que enferrujam pelos cantos, mas a um envelhecimento atuante como o da faca. Nela o corte diário dos dias a vai consumindo. E no entanto, ela continua afiadíssima, encaixando-se nas mãos da cozinheira como nenhuma outra faca nova.

Vai ver, a natureza deveria ter feito os homens envelhecerem diferente. Como as facas, digamos, por desgaste, sim, mas nunca desgastante. Seria uma suave solução: a gente devia ir se gastando, se gastando, se gastando até se evaporar. E aí iam perguntar: cadê fulano? E alguém diria: gastou-se foi vivendo, vivendo, e acabou. Acabou, é claro, sem nenhum gemido ou resmungo. 
Isto seria muito diferente de ir envelhecendo por um processo de humilhações sucessivas, como essa coisa de ir deixando rins, pulmões, dentes e intestinos pelas mesas de cirurgia, numa mutiladora dispersão.

Acho que o que atrapalha alguns maus envelhecedores é a desmesurada projeção que fizeram de si mesmos. Se dimensionaram equivocadamente. Deveria ser proibido, por algum mecanismo biológico, colocarmos metas acima de nossas forças.

Seria a única solução de acabar com a fábula da raposa e as uvas. Assim a raposa não envelheceria resmungando por não ter devorado o que não lhe pertencia. Deveria, portanto, haver um relais, que desligasse nossos impulsos toda vez que quiséssemos saltar obstáculos para os quais não temos músculos.
Assim sofreríamos menos e não amargaríamos não ter tido certas mulheres, conquistado certos reinos, escrito certas obras primas.

A literatura tem lá seus personagens-símbolos a esse respeito: o Fausto e Dorian Gray. Apavorados com a velhice e a morte, venderam a alma ao diabo, e em troca pediram a juventude de volta. Não deu certo. O diabo não joga para perder. Dizem que a única vez que foi realmente derrotado foi naquela disputa com o próprio Deus a respeito de Jó. Mesmo assim, deu um trabalho danado.

Especialistas vão dizer que envelhece mal o indivíduo que não realizou suas pulsões eróticas assenciais; que deixou coagulada ou oculta uma grande parte de seus desejos. Isto é verdade. Parcial porém. Pois não se sabe por que estranhos caminhos de sublimação, há pessoas que, embora roxas de levar tanta pancada da vida, têm, contudo, um arco-íris na alma.

Bilac dizia que a gente deveria aprender a envelhecer com as velhas árvores. Walt Whitman tem um poema onde vai dizendo: " Penso que podia viver com os animais que são plácidos e bastam-se a si mesmos".

Ainda agora tirei os olhos do papel e olhei a natureza em torno. Nunca vi o sol se queixar no entardecer. Nem a lua chorar quando amanhece.


Affonso Romano de Sant'anna 
Jornal do Brasil
30/07/87.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A vida dura a vida inteira, o amor, não.




"(...)Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.

O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos.

E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.

Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”



Miguel Esteves Cardoso


Belo texto, mas inviável sua realização... ( pelo menos, para mim!) ."Que seja infinito enquanto dure!"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Há que seguir em frente.




A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...


E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.



Mario Quintana.



...porque renascer  é sempre.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quem era minha mãe...



            Quando o corpo dela desceu à campa, em uma cinzenta tarde calada e triste do início da semana, ficou a sensação de vazio no ar.  Era tão previsível , no entanto continha uma estranha e insistente tristeza. Poderia seguir à risca todos os poetas, cronistas e filhos maravilhados postando aqui um rol de suas qualidades.Ela as teve, sim, muitas: otimista ao extremo, corajosa, lutadora, capaz de sempre ter uma palavra de incentivo nas situações mais desalentadoras, exímia costureira, cozinheira de dotes vários, amorosa ,bonita,sorridente, simpática,cheia de amigos, mas...por outro lado, era autoritária, brava,chantagista, chata, manipuladora....onipresente. Aprendemos a respeitá-la desde sempre e assim foi até o fim. Não passou pela vida, exerceu-a na sua plenitude durante 91 anos, lúcida e perspicaz. : era um "pacote" completo, onde qualidades e defeitos se juntaram para torná-la inesquecível
             Amou a vida e relutou em se despedir dela. Aos 20 anos ( foto) encantou meu pai e dele guardou para sempre cartas de amor em uma gaveta .Mas, há 7 anos , uma queda desastrada levou-a a um  caminho de perda de autonomia  e ela sempre relutou em se entregar.Vagarosamente, no entanto,a vida foi minando.As imagens foram-se se esvaindo, os sons tornaram -se inaudíveis,os movimentos foram se abreviando, do andador  à cadeira de rodas, na última semana retida ao leito até o fim. Nada disso a impediu , no entanto , de bordar - aos 90 anos-um tapete para seu último bisneto.
              Há um mês atrás , me disse que tudo o queria era levantar-se e sair andando pelas ruas, a tomar sol. Insisti em levá-la na cadeira e ela retrucou : quero sair andando! Há uma semana, quando lhe perguntamos como ela estava , entre suspiros e gemidos de dor , ela cantou baixinho : Ó que saudades que tenho  da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais...cantou -a inteira, mostrando o pesar de ter envelhecido e o peso do sofrimento. As dores constantes foram consumindo suas esperanças e suas certezas.
               Assim foi ela: poderosa e invencível até que as dores a dobraram e a morte a levou.
               Enquanto escrevo , vejo-a em todos os cantos da minha casa: na tapeçaria bordada pelo chão,em almofadas de crochê, em uma fruta que ela apreciava, nos remédios, enfim...essas lembranças são só as últimas de uma vida inteira .
                 É isso, Mãe, a sua presença foi tão profunda na minha vida que não acaba.Hoje ,eu disquei o seu número de telefone, mesmo sabendo que nunca mais você o vai atender.
                 Beijo. Esteja segura na mão de Deus.
Te amamos em vida e depois dela.Temos certeza de que você vai "acontecer" em outras dimensões melhores do que essa.
         

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Onde está a vida que perdemos vivendo?



O ciclo infinito de ideias e ação,
Infinita experiência, infinita invenção,
Traz o saber do movimento, mas não da paz...
Onde está a vida que perdemos vivendo?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?

T.S.Eliot (1888-1965)