sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Inteira, talvez, na primavera...

Depois de um recolhimento necessário - de vida, de criatividade, de sonhos, de expectativas-tento renascer no fim de Agosto,poeirento,  tarde de céu sujo e sol esmaecido.

Sou refém de um tempo sem volta -uma seleção musical ao acaso. Notas esparsas  me trazem de volta a mim.

Pessoas da minha vida desfilam diante dos meus olhos com tal clareza que - quase - posso tocá-las, mas ilusoriamente são imagens fugidias do que já não há. O ciclo se renova.

Sensação de flutuar , como se me fosse possível voltar...mesmo sabendo que não. Na verdade, não quero voltar. O recomeçar é por outros caminhos não  tão íngremes. Respiro alívio e constatação de que o porvir será o que eu fizer dele. Estou  aberta ao que já veio e ao que virá.

Sutilmente presentes atalhos percebidos, alguns não trilhados. Esboços de perguntas que continuarão sem respostas...Inquietude( parte essencial  do que sou e quero ser).

 As notas musicais insistem em permanecer mesmo depois de findas ,com sabor adocicado de algo sem retorno, onde tênues lembranças deixam sulcos profundos. E nem posso dizer se foi bom. Não sei.

Sei ,apenas, que mais uma vez me renovo, fortalecida,olhando para fora e vendo alem. O infinito está à espreita. Preciso aprender a usá-lo.

Solilóquio...Presença  fragmentada de um começo de mim...

Onde há aves, fatalmente vai haver o voo.

Inteira, talvez, na primavera.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Todos os caminhos conduzem ao mesmo fim.



A morte é nossa eterna companheira. Ela está sempre à nossa esquerda, ao alcance do nosso braço. A morte é a única conselheira sábia que temos. Sempre que você sentir, como sempre acontece, que tudo está errado, e que você está pronto a ser aniquilado, volte-se para a sua morte e pergunte-lhe se assim é. Sua morte lhe dirá que você está errado. Nada realmente importa, a não ser o seu toque. Sua morte lhe dirá: "Ainda não o toquei" Há uma estranha, devoradora felicidade, quando agimos na total convicção de que. qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa última batalha sobre a terra. 
Que caminho escolher?  Não importa. Todos os caminhos conduzem ao mesmo fim. Por isso é importante escolher o caminho do amor.” 

Carlos Castañeda, Viagem a Ixtlan((Palavras do bruxo D. Juan)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

E à surpresa segue-se a nostalgia.


‘Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim, todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e de tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais. Sua própria realidade compacta nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro modo? Não, isto que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos e queríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que somos de outro mundo...’ 

Octávio Paz


Difícil expor esse texto sem pensar em mim, sem intuir o porquê do meu desassossego. Acredito, concretamente,que sou de “outro mundo”.
O jardim, o muro, os tijolos, tudo permanece, ali, menos eu ,que não consigo vê-los na 
minha realidade.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Do viajar.


 (Elogio da Sombra,1969)
Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro 
E a fortaleza abarca o universo 
E não possui anverso nem reverso 
Nem externo muro nem secreto centro. 
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro, 
Tenha fim. É de ferro o teu destino 
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha 
De interminável pedra entretecida. 
Não existe evasão. Nada te espera. 
Nem no negro crepúsculo a fera. 


 Júlio Cortazar  


Entrar num labirinto é enveredar por suas bifurcações, encruzilhadas, sinuosidades, simetrias, conexões que podem nos levar a um lugar que não era exatamente aquele que esperávamos, desejávamos ou imaginávamos. A experiência com o labirinto é o caminhar. É a travessia. É a metáfora da viagem...para dentro.

domingo, 24 de julho de 2011

Um indizível cheiro de saudade.


