domingo, 8 de maio de 2011

Mãe.


ETERNO.
Corrias pelo campo por entre searas inocentes, carregando nos bolsos as histórias tricotadas por asas de sonho. Só repousavas nos braços da pequena montanha, que avistavas da janela do teu quarto. Acreditavas que o céu lhe beijava o rosto sempre que o sol e a lua poisavam a mão no seu regaço. Convicta dessa ilusão, escancaravas os olhos e imaginavas poder abraçar o céu e semeá-lo num pedaço do teu jardim onde as flores teriam o simples brilho das estrelas. Sonhavas poder beber esse azul e navegar pelo céu povoado de ilhas brancas e árvores com asas. O infinito não cabia nos teus olhos, mas ias guardando e cultivando pequenos fragmentos dessa morada... Agora que os teus bolsos se tornaram demasiado pequenos, e as searas ganharam outra cor, já não precisas de correr. Pois as histórias tricotadas por asas de sonho foram crescendo e (sobre)vivem na única morada onde cabe todo esse infinito, o teu eterno coração de mãe...

O original está em:


http://jb-emtonsdeazul.blogspot.com/

...um blog que vale a pena pelo talento e pela sensibilidade da  querida JB.

sábado, 7 de maio de 2011

O essencial faz a vida valer a pena.



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.


Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mario de Andrade


As cerejas da minha bacia estão se esgotando com uma rapidez incrível e continuo perdendo tempo com tantas coisas e pessoas descartáveis!.Gostaria de ter coragem e sapiência para escolher e viver o essencial..

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O segredo das almas.

Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar.

E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os isolados que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.

Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa'

domingo, 1 de maio de 2011

Primeiro de Maio : Praia?!...

Contos Novos: Literatura e História
Em 1947, postumamente, foi publicado o livro Contos Novos de Mário de Andrade, destacando-se  “Primeiro de Maio” e seu herói “35”: um pobre carregador de bagagens da Estação da Luz. A caminhada de “35” pelas ruas de São Paulo revelou o retrato da cidade na década de 30. Era o começo da ditadura do presidente Vargas e o início da modernização na capital paulista.
Com um estilo populista o governo Vargas foi marcado pela manipulação dos proletários e pela intermediação dos conflitos: capital e trabalho. Por ser um líder carismático,assumiu as reivindicações dos trabalhadores e as satisfez dentro de certas condições impostas pela burguesia nacional. Aproximou-se das “massas” como um “messias”, um salvador da pátria que veio libertar os trabalhadores da exploração capitalista.
Essa relação entre Vargas e os trabalhadores foi fortalecida, em virtude de se comemorar o dia do trabalho. O foco no trabalho e não no trabalhador ofuscava esse dia de luta, de protestos e motins. Isso, por um lado, permitiu ao Estado controlar os sindicatos e, por outro, desmobilizar a classe trabalhadora.

A narrativa “Primeiro de Maio” descreve um dia vivido por um personagem entusiasmado com o significado do feriado. O herói “35” não move as “massas”, é solidário, mas alienado, e de consciência confusa diante das informações veiculadas pelos jornais na Estação. Lia diferentes jornais, mas, não diferenciava as mensagens “oficiais” das revolucionárias, o que confundia ainda mais sua consciência a respeito do símbolo do dia 1º de Maio.
Logo pela manhã se arrumou com trajes da cor da bandeira nacional e partiu em busca de seus iguais, trabalhadores como ele, mas encontrou as ruas vazias. As manifestações estavam proibidas, embora os jornais divulgassem motins por toda São Paulo. Sem rumo, caminhou solitariamente, pois almejava “celebrar” seu dia. As horas passavam e nenhuma comemoração era avistada. Vai, então, ao centro e só encontrou policiais, depois se dirigiu ao Palácio das Indústrias e deparou-se com uma celebração oficial dos patrões, onde não é permitida a presença de trabalhadores.
O 1º de Maio acabou se resumindo em caminhadas e desencontros, frustrante para quem desejava comemorar. O ato de caminhar sem rumo trouxe à tona a situação dos trabalhadores no Estado Novo. O controle do Estado sobre os trabalhadores dificultava as ações políticas no grande feriado, que se originou em Chicago, 1886, em virtude de uma greve pela redução da jornada de trabalhado,que resultou num enfrentamento da polícia com os operários. Com a morte de inúmeros trabalhadores o movimento foi dissolvido.
Esse fato fugiu da memória do “35”, o mais importante, para ele, era celebrar.Não era conveniente aos capitalistas recordar os movimentos contrários aos seus interesses. Assim, o 1º de Maio foi um espetáculo para exaltar o trabalhador enquanto peça de engrenagem da nação. A cada instante, a cada passo, 35 refletia, ficou desconfiado, mas acabou se convencendo que o feriado não passava de uma ilusão. Era o despertar da consciência.
No final do dia “35” passou a entender sua própria situação. Todo o sentimento se transformou em frustração. O silêncio nas ruas e a caminhada o deixaram mais pobre em experiência. Sentiu-se inferior em relação ao mundo, pois não conseguiu se comunicar, dizer o que pensava; encontrava-se impotente diante do irrealizável, de sua ação quase inútil. Não conseguiu avistar o que desejava, nem mesmo os companheiros para celebrar.

