quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma reflexão ...em dó maior.



Depois de ter vivido uma vida bastante longa e atribulada, hesito em dizer quