quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um anjo voltou para casa...


Helena
É uma manhã azul e dourada de abril. Mas você não pode vê-la , porque está nela.Quando a névoa cinzenta da manhã tristonha dissolveu-se, levou com ela seu sorriso e nos devolveu em forma de luz. Sol. Quentinho, aberto , risonho. Você.
Não há como explicar sua partida tão cedo.Você se foi como uma folha de outono, leve e linda.Rodopiou e caiu no firmamento.
Nos seus olhinhos havia um mar de possibilidades que agora se perderam...ou, não. Foram apenas trocadas por outras mais valiosas.

Você foi a escolhida. Por quê?
Talvez faltasse um anjo no céu...
Talvez faltasse uma flor no espaço...
Talvez seja o seu recado para que a gente repense a vida...
Tanta coisa para entender e aceitar.Difícil. Triste.Doloroso.

Mas, não importa quanto você viveu,pois foi o suficiente para deixar saudades.
Que a luz doce do seu sorriso consiga serenar o coração de todos nós que a conhecemos.

E não tema, doce Helena. Para você não haverá mais dor, só a beleza eterna. A destinada aos anjos.

Segure na mão de  Deus, minha querida!E sorria, porque você nunca estará sozinha.

Beijos.

Tia Gizelda.

PS : Não tenho uma foto sua para colocar aqui, agora. Mas é tão nítida sua presença na minha memória que não preciso dela para vê-la.

Para
Helena Alonso Vilhena : um anjo de 8 anos cuja vida foi ceifada, hoje, em uma triste madrugada cinzenta.

terça-feira, 29 de março de 2011

Valores morais não estão à venda.


O que move o homem  em direção à sua plenitude são os valores que ele cultiva  e nos quais transita fiel no decorrer de sua jornada. Obviamente, mudanças, imprevistos ocorrem , mas somos maleáveis o suficiente  para nos moldarmos às transformações  sem  que se perca nossa dignidade. Afinal, somos seres humanos, sensíveis , sim, mas racionais.Transgredir valores morais conspurca a alma, destrói o ego.
 Quando algo, seja contextual, seja interior ,quebra nossa convicção , e obriga-nos a ter consciência, é hora de atitude e de ação.
Consequências? Virão aos borbotões...mas serão menores do que o vazio , suportáveis quando estamos “ limpos” e em paz.

Conviver em e com uma sociedade de valores transitórios é tristíssimo, mas muito pior é aceitar dobrar-se a ela. Não quero isso para mim.Definitivamente. A juventude é poderosa, mas a maturidade nos dá chance de balanço, de pesar o que aprendemos e como  ( e se queremos...)colocar em prática.

Ninguém é suficientemente sábio para para se declarar dono da verdade, mas para escolher o que quer para si, sem dúvida.Isso é questão de princípios.Por isso...

... eu tivesse algum poder , hoje, gostaria de dizer com pompa e circunstância :

“ Parem o mundo que eu quero descer.”


Como essa possibilidade inexiste, é hora de escolher.

quinta-feira, 24 de março de 2011

…o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Será?!!!


“…o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Nada consegue deter a paixão acesa de duas pessoas apaixonadas. Neste caso não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades; os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é o seu destino.”

“Afrodite: Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos”
Isabel Allende


Credita-se ao amor a força de uma panacéia milagrosa capaz de curar todos os males e resolver intrincados problemas que se infiltram na alma. Não me parece real.Há dores e medos , e tantas outras dimensões do nosso psiquismo que precisam de muito mais do que só amor. Apegar-se a ele como solução é um sério risco.Mais um dentre os que corremos , cotidianamente. 
Perdõe-me, Isabel Allende, de quem sou leitora voraz e encantada,mas permito-me discordar de si.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Voltando prá casa...



Dispersão


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
                                Mário de Sá Carneiro

Nenhum texto que eu conheça tem, nesse momento, maior ou melhor profundidade para expressar o que sou , hoje.

Desassossegada? Sim, muito...sempre. Mas,ultimamente desencantada. Explico-me : sou movida a paixão. Não sei ser pela metade. Gosto muito ou desgosto tudo. Nada aos pedaços me preenche. Preciso de tudo , porque a inquietação que vive em mim é vazio ,sempre quer muito. Mais.

