O Quereres
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu, não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor...
Onde queres o ato, eu sou espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
Onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és
Caetano Veloso.
“O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdadeem lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis, entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. É essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo.”
Hegel : Fenomenologia do Espírito
Há momentos em que qualquer palavra a mais transborda.Esse é um deles...
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Viver conforme nosso desejo.
'Eu preferiria não o ajudar a ferir outras pessoas, meu amigo, ou a causar a si próprio outras feridas para além daquela que considerar ser o seu paraíso. O rato vive numa toca. É extremamente difícil viver numa toca; pelo menos, os pássaros considerariam que seria um mau paraíso. Por outro lado, a águia sente-se em casa nos picos das montanhas e considera-se a rainha de todos os ventos. Ah, como isso é completamente absurdo, meu amigo!
E os nossos pobres pássaros das charnecas voltam todas as Primaveras à Islândia e partem todos os Outonos voando com aquelas asinhas inúteis sobre o temível oceano. Mas não se pense que o fazem acidentalmente ou à sorte. Não, têm a sua filosofia própria, embora possam ser citadas autoridades para provar que se trata de um ato de loucura. Eu nunca faria isso. Eu defendo que se deveria ajudar todas as criaturas a viver conforme o seu desejo. Mesmo que um rato me dissesse que gostaria de viajar sobre o oceano e que uma águia afirmasse que estava a pensar escavar um buraco no chão, eu diria: Força nisso.
No mínimo deveríamos permitir que os outros vivessem como cada um de nós pretende viver, desde que não os impedíssemos de viver como quisessem viver. Eu sei que é possível provar que tudo correria melhor se fôssemos todos minhocas e se vivêssemos todos no mesmo quintal, mas a águia pura e simplesmente não acredita na verdade, nem o rato. Eu estou tanto do lado da águia que adere a uma doutrina manifestamente falsa, como do lado do rato, que é tão humilde na sua maneira de pensar que escava para si um buraco no chão. Eu sou amigo das aves migratórias, embora, para ser simpático, elas adiram a filosofias dúbias, talvez até mesmo errôneas.'
In Os Peixes Também Sabem Cantar de Halldór Laxness ( Nobel 1955)
O romance, que se situa em inícios do século XX, acompanha a passagem da infância para a vida adulta do jovem Álfgrímur. Abandonado pela mãe em Brekkukot, uma propriedade rural na periferia de Reykjavík – então uma pequena cidade de poucos habitantes e sob o domínio dinamarquês –, a infância de Álfgrímur decorre de forma idílica entre os trabalhos domésticos na quinta, com a avó adotiva que recita os rímur e as antigas sagas islandesas, a aprendizagem de latim e a audição, à noite, das histórias dos excêntricos habitantes de Brekkukot.
Álfgrímur, que sonha um dia tornar-se pescador, tal como o seu avô, vê no entanto todos os seus projectos de futuro serem abalados pelo regresso a casa do Garõar Hólm. Famoso cantor lírico, orgulho da Islândia, a vida de Garõar está porém envolta num misterioso segredo, que caberá a Álfgrímur desvelar, ligando para sempre a sua vida à desta estranha personagem. Será Garõar a fazer com que Álfgrímur se apaixone pela música, incitando-o a alcançar com o canto da sua voz a «Nota Pura».
Ganhei esse livro e-como sempre- estou envolvida nele até o último fio de cabelo...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Um só sabor de fruta madura.
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura.
E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
O Jogo da Amarelinha- Capitulo 7- Julio Cortázar
O Jogo da Amarelinha é uma obra aberta, um romance que pode ser desmontado pelo leitor, que tem a liberdade poucas vezes concedida a alguém de refazer a sequência de seus capítulos. "Um romance sanguíneo como o bebop", assim disse Cortázar e assim repetiram seus estudiosos mais ilustres. É claro que, como recomenda sua bula, posso ler seus 155 capítulos na ordem que preferir. Posso começar no de número 56, voltar para o de número 12 e depois correr para o de número 98. Cada combinação escolhida dá à trama e às personagens diferente colorido.
