quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Para viver a dois...

"Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes,
é necessário ser um."

Fernando Pessoa

...porque ele é essencial.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Quanto pode uma mentira.

Houve um crime. Mas houve também um casal apaixonado. Essa noite toda estive pensando em casais apaixonados e finais felizes. Singrando rumo ao arrebol. Uma expressão detestável. Ocorre-me que não viajei muito, desde que escrevi aquela pecinha. Ou melhor, dei uma volta grande e terminei no ponto de partida. É só nessa última versão que o casal apaixonado termina bem, um ao lado do outro, numa calçada da zona sul de Londres, enquanto eu vou embora. Todas as versões anteriores são impiedosas.

(...)
O problema desses cinquenta e nove anos é este : como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar , ou com que possa reconciliar-se , ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela.Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas (...)


"Reparação" ( excerto) lindíssima obra de Ian McEwan - de uma beleza pungente: triste e de rara sensibilidade.
Ao assistir ao filme,fui preparada para um desastre, pois raramente adaptações de obras cumprem o original, mas - surpresa!- o filme ' Desejo e Reparação" é tocante pela beleza da fotografia, pela sutileza e pelo irremediável  final que nos deixa com o coração partido, mesmo que se saiba qual é.


As teias do cotidiano são mentiras .Sempre há um motivo para proferi-las e quem o faz acredita que é verdade. Mentiras inocentes? Existem? De centenas delas , UMA corta um caminho, decepa uma vida, destrói um sonho...É o bastante.Como reparar o estrago feito?
Quem de nós nunca mentiu, ainda que acredite que é por uma boa causa? Difícil admitir e aceitar isso.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Talvez,uma capacidade de me enternecer.

Fernando Pauler-"Mulher"

Pão e Poesia
Na minha escola havia uma matéria chamada "Biblioteca", adorada por todos os alunos. O motivo de tanta adoração não é esse que a nossa esperança literária acalenta, o amor pela leitura. Era de outra ordem: o amor pelo ócio. Ou melhor, pela liberdade, para não soarmos tão vagabundos. Durante uma hora, não precisávamos copiar textos do quadro, nem fazer exercícios, nem decorar regras e sistemas, nem nada. Estávamos livres. Era assim, ao menos, que a maioria compreendia a matéria. Íamos para a biblioteca, e folheávamos revistas, e batíamos papo, e cantávamos baixinho, e dormíamos. Ler? Ah, sim, estávamos rodeados de livros. Havia inclusive uma simpática bibliotecária que sempre nos perguntava, "O que vocês vão ler hoje?". A maioria mostrava, sorridente, uma revista: de quadrinhos, de cinema, de fofocas. A simpática bibliotecária balançava a cabeça, em reprovação afetuosa, e seguia adiante. Quando passava por mim, piscava o olho e me dizia baixinho, "Chegou aquele livro de poesia", tão baixinho que só eu ouvia, só eu era atingida por aquela rajada de vento entre as mesas da biblioteca, naquela hora repleta de risadas abafadas e sussurros incontroláveis. O livro em questão era da Cecília Meireles. Na época, eu estava mortalmente apaixonada por um menino da escola. E como o menino nem desconfiava da minha existência, eu acabei mais apaixonada ainda, pela poesia. "Procurei-te em vão pela terra, perto do céu, por sobre o mar. Se não chegas nem em sonho, por que insisto em te imaginar?", era o verso do poema Meu sonho, de Cecília, que eu repetia e repetia e repetia sem cansaço nem descanso. Era uma música, para mim. Com o mesmo poder melódico de me transportar, comover e transformar. De alegre, ficava triste. De tanta tristeza, me alegrava.


