terça-feira, 6 de setembro de 2011

Os ninguéns



As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a
pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte
a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca,
nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e
mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o
ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns : os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e
mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais
da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano.


Dispensa qualquer apreciação...Esse texto se basta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Uma crônica deliciosa...



A Arte de Ser Avó
                                           Rachel de Queiroz

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...
Quarenta anos, quarenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações - todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda.
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E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...
No entanto - no entanto! - nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela, hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer roquetes, tomar café - café! -, mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...
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Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém, esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!
E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...
(O brasileiro perplexo, 1964.)




   para Cíntia ... há quinze anos - dores, prazeres e amor.
Cíntia 


                        para  Violeta...  longe pela distância e no fundo do coração.
Vivi


Para o Raphael, doce, lindo, o amor perfeito

Raphael

domingo, 4 de setembro de 2011

A difícil arte do amor.



Há uma grande diferença entre viver com alguém e viver em alguém. Pessoas há em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E há os casos inversos. Só uma extrema pureza do amor e da amizade está em condições de juntar as duas coisas.

O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.

Quando duas pessoas estão inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que estão ambas enganadas.


Wolfgang von Goethe

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A vertigem de uma recordação perdida.




Nunca se tinha demorado nos prazeres da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vividas; o vermelhão de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, de que tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de rasgar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza o mel mitigava, podiam abarcar por inteiro a sua alma.


Conhecia o terror mas também a cólera e a coragem, e uma vez foi o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, casual, sem outra lei que a fruição e a indiferença imediata, percorreu a terra vária e olhou, numa e noutra margem do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou no sopé de uma montanha de cume incerto, em que bem podia haver sátiros, tinha escutado complicadas histórias, que recebeu como recebia a realidade, sem imaginar se eram verdadeiras ou falsas.
Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas, a terra era insegura sob os seus pés. Tudo se afastava e confundia.


Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico não tinha sido inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. Já não verei (percebeu) nem o céu cheio de pavor mitológico, nem esta cara que os anos transformarão. Dias e noites passaram sobre esse desespero da sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem assombro) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o havia encarado com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade.


Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho..."

Jorge Luis Borges, in O Fazedor, (Difel 2002)


Se pudéssemos selecionar as recordações, teríamos o paraíso.Escolheríamos  todas as pessoas e fatos que nos fizeram felizes, ainda que por um breve momento. Porém, a memória se incumbe de guardar tantas lembranças que gostaríamos de esquecer, apagar! Estas com uma nitidez espantosa, intermináveis, e não as podemos descartar.Isto é, no mínimo, doloroso.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Nó.



Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo.

Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992
Flora Figueiredo

Na trama da vida somos nó,não sabemos onde tudo começa, nem como vai acabar.Ou onde.
O difícil é desatar das crenças, convicções , expectativas que nos enovelam e deslizar vagarosa e levemente até o fim.
Mas, como?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Inteira, talvez, na primavera...

Depois de um recolhimento necessário - de vida, de criatividade, de sonhos, de expectativas-tento renascer no fim de Agosto,poeirento,  tarde de céu sujo e sol esmaecido.

Sou refém de um tempo sem volta -uma seleção musical ao acaso. Notas esparsas  me trazem de volta a mim.

Pessoas da minha vida desfilam diante dos meus olhos com tal clareza que - quase - posso tocá-las, mas ilusoriamente são imagens fugidias do que já não há. O ciclo se renova.

Sensação de flutuar , como se me fosse possível voltar...mesmo sabendo que não. Na verdade, não quero voltar. O recomeçar é por outros caminhos não  tão íngremes. Respiro alívio e constatação de que o porvir será o que eu fizer dele. Estou  aberta ao que já veio e ao que virá.

Sutilmente presentes atalhos percebidos, alguns não trilhados. Esboços de perguntas que continuarão sem respostas...Inquietude( parte essencial  do que sou e quero ser).

 As notas musicais insistem em permanecer mesmo depois de findas ,com sabor adocicado de algo sem retorno, onde tênues lembranças deixam sulcos profundos. E nem posso dizer se foi bom. Não sei.

Sei ,apenas, que mais uma vez me renovo, fortalecida,olhando para fora e vendo alem. O infinito está à espreita. Preciso aprender a usá-lo.

Solilóquio...Presença  fragmentada de um começo de mim...

Onde há aves, fatalmente vai haver o voo.

Inteira, talvez, na primavera.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011