quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido.




Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia ideia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa – não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur.
Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que já estamos nela. Além disso, as primeiras etapas da velhice têm lá suas vantagens. Mesmo assim, as intermediárias são ameaçadoras para muita gente. Mas e a etapa final? Curioso – é a primeira vez na vida que você consegue ficar completamente de fora da situação que você está vivendo. Observar a decadência do próprio corpo de um ponto de vista externo (para quem tem a sorte que eu tive) permite que a gente se sinta, graças à vitalidade que continua a ter, a uma distância razoável dessa decadência – às vezes dá até para sentir-se orgulhosamente independente dela. Sem dúvida, vão aumentando cada vez mais os sinais que nos levam a tirar aquela conclusão desagradável, mas assim mesmo a gente continua de fora. E a fúria dessa objetividade é brutal.

É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender só tem um efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.

O animal moribundo -Philip Roth

sábado, 3 de dezembro de 2011

Dos flocos caem desejos.





Eu,
um de nós, talvez a geométrica flor, tenho experimentado
a sensação - que até agora desconhecia -, que estar
vivo e estar só é um sinal de alegria,
semelhante ao tombar da neve.


Se as espirais delicadas do contato com os outros (cada
vez mais delicadas) se transformam em mais frágeis à medida
que a sensibilidade aos atos de linguagem - e aos 
atos -cresce,


esta face a face sem intermediários humanos com as coisas
pode fazê-las transparecer num espaço máximo.


É talvez uma fase nova da aprendizagem da leitura - será
preciso entrar nesse espaço em que dos flocos já caem letras 
para usar finamente o privilégio de ensiná-las aos animais do Mosteiro, 
chamamento que aqui demos à sua 
contemplação. 


Mosteiro e monstro - e os caminhos transitáveis entre eles;
por fim, suponho que o nosso cântico de leitura dará nascimento a híbridos. 


Maria Gabriela LLansol, Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim, 
p. 22


Vontade intensa de ser mar, sendo só areia.De não ser substantivo, ser verbo, sempre.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Deus de cada um.



O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele,quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre.
E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.

(João Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas.)


Combate
Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome.
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição.
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Para sempre...


Minha querida Titi...

Um ano sem você, sem sua cumplicidade, sem seus afagos, sem seus olhinhos brilhando, sem que haja atrás da porta alguém que me ame profundamente, mesmo que eu não mereça...

Sua ternura inundou a minha vida de abnegação e companheirismo.Você se foi, mas sua imagem me olha de todos os cantos da casa.

Esteja onde estiver, saiba que continuo a te amar .

Para sempre.

sábado, 19 de novembro de 2011

A alma pode sorrir.



Quando acordo em um fim de semana - como hoje - e olho através do céu azul e perfumado, a brisa fresca desafiando o dourado do sol, sinto que meu momento é aqui e agora. Dezembro está quase aí.

Recuso-me a ir aquém ou além para saborear o que sou, em que me tornei, das minhas opções e escolhas, e sei, com toda certeza possível, que há muito a fazer e conquistar e não tenho tempo suficiente  ( nem idade...) para ousada busca.

Nem de longe a vida se comportou de acordo com o que planejei  e  até agora não descobri se a conduzi ou fui conduzida por ela. Mas o que importa? O resultado é o sou e  o que tenho.

Sei também que, quando esse ímpeto cessar , terei desistido de viver. E nem de longe quero me tornar uma morta-viva.

Em minha casa, as caixas de bolas vermelhas saem dos maleiros, os tons de prata, o cheiro da tuia ainda tenra, tudo começa a tomar a cor do Natal. E o cheiro. E o clima. Não é a data, mas o envolvimento com o burburinho que me seduz. E o antes.

O  som é de Michael Bublé... e sinto um imenso prazer de estar viva . Minha alma sorri.Apesar de.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Da queda nasce a ascensão.



(…) A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz.” 


(…) Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles.


Os Trabalhadores do Mar (excertos)- Victor Hugo

domingo, 13 de novembro de 2011

Estrelas, estrelas,rezo.




Por que surgem em mim
essas sedes estranhas? A chuva e as estrelas, essa mistura
fria e densa me acordou, 
abriu as portas de meu bosque verde e sombrio, 
desse bosque
com cheiro de abismo onde
corre água. E uniu-o à noite.
Aqui, junto à janela, o ar é mais calmo.
 Estrelas, estrelas, rezo. 
A palavra estala entre meus dentes em estilhaços
frágeis. Porque não vem a chuva dentro de mim, eu quero
ser estrela. Purificai-me um pouco e terei a massa desses
seres que se guardam atrás da chuva.


Clarice Lispector in  Perto do Coração Selvagem.


Sem palavras.