Em outra aula, a bibliotecária simpática não me viu mais entre as risadas e as revistas. Lá estava eu entre as estantes, menina arrastando pernas e esperanças, diante de uma plaquinha na qual estava escrito "Poesia brasileira". Havia pego por acaso um livro. "Amar o perdido/ deixa confundido/ este coração.As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis/ à palma da mão." E por acaso os meus olhos haviam caído naquela página. E lia palavras que eu não entendia imediatamente o significado (o que é tangível?, perguntei à minha mãe naquela noite, durante o jantar), mas as entendia completamente numa outra ordem de entendimento. Numa ordem esquisita de taquicardia e ardor no rosto. "Mas as coisas findas/ muito mais que lindas/ essas ficarão." De onde estava, a bibliotecária simpática não podia ver: eu suspirava. Lendo Memória, poema de Carlos Drummond de Andrade, eu esquecia aos poucos o menino da escola, mas acendia e reacendia eternamente o meu amor. Assustada, compreendi, também numa outra ordem de compreensão (de mãos frias e tropeços ofegantes) que as palavras têm temperatura. Elas esquentam e esfriam como qualquer coisa viva.


Anos depois, quando eu não frequentava mais a aula de "Biblioteca", mas um cursinho pré-vestibular, me deparei com o mesmo Carlos Drummond de Andrade, numa livraria. "Amor é privilégio dos maduros", dizia o poema Amor e seu tempo, que eu li aterrada, entre as estantes, pensando no meu primeiro namorado. "Estendidos na mais estreita cama", o poeta cantava, e eu me perguntava, como seria aquele amor maduro, que acontecia à mulher e ao homem depois de tantos outros. Eu estava na idade em que, se tratando do amor e de outras eloqüências, quase tudo era pela primeira vez. "Roçando, em cada poro, o céu do corpo", passei noites insones repetindo, sem saber na época, que se tratando de amores, a primeira descoberta é entrada para as outras. Que ficaríamos sempre nesse ciclo interminável de inícios e fins, num eterno movimento de cobrir e descobrir. "Amor é o que se aprende no limite", aprendi, mais tarde, no espanto de ver se concretizar em mim o poema, como a realização de uma profecia. Mas não é isso que nos fazem os versos? Nos tiram de um lugar em nós mesmos para nos devolver depois, desordenados, e ao mesmo tempo, mais inteiros?
Comecei a perder a memória poética quando entrei para a Faculdade de Letras. Precisava de tempo para estudar literatura, teoria literária e outras disciplinas que enchiam as minhas prateleiras de livros. Livros sobre algum escritor, ou algum movimento literário, ou alguma teoria, ou algum teórico, ou a respeito de certo aspecto da literatura tal destrinchado por, ou a obra de um escritor de acordo com, ou fragmentos de comentados por, ou ensaios de sobre. Quando me formei, já não conseguia mais repetir de coração nenhum poema. Um único verso que fosse, eu não sabia. Afinal, era uma moça estudada.


Foi uma pessoa que não lembro agora, provavelmente alguém desavisado, que me presenteou, na minha formatura, com um livro de poesia. "Da primeira vez em que me assassinaram", li, trêmula, com o diploma nas mãos. E agora? Eu perguntava, apertando com força Mario Quintana. Só então eu percebia que algo precioso havia se escapado de mim. E agora? Formada, fui dar aulas de literatura brasileira para o Ensino Médio, com a viva esperança de trabalhar com a leitura e a escrita. No entanto, apenas um semestre foi o suficiente para me desesperançar. "Da primeira vez em que me assassinaram", repeti o verso de Quintana, assim que saí da sala, após a prova na qual era muito importante saber qual era o período literário representado por Cecília Meireles, "perdi o jeito de sorrir que eu tinha", e se Carlos Drummond de Andrade podia ser considerado modernista, "Depois, de cada vez que me mataram/ foram levando qualquer coisa minha.../". Quando saí desse emprego, fiquei rodando horas pela cidade até me deparar enfim com uma livraria. Entrei, sôfrega. "Poesia", pedi ao livreiro, como se pedisse num bar uma bebida. "Com pedaços de mim monto um ser atônito", era o Manoel de Barros que me falava. Li e reli o verso, sorvendo das palavras o espanto, a alegria, a angústia de uma menina na biblioteca, o pousar de mãos de um senhor em seus cabelos brancos, o saltitar de um menino atravessando a rua, a moça que, de brincadeira, se escondia do namorado. "Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação", o poeta cantava, e eu repetia, repetia. Tentava recuperar algo que sentia perdido, e que talvez só a poesia... Talvez, uma capacidade de me enternecer.

Claúdia Lage in Rascunho-O jornal da Literatura do Brasil.