Ando fragmentada. E não  me sei assim.
Tenho vivido um sentimento de urgência como se tivesse que resolver tudo com o que não pactuo, depressa e já. E, claro, a impotência é flagrante. Colho fragmentos de inteiros desejados – tão claros na minha essência- e isso me deixa à mercê de um melancolia que não aceito , não sei como conviver com ela. Tenho urgência. O tempo me escapa.O único modo de detê-lo é sendo. Inteira.

Felizmente, estou “voltando pra casa”, depois de uma providencial ausência de alguns dias (12)que me pareceram anos. O escuro passou, mas ainda estou cinza. Quero cor...amarelo profundo.

Ao abrir essa porta, no entanto , senti presenças . Encantadoramente, um blog permite isso e muito mais. Por isso , voltei. Quero estar aqui...até juntar todos os pedaços.Todas as pessoas .

Quero estar aqui inteira, a mesa posta, o coração aberto e receber de novo as pessoas queridas que pousam e as que passam. A energia que alimenta. E me recompõe.

O mundo das palavras é o meu mundo, mesmo escrito por outros e lido em silêncio.

A Casa do Desassossego reabre sua porta para muitas festas, que só serão completas enquanto vocês, meus amigos, ocuparem todos os espaços.
Saudades


Essa é a MINHA música. Desde que a ouvi pela primeira vez. Mercury e Caballé / Barcelona./1992

domingo, 6 de março de 2011

Ciúmes...um desvario.

 “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e principalmente por ser comum."

Roland Barthes

Há muito tempo atrás...



Saudade profunda de uma certa noite em um clube de campo, onde havia ternura, amor,presenças afetivas...Ah! minha vida! tenho muito o que lembrar de um tempo que se foi, mas ficou marcado a ferro e fogo na minha alma e na minha memória.

Doces carnavais de ontem!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Uma sexta –feira triste...( sem ficção)

Quero-quero.
Esse espaço não foi criado para desabafos , nem exposição de problemas pessoais. Longe disso .Sempre teve a intenção de garimpar preciosidades literárias que povoaram a minha vida, fizeram-me melhor e mais rica do que eu poderia ser e que tenho pena que se percam sem que alguns as conheçam.

Na minha modesta opinião , somos uma colcha de retalhos do que aprendemos e vivemos e podemos escolher as tecelagens mais suaves,as de cores mais intensas, as mais macias ou mais rústicas ,dependendo do ponto de vista de cada um. Tenho consciência dos meus valores sociais, políticos, religiosos, filosóficos, etc e não os discuto aqui, porque acabo extrapolando. Como já o disse alhures, não sou de ribalta. Gosto dos bastidores, por isso me abstenho.Um pequeno relato poderá justificar esse post.


Há pouco mais de dois anos, estou a dar aulas de literatura em uma escola particular de dimensão e celebridade reconhecidas. Recém-construída em um local inacreditável, um paraíso exuberante de matizes de azuis, verdes e pássaros. Literalmente, no meio do mato. Um dos meus nichos pedagógicos é a biblioteca: grande, ensolarada, cujas imensas paredes de vidro permitem às crianças que vivenciem a natureza na sua esplendorosa criação. Indescritível admirar dali o pôr-do sol , assim como o nascer das primeiras estrelas no final das aulas vespertinas.


Coruja buraqueira
Em manhãs extremamente azuis, as corujas buraqueiras saem para tomar sol em grupinhos organizados de três. Dezenas de quero-queros bicam bichinhos bem ao alcance das nossas mãos, maritacas em bando voam aos gritos saudando as manhãs Mais de uma vez, minha aula da manhã foi interrompida , quando- pasmem- uma ave imensa tentou bicar o vidro da janela e as crianças maravilhadas viveram ,em aula, amor aos animais, literatura da alma. Não tenho noção do que é, ou era,mas - linda.Crianças e pássaros, a conjunção perfeita. Como diria um cartão de crédito : isso não tem preço!
Maritacas
Mas... sempre há uma adversativas nas histórias de cada um.
Para nós foi a especulação imobiliária que, em dois anos, povoou os arredores. Espigões sobem em uma velocidade assustadora,placas comerciais preenchem espaços antes vazios e poluem os olhos, enfim o terror” do século XXI : lucro.


