quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Da queda nasce a ascensão.
(…) A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz.”
(…) Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles.
Os Trabalhadores do Mar (excertos)- Victor Hugo
domingo, 13 de novembro de 2011
Estrelas, estrelas,rezo.
Por que surgem em mim
essas sedes estranhas? A chuva e as estrelas, essa mistura
fria e densa me acordou,
abriu as portas de meu bosque verde e sombrio,
desse bosque
com cheiro de abismo onde
corre água. E uniu-o à noite.
Aqui, junto à janela, o ar é mais calmo.
Estrelas, estrelas, rezo.
A palavra estala entre meus dentes em estilhaços
frágeis. Porque não vem a chuva dentro de mim, eu quero
ser estrela. Purificai-me um pouco e terei a massa desses
seres que se guardam atrás da chuva.
Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem.
Sem palavras.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Um amor precisa de espaço para voar.
Uma casa deve ter varandas para sonhar,
cantos para chorar,
quartos para os segredos e a ambivalência.
Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria
e algum desassossego contra o tédio.
Não se esqueçam os danos a cobrir, o medo de partir, e o dom de surpreender - que é a sua essência.
Lya Luft
Liberdade para querer ficar e o medo de partir...difícil , muito difícil,talvez por isso o amor verdadeiro só se completa dentro de nós.O outro é a borboleta a bater asas.
domingo, 6 de novembro de 2011
Não como quem sonha, mas como quem vê.
Voltei pela mesma estrada poeirenta por onde sai , um dia...Um atalho verde-sujo de canaviais- onde estão os cafezais da minha infância?-são pontilhados por árvores deslumbrantemente avermelhadas.
A cidadezinha - ontem e sempre - começa pelo cemitério. Estranho e familiar.Estaciono o carro debaixo de frondosos flamboyants floridos que me cobrem do sol quente.Atrás dos muros , meu pai, avós, tios , amigos...um pedaço grande da minha história.
Hesito.Não vou entrar.Guardo-me e guardo-os. Eles não estão ali. Só eu estou.
Viro-me antes que alguém me reconheça-será?-dobro à esquerda no que deveria ser um lugar familiar.Não é mais. A ruazinha acanhada , hoje uma avenida, e as poucas pessoas pelas quais passo me são estranhas, não as reconheço, assim como elas não sabem de mim.
Ecos de um tempo distante me angustiam.Vejo além. São minhas raízes enterradas no tempo.Gostaria enormemente de não estar ali.Melhor a lembrança do que a constatação.
Tomo de volta a mesma estrada, não como quem sonha, mas como quem vê.
A cidade é, ainda hoje, minha raiz,mas deixo-a para trás e entro em casa com o desalento de quem tem certeza de que o tempo-ontem se foi.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O desassossego é amarelo.
"Busco-me e não me encontro. Pertenço a horas crisântemos, nítidas em alongamentos de jarros. Devo fazer da minha alma uma coisa decorativa"
Livro do Desassossego - Bernardo Soares.
...sempre ele a bafejar lufadas de brisa fresca no que fui, no que sou e no que ainda quero ser.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Escrever é triste.
Hoje não escrevo
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...
Então hoje não tem crônica.
Não importa a acidez, sempre vale a pena ler Drummond, porque mesmo em autocrítica ele é perfeito.Tem a chave da harmonia entre as palavrase o respeito e a admiração de quem o lê.
Hoje é o dia D...dia de homenagear o poeta que faria 109 anos.
Drummond por ele-mesmo,última entrevista, onde subjaz um quê de mágoa e desilusão:
Não importa a acidez, sempre vale a pena ler Drummond, porque mesmo em autocrítica ele é perfeito.Tem a chave da harmonia entre as palavrase o respeito e a admiração de quem o lê.
Hoje é o dia D...dia de homenagear o poeta que faria 109 anos.
Drummond por ele-mesmo,última entrevista, onde subjaz um quê de mágoa e desilusão:
— Não, eu não me considero um
poeta popular, não tenho essa pretensão. Claro que eu gostaria de ser, mas o
conceito de poeta popular é muito ligado aos meios de comunicação de massa. Eu
não tenho acesso a eles, a televisão jamais me contrataria pra fazer um
programa semanal... Ela me chama pra eu dar um depoimento quando faço oitenta
anos, ou quando acontece algo relevante. Fora disso eles não me dão a menor
importância, os critérios são outros. Agora, se eu fosse um compositor de
samba, poderia ser um poeta popular no sentido de que a minha letra seria
popular. Se eu fosse o Caetano Veloso, numa noite na televisão eu teria trinta
milhões de telespectadores e venderia logo quinhentos mil discos. Essas são as
contradições da cultura brasileira — acho que não só da brasileira, não.
(...)... Eu jamais teria uma coisa dessas
no lançamento de um livro meu. Vai a televisão me filmar e o repórter pergunta:
“Como é, poeta, está vendendo muito? Qual é o nome do seu último livro?”Quer
dizer, nem o título do livro eles sabem...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Somos na história do universo uma piscadela, um calorzinho entre dois gelos.
“A
natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que
somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. Como dizia
Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”. A verdade está
na viagem, não no porto. Não há mais verdade do que a busca da verdade. Estamos
condenados ao crime? Bem sabemos que os bichos humanos andamos muito dedicados
a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não
estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido
adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de
compartilhar o que colhiam e caçavam. Viva onde viva, viva como viva, viva
quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de
poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos
habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de
aparecer. Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a
aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que
somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos”.
( os grifos são nossos)
Eduardo Galeano in De Pernas Pro Ar – A
Escola do Mundo ao Avesso
O mundo ao avesso nos ensina a
padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de
escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime,
assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de
impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça,
nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem
tampouco há escola que não encontre sua contra-escola.”
O mesmo.
Textos para reflexão profunda, para incomodar o espírito, a consciência
e fazer-nos perceber que mudar é difícil,
mas - às vezes - essencial.
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