Como o personagem kafkiano, Gregor Samsa, símbolo da fragilidade humana no mundo incomunicável, 35 sentiu-se humilhado e isolado dos seus iguais,atravessou a cidade em silêncio. O silêncio nas fábricas, nos bares, nos cafés representava uma diminuição do ritmo da produção capitalista.
Ao cair da tarde 35 tomou consciência de suas ações e percebeu que era ilusão alimentar a esperança de comemorar o feriado. De volta à Estação, 35 foi incapaz de comunicar sua experiência, pois era visível a mudança do seu próprio comportamento. Encontrou o 22 e o ajudou a carregar as malas de um passageiro, demonstrando disposição para colaborar com os companheiros no espaço de trabalho.

Paulo de Tarso Gonçalves
http://prezadomariodeandrade.com.br/contopt.pdf


De 1947 para 2011, o que mudou? Os tempos são outros...Será?
Quem é o trabalhador? O 35? O 2.527? O 3.097.005?
Uma " boiada" que caminha sem identidade, com sonhos submersos.
Um palanque conveniente aqui, um showzinho gratuito em praça pública ali ou a praia para escapar dos dois primeiros.
Essa é a " celebração" do dia do trabalho no Brasil,salve...salve.

Com perspicácia, talento e sensibilidade, Mário de Andrade expôs uma ferida social que continua aberta, doendo, sangrando...mesmo que " os tempos sejam outros".

Análise Crítica de “ Primeiro de Maio” in “ Contos Novos’-Mário de Andrade , 1947.
Os grifos são nossos.

sábado, 30 de abril de 2011

Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?!


Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba...

São as feições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e bastam que sejam usadas para não serem as mesmas.
Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos...


Pe. Antônio Vieira, Sermão do Mandato, 1643



O amor verdadeiro não acaba, trasforma-se e persiste...mesmo que doa a vida inteira.Não acredito em amar menos e ,sim, em desamor.Talvez seja esse o maior problema do mundo contemporãneo : desamor.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Muito Guimarães Rosa para pouca vida.

Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade, precisamos também do obscuro.

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.

Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim são minha maior aventura.


"A beleza aqui é como se a gente a bebesse, em copo, taça, longos, preciosos goles servida por Deus. É de pensar que também há um direito à beleza, que dar beleza a quem tem fome de beleza é também um dever cristão."
Grande Sertão: Veredas

"...a gente morre é para provar que viveu."


"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.
Grande Sertão:Veredas

"Eu ando meio febril, repleto, com um enxame de personagens a pedirem pouso em papel. É coisa dura e já me assusta, antes de pôr o pé no caminho penoso, que já conheço".


"Mãe, que é que é o mar, mãe?
Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d'água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. 'Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade?'
Campo Geral

"Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado - só lucidez e angústia"


" O sertão é do tamanho do mundo"

" A inspiração é uma espécie de transe.
Só escrevo atuado, em estado de transe..."


"As pessoas não morrem, ficam encantadas".

"Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico, conheci o valor do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte." Guimarães Rosa.

DEUS EXISTE MESMO QUANDO NÃO HÁ. MAS O DIABO NÃO PRECISA DE HAVER PARA EXISTIR.
Comigo as coisas não tem hoje e ant’ontem amanhã: é sempre. (...) O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.” (Grande Sertão: Veredas)

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.

Amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona.

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Não gosto do transitório, do provisório. Gosto do Eterno...

O senhor....Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior, É o que a vida me ensinou.”

Cada dia é um dia. ...”Vida” é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia.

“Cada palavra é, segundo sua essência, um poema".

Pense só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. (...) E este fará as vezes de minha biografia.

GUIMARÃES ROSA



Há momentos em que a vida nos prega peças de mau gosto e nem sempre conseguimos suportá-las.Ficamos , então, soltos no espaço, flutuando, à espera de uma chance de pouso.

É isso.Estou tentando pousar...

domingo, 10 de abril de 2011

Sobressaltos do coração.



Uma semana “dura de viver”...

 Viver com leveza...sem dúvida, esse deve ser o segredo da longevidade.Deixar prá lá, não se estressar, ser feliz a qualquer preço...e de repente , você se olha e percebe que não consegue ser assim. Nem viver assim.

Por mais que se estabeleça uma rotina de obrigações e lazer, somos  assaltados por acontecimentos que nos desnorteiam e faz-nos questionar  a validade do que somos e do que fazemos.
Os dias nascem e morrem em uma sequencia lógica e indiferente ao que fazemos deles e , nós, humanos (?) vamos conduzindo a vida com bestialidade e inconsequência.

Estou vivendo maus momentos, sim. Não em relação a algo ou alguém., em relação a mim  e o que tenho ainda a fazer. Ou fiz.

Um massacre gratuito em uma escola, ceifando vidas, sonhos , famílias;a morte  estúpida de uma garotinha angelical; um  trabalho exaustivo “jogado fora”abalaram , profundamente, minha saúde física e emocional .

Estou sobressaltada...o coração me pulsa no pescoço com uma velocidade anormal. Não consigo ser indiferente como se essas coisas não me dissessem respeito. Dizem , sim, e não só a mim. A todos nós.

Nenhuma manhã do ano consegue ser mais azul que as manhãs de abril. Um mês luminoso, dourado, onde o outono preenche a natureza de amarelo, símbolo de luz.

Olho para fora e vejo a vida. Uma oferenda preciosa para todos.Quantos de nós se apercebem disso? O que fazemos para merecê-la?