Férias...enfim.
Época de arrumar os armários e colocar a casa – e a vida – em dia. Certo? Não. Errado. Quanto mais tempo temos disponível,menos realizamos. Fica para amanhã! e o amanhã nunca chega.
Assim, é domingo poeirento, último dia das minhas curtas férias  e resolvi fazer , hoje, o que deveria ter sido feito em  duas semanas.
O resultado foi glorioso.
A cada gaveta esmiuçada, a cada prateleira revolvida,a cada porta que se abriu, um mundo se descortinou. Minha vida foi sendo exposta em papeizinhos, flores secas, fotos , bilhetinhos ,brincos quebrados, roupas antigas,e tantas outras quinquilharias, cada uma com sua história, na verdade a MINHA história.
Um indizível cheiro de saudade.
Olho uma foto-montagem onde estou de braços dados com Machado de Assis (pode?)e vejo um aluno especial no baile de formatura.Ao lado, um porta-retrato estampa em letras garrafais um “ Eu te amo”e algumas dedicatórias assumem rostos e presenças queridas. Vejo salas do terceiro ano em Vinhedo, Piracicaba, São Paulo, Sousas,com uma nitidez que- quase - posso tocar as pessoas que ali sorriem.
Revisto uma caixa de fotos antigas, de quando? Não importa : são minhas filhas, pequenas, lindas , preciosas.Meus avós, tios,primos, alguns  já encantados.E as recordações fluem aos borbotões incontroláveis, com uma grandiosidade avassaladora.
Quantos mil adolescentes passaram por mim nesses anos...Estão longe e tão perto!Por quantos lugares andei, quantos momentos inesquecíveis, bons e maus.

Olho para a profusão de coisas, meio incrédula.Não há nada, nada mesmo de que eu queira me desfazer. Toda essa “tralha” é testemunho da minha vida.  Não a passei em brancas nuvens. Vivi tudo. Sofri muito, mas tive uma certeza: no caminho percorrido meu saldo é positivo. Para mim, claro!
Meus armários voltam à “bagunça” inicial. Quando eu me for, tudo isso será lixo, mas , nesse momento são histórias vividas, sentidas e muito acesas na minha memória e no meu coração.
Volto à sala de aula -amanhã- com a certeza de que quero estar lá, que minha história ainda não terminou...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.



 Ouvindo esta frase, imaginei qualquer pessoa nessa acrobacia que as crianças fazem ou tentam fazer: escalar aqueles degraus que nos puxam inexoravelmente para baixo. Perigo, loucura, inocência, ou uma boa metáfora do que fazemos diariamente?  Poucas vezes me deram um símbolo tão adequado para a vida, sobretudo naqueles períodos difíceis em que até pensar em sair da cama dá vontade de desistir. Tudo o que quereríamos era taparmos a cabeça e dormirmos, sem pensarmos em nada, fingindo que não estamos nem aí…  Porque Tanatos, isto é, a voz do poço e da morte, nos convoca a cada minuto para que, enfim, nos entreguemos e acomodemos. Só que acomodar-se é abrir a porta a tudo aquilo que nos faz cúmplices do negativo. Descansaremos, sim, mas tornando-nos filhos do tédio e amantes da pusilanimidade, personagens do teatro daqueles que constantemente desperdiçam os seus próprios talentos e dificultam a vida dos outros.  
E o desperdício da nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo-morto. Não que não tenhamos vontade ou motivos para desistir: corrupção, violência, drogas, doença, problemas no emprego, dramas na família, buracos na alma, solidão no casamento a que também nos acomodamos… tudo isso nos sufoca. Sobretudo, se pertencermos ao grupo cujo lema é: Pensar, nem pensar… e a vida que se lixe. 
 A escada rolante chama-nos para o fundo: não dou mais um passo, não luto, não me sacrifico mais. Para quê mudar, se a maior parte das pessoas nem pensa nisso e vive da mesma maneira, e da mesma maneira vai morrer? Não vive (nem morrerá) da mesma maneira. Porque só nessa batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, podemos também saborear a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios.  Mesmo que pareça quase uma condenação, a idéia de que viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce é que nos permite sentir que afinal não somos assim tão insignificantes e tão incapazes.  Então, vamos à escada rolante: aqui e ali até conseguimos saltar degraus de dois em dois, como quando éramos crianças e muito mais livres, mais ousados e mais interessantes.  E por que não? 
Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos ainda uma vez… recomeçar. 


Lya Luft


Metaforicamente viável, mas andar na contramão da escada é, quase como, andar na contramão da vida.É mais fácil escrever , falar, planejar do que executar.Por isso, talvez, "viver seja muito perigoso".