Esse texto é, no mínimo,comovente.Quase palpável. Já me senti assim inúmeras vezes, também entrei em livrarias ( agora sei o que procurava...era eu!)comprei livros, não necessariamente de poesia, mas jamais tive a iluminação para registrar esses momentos com tanta delicadeza e brilho.Sinto imenso prazer em partilhar um texto como esse .

domingo, 23 de janeiro de 2011

A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.


flickr.com

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar, duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.



Clarice Lispector...em 2011,2012,2013... 2000 e sempre.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O saco de brinquedos do amor.

Para aperfeiçoar o casamento e torná-lo mais feliz, nossos legisladores criaram o casamento com separação de bens. Mas falta ainda um passo para que a felicidade dos cônjuges seja completa: a criação do casamento com separação de males.

 Meu pai me contou que, quando era menino, no início do século passado, guardava seus brinquedos num saco. Os brinquedos que meu pai menino guardava no saco: latas vazias, pedaços de barbante, sementes, sabugos de milho, botões, pedaços de pau, pedrinhas e todo tipo de coisas inúteis. Quando alguém aparecia para visitar minha avó ele pegava o saco de brinquedos e o esvaziava diante da visita. Certamente achava seus brinquedos interessantíssimos! A mãe dele ficava furiosa e lhe aplicava o devido corretivo de chineladas depois que a visita ia embora. A chinela era um dos itens favoritos que minha avó guardava no saco de brinquedos dela.
As crianças continuam as mesmas. Ainda gostam de mostrar brinquedos. A gente cresce e continua criança. “Em todo homem há uma criança que deseja brincar...“ (Nietzsche). E todos temos o nosso saco de brinquedos. A fala somos nós abrindo o saco e despejando brinquedos...


O saco de brinquedos: isso é de fundamental importância, quando o amor está em jogo. A paixão acontece quando, fascinados por uma imagem – pode ser um jeito de olhar, um jeito de sorrir, um jeito de falar... - imaginamos que dentro daquele corpo de imagem fascinante estão guardados os brinquedos com que gostamos de brincar. O que vemos é a imagem da pessoa amada, mas o que imaginamos são os brinquedos que julgamos guardados dentro dela. A imagem, sozinha, logo se transforma em monotonia.
Ninguém consegue ficar o tempo todo contemplando a pessoa amada, por bonita que seja. O que alimenta a paixão não é a imagem mas os brinquedos que ela guarda... Hermann Hesse dizia que a pessoa objeto do nosso amor é apenas um símbolo, uma lagoa onde o rosto da “Outra“ aparece refletido. Que Outra? Aquela que imaginamos. Veja esses versos de Fernando Pessoa. Mas leia bem devagar...


“Amamos sempre, no que temos,
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos? À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca? Da Outra..."

Rubem Alves.

Tarde chuvosa de uma quinta-feira cinzenta ,decor perfeito para sonhar com os brinquedos do amor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

De vez em quando...Nietzsche.

Havendo uma linguagem do forte, há por sua vez uma do fraco, uma linguagem do rebanho - a amarga retórica dos cativos. É dela que deve-se precaver. Há nela um evidente discurso do ressentimento, que atribui todas as desgraças do mundo e da sua vida aos outros. Incapaz de assumir a sua responsabilidade pessoal (atributo apenas dos fortes), seja lá no que for, o medíocre, o pequeno, o de " alma estreita", transfere a causa dos seus inúmeros fracassos e decepções a tudo o que está além e acima dele (em Deus ou no diabo, nos nobres, no senhor, no patrão, etc..). O sentimento melindrado do rebanho, expressão coletiva do ordinário e do baixo, volta-se então contra o que se destaca, para o excepcional, acusando-o com dedos numerosos e trêmulos de não ter fracassado e sucumbido na vida como os demais. Condena igualmente "as paixões que dizem sim": a altivez, a alegria, o amor do sexos, a inimizade e a guerra - enfim, "tudo o que é rico e quer dar, gratificar a vida, dourá-la, eternizá-la e divinizá-la - tudo o que age por afirmação".

