quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Amizade não se procura,exercita-se.
Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. É preciso recusá-la para se ser digno de a receber: ela é da categoria da graça («Meu Deus, afastai-vos de mim...»). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Toda a ilusão de amizade merece ser destruída.[…]
A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se (é uma virtude).
[…]
A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre existe, simplesmente, no fato de que ela existe.
Simone Weil, 'A Gravidade e a Graça'
Talvez esteja aí a resposta para a alegria ruidosa de quem vive entre "muitos amigos" e só os tem em momentos festivos. Alegria transitória mascarada em fotos ocasionais , nas quais a roupa e o sorriso não mostram a alma. Amigos são " coisa para se guardar dentro do peito". Poucos e essenciais. O encaixe perfeito.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Éramos uma manhã...
Uma manhã assim, quando a gente acorda com vontade de viver
e de sonhar.
Temos que fazer dos momentos os motivos
e senti-los em sonhos.
Éramos dentro da noite uma manhã de sol e luz.
Nasciam flores dos sorrisos dos pássaros e não existia mais
nada.
Nem as imagens que chegam,nem as que fogem,
Nem a vida lá fora, nem o começo,nem o fim...
( Não se explica como nasce uma flor...Sente-se.
De repente, a dama da noite dança e existe.
Em outro dia, talvez, tenha sumido,
Mas existiu, foi lindo.)
Assim éramos nós.
Contávamos estrelas e nos apoderávamos delas.
Acendíamos lampiões, fazíamos cálculos e
Derrubávamos árvores que não dão flores...
Éramos dentro da noite uma manhã de céu azul.
Tudo pedia conquistas...e elas pareciam tão fáceis!
...a luz baça da lua iluminava com a doçura de gatinhos dormindo
as diferenças entre nós.
Na periferia dos meus sonhos eu fazia equações impossíveis
Com variável e invariável- justo eu que odeio matemática.
Destruía as pálpebras do mundo que queriam cerrar nossos
olhos e
poupavam tigres que comiam as flores nascidas de sorrisos...
Éramos uma manhã dentro da noite escura...
Tínhamos um poder estranho que nos levava a mundos
incríveis,
Dormíamos sobre as nuvens e sonhávamos.
Enquanto tudo existia e nada existia
Houve uma manhã dentro da noite...
Só agora vejo quanto o tempo passou.
Sinto-me perdida na claridade do deserto.
Percebo que o oásis onde tudo existe ficou lá
na manhã que fomos dentro da noite.
Sinto a cada instante que gosto mais e mais da manhã que
fomos,
E que, nunca mais , voltaremos a ser.
Hoje não há noites nos meus dias
Nem manhãs nas minhas noites.
Estou só.
Gizelda
( noites de sol, lá longe, em outras manhãs...)
domingo, 22 de janeiro de 2012
O fim da viagem é apenas o começo da outra.
A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles.
É preciso recomeçar a viagem. Sempre..."
In Viagem a Portugal, de José Saramago ( eterno,felizmente.)
Quando não há mais o que ver é que a vida começa. E com ela, a pluralidade de encontros e as surpresas.
sábado, 21 de janeiro de 2012
O amor SEMPRE acaba.
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O amor acaba
Por
Paulo Mendes Campos
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O amor acaba.
Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de
teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de
ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de
raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando
de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma
noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das
mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como
dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha
acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas
sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos
monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes
acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as
mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar
diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão
ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas
femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o
amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade
simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da
piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas
que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o
gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos
de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que
vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas
esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio,
na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de
sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa;
na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio,
frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta
que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba;
na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que
começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba
em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de
Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico
sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos
os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a
bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às
vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que
continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo;
às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar
com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na
verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da
primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do
inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por
qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer
minuto o amor acaba.
Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira Triste constatação. Nada e ninguém é capaz de reter o amor.É uma gigantesca onda que vem, mas vai-se em seguida...em nossas mãos resta a areia, apenas. |
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.
Carlos Drumond de Andrade
Parece tão fácil evitar o sofrimento...Drummond tem essa leveza , quando escreve.Faz com que se tenha a impressão de que é possível viver as adversidades sem sofrer. Iludindo-nos menos e vivendo mais?!!!
Esqueceu-se de nos fornecer a receita : como????
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O amor comeu minha paz e minha guerra.
OS TRÊS MAL-AMADOS.
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO.
Sem palavras.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Perguntas. E as respostas?
O ciclo infinito de ideias e ação,
Infinita experiência, infinita invenção,
Traz o saber do movimento, mas não da paz...
Onde está a vida que perdemos vivendo?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
T.S.Eliot (1888-1965), poeta
As respostas esperam as perguntas certas. E nós não sabemos fazê-las...(eu!)
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