A narrativa começa no céu e acaba no inferno, principia no amor e termina na morte, quando não ao contrário. Tudo depende de por onde se entra e por onde se sai durante a leitura.
O importante é entrar... como sair depende de cada um.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Outro presente...muito especial.
Minha querida Paula...
estou encantada com seu carinho.Partilhar de sua sensibilidade e de sua delicadeza é um presente especial que eu quero reter e dividir, porque é tão intenso que transborda.
Obrigada do fundo do meu coração.Beijoooooooooossss.
...E vamos confiar na vida!
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Da vida prá mim : o presente.
Esse presente me foi dado, quando nasci. Parece intacto. Só parece...Usei-o descuidadamente.Nunca soube o seu valor real ,e talvez continue sem saber,embora haja uma tênue resposta no ar.
O que guarda,afinal,essa caixa? Uma preciosidade:TEMPO.
Ou...o que resta dele, o meu tempo.
Eu o vim gastando sem a menor cerimônia, e preocupar-se comigo e com ele foi o que menos fiz.
Não sei por que, acreditei que nunca se acabaria e que poderia manejá-lo como quisesse a meu favor em que hora fosse.Ledo engano! Ele é frio, indiferente. É só ( e muito!) o tempo.
Agora devo descartar o que eu fiz do que se foi. Passou.E usar com leveza o que ainda há.
E o que há?Quanto?!!!Surpresa ! O presente jamais será aberto.
E realmente pouco importa, desde que eu tenha coragem para vivê-lo com tudo que vier, seja lá quanto e o que for.
O Presente : Da vida prá mim...mais ( ou menos?!!!) um ano!
domingo, 6 de fevereiro de 2011
O amor fratura-nos.
O Animal Moribundo ( excertos)
A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platônica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. Aquele que forma um laço está perdido, a ligação é minha inimiga e, por isso, eu empregava aquilo a que Casanova chamava “o remédio do estudante” – em vez dela masturbava-me. Imaginava-me sentado ao meu piano enquanto ela estava toda nua ao meu lado. Uma vez representamos esse tableau ao vivo, de modo que eu estava tanto a recordar como a imaginar. (...)
O que é o ridículo? Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição do ridículo. Aquele que é livre pode ser louco, estúpido, repelente e sofrer precisamente porque é livre, mas não é ridículo (...) talvez agora que me aproximo da morte também eu anseie secretamente por não ser livre.”
Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que não são ainda velhos significa que já fomos.
Philip Roth , in O animal moribundo, Ed. Dom Quixote
Não importa o lugar ou a época, o drama humano é sempre o mesmo, e dele não podemos escapar. Roth, um grande contador de histórias, tem o talento para deixar isso sempre muito claro.
“Todos acabam fazendo parte da história, mesmo que não gostem, mesmo que não saibam” – Philip Roth
A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platônica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. Aquele que forma um laço está perdido, a ligação é minha inimiga e, por isso, eu empregava aquilo a que Casanova chamava “o remédio do estudante” – em vez dela masturbava-me. Imaginava-me sentado ao meu piano enquanto ela estava toda nua ao meu lado. Uma vez representamos esse tableau ao vivo, de modo que eu estava tanto a recordar como a imaginar. (...)
O que é o ridículo? Renunciar voluntariamente à nossa liberdade: esta é a definição do ridículo. Aquele que é livre pode ser louco, estúpido, repelente e sofrer precisamente porque é livre, mas não é ridículo (...) talvez agora que me aproximo da morte também eu anseie secretamente por não ser livre.”
Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que não são ainda velhos significa que já fomos.
Philip Roth , in O animal moribundo, Ed. Dom Quixote
Não importa o lugar ou a época, o drama humano é sempre o mesmo, e dele não podemos escapar. Roth, um grande contador de histórias, tem o talento para deixar isso sempre muito claro.
“Todos acabam fazendo parte da história, mesmo que não gostem, mesmo que não saibam” – Philip Roth
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Para viver a dois...
"Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.
Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes,
é necessário ser um."
Fernando Pessoa
...porque ele é essencial.
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.
Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes,
é necessário ser um."
Fernando Pessoa
...porque ele é essencial.
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