Friedrich Nietzsche in  A  Vontade de  Poder.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/nietzsche_filosofo.htm

Nietzsche foi um arguto observador das terríveis distorções psicológicas que a dominação de um ser humano sobre o outro provoca. De certa forma, ele inverte o primado marxista de que as ideias dominantes são as da elite dominante. Para Nietzsche, ao contrário, são os dominadores que tem que precaver-se com as perigosas e debilitadoras ideias dos dominados, pervertidas que foram exatamente por eles terem sido de alguma forma oprimidos.

A teoria do ressentimento como expressão dos vencidos da vida é uma apreciável, se bem que questionável, contribuição de Nietzsche à psicologia moderna.

Vontade de potência (Wille zur Macht)Trata-se da pulsão permanente pela vida e pelo domínio. Requer a mobilização completa das energias, físicas e mentais, para incessantemente conduzir as coisas às últimas conseqüências. Wille zur Macht é o domínio e a superação de si, das debilidades, e, também domínio sobre os outros e sobre a natureza. A vontade liberta porque é criadora.

A vida introspectiva do ser humano continua um mistério, embora filósofos e pensadores, psicológos e outros se arvorem em descobri-la. É fato inconteste  que um ser humano que se sente menosprezado destila  ressentimento, mas dai a generalizar ...Enfim, creio que esse é um segredo divino e tudo o mais não passa de especulação.
Mas...quem sou eu para questionar Nietzsche?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

De dentro para fora...



Amadurecer foi retirar os rostos e as peles e começar a ver no espelho o verdadeiro eu - onde se lê uma severa contabilidade dos gastos e lucros, saldos nem sempre tranquilizadores. Quanto de amargura, quanto de bom humor sobrou, quanta capacidade de se renovar?

Entender que não precisamos ser onipotentes é uma das maiores libertações. Ninguém, homem ou mulher, pai ou mãe, pode ser totalmente responsabilizado pela sorte de ninguém, por seus erros e acertos, por sua solidão ou felicidade - a não ser na medida justa, em que se é responsável por quem se ama, dentro dos limites da capacidade de cada um.
Na maturidade percebe-se que não importa tanto o que fizeram conosco, mas o que fizemos com o que eventualmente nos aconteceu. É uma indagação dramática, que na juventude parece algo a resolver num futuro muito remoto. Mas "de repente, tinham-se passado vinte anos". E nós, e nós? Precisamos descobrir que amadurecer não significa desistir nem estagnar.

O Rio do Meio  / Lya Luft
 
Não sei se é coincidência ou se estou tão aberta ao meu habitual desassossego , que algumas obras e textos esparsos " cairam" em minhas mãos , quase todos sobre o mesmo tema. No sábado, entrei na Saraiva e logo que toquei a obra "Solstício de Inverno "de Rosamunde Pilcher , apaixonei-me pela capa e pelo título. Ao ler a sinopse, descobri que não sairia dali sem aquelas exatas 644 páginas. Devorei-as em pouco mais de 18 horas e , por haver me mudado para o texto, foi difícil desvencilhar-me dele.Aliás, eu não queria fazê-lo. Eu poderia ter entrado em qualquer capítulo, a qualquer momento e tudo seria natural, porque este é o livro onde o improvável acontece e contagia.As personagens são comuns , como qualquer um de nós. Perfeito.
 
Acho que foi o melhor momento das minhas férias(?): "viajar para dentro é, sem dúvida,  a minha praia".
 
Em Solstício de Inverno, Rosamunde Pilcher conta a história de Elfrida Phipps, que deixa Londres para construir uma nova vida em Dibton, pequena cidade em Hampshire, onde desfruta da companhia do cão Horácio e da amizade dos Blundell. Porém, uma tragédia imprevista muda a sua rotina e abala radicalmente a sua vida. Elfrida é obrigada a partir para a Escócia, e o destino, pregando-lhe uma peça, acaba por reunir à sua volta pessoas mergulhadas na solidão, na saudade, no abandono e na perda. Num casarão em ruínas, no norte da Escócia, elas irão se reunir e, ao mesmo tempo, encontrar-se a si mesmas no dia mais curto do ano , no solstício de inverno.Rosamunde Pilcher combina eloqüência e compaixão para criar personagens que revelam a forma como verdadeiramente vivemos e amamos. Repleta de tragédia e renovação, Solstício de Inverno possui uma narrativa cativante ,repleta de emoção.