Assim , bem à frente da escola, o terreno imenso foi vendido para uma sociedade e será nele construído um shopping. Dá para acreditar? O que era só uma notícia má, nessa quinta solidificou-se em realidade. Alguns homens vestidos de azul, com capacetes coloridos, plantaram no espaço o início de um acampamento. Bom para alguns, um prejuízo natural imenso para a maioria. Mas, quem se importa?  No próximo ano , o nosso entardecer será ver através dos vidros um imenso neon do Mc Donald`s ...entre carros e buzinas que irão se engalfinhar por estacionamento.


A sequência dessa história era previsível... Ontem pela manhã , as corujinhas não estavam mais ali. Esconderam-se? Fugiram? Para onde foram? Tentei encontrá-las, em vão, porém,mais ao fundo, vi, pela primeira vez, uma belíssima garça azul . Uma cena inacreditável contra o sol que nascia. Eu nunca a vira ali. Seria uma só?Quantas delas não estarão se sentindo ameaçadas...senti uma tristeza profunda.
Levei, nessa manhã, as crianças à biblioteca e mostrei-lhes , ao lado dos homens que trabalhavam, dezenas de pássaros- as mais variadas espécies- no mato rasteiro, juntos,uma profusão de cinzas e azuis, como que cerrando fileiras em defesa do seu chão.
As crianças surpreeenderam-se ,encantaram-se e comoveram-se.

À tarde, sentada na sala dos professores, com a Ana Amélia ,minha parceira de aulas, comentei  sobre o meu incômodo. Para minha surpresa, ela sacou o celular da bolsa e me disse: “Olha a foto da corujinha nessa janela. Eu olhava para ela , ela , para mim, vezes sem conta. Tive que fotografá-la.”Ao olhar aquilo,meu coração se estreitou. Um bichinho indefeso encostado no vidro da janela. Seria um mudo pedido de socorro? A foto gerou esse post, porque continua doendo.

É manhã de sábado. Continuo com lágrimas nos olhos. Como é difícil ser impotente diante da cegueira humana! Sim, temos que “OLHAR E VER”. Mas, o que fazer com isso? Apenas condoer-se e aceitar como se fosse natural?
Há algum tempo tenho estado incomodada –muito- com coisas que tenho visto e vivido. Acho que não há mais lugar no mundo contemporâneo para alguém como eu...Estou fora de sintonia.

Hoje, abri espaço aqui para falar sobre mim, sobre você, sobre nós. Falar sobre uma sexta-feira triste...como muitas outras em muitos lugares do planeta por motivos semelhantes.

Gizelda...sem ficção.

Em tempo : Guimarães Rosa em “ Primeiras Estórias” escreveu magistralmente sobre a destruição ambiental que a construção de Brasília causou no Planalto Central. “Às margens da alegria “ abre o livro e nos mostra – sob o ponto de vista de uma criança- quando ele,GR, ao lado do amigo- presidente, Juscelino Kubitschek , sobrevoou o local, “OLHOU E VIU” o que ia acontecer.
 Quanto custou Brasília, além do dinheiro? Rosa previu e como era iluminado mostrou-nos sua mágoa sob forma literária. Eu sabia que o conto tinha origem real, mas só ontem ele saltou do livro e deixou de ser ficção.

Leitura obrigatória para quem se emociona em qualquer idade, em qualquer tempo.Deveria ser para todos.

02 /11/2013

A conclusão previsível dessa triste história.

Há alguns dias o imenso shopping foi inaugurado. As pessoas se engalfinham pelos corredores imaculadamente novos e intensamente iluminados.

Pena que não percebam que as luzes brilhantes substituiram  das estrelas ...e para cada  barulho do dinheiro caindo em uma caixa registradora, um pássaro deixou de cantar.

Felizmente, não estou mais lá, não tenho que conviver com isso todos os dias.

"Maravilhoso" mundo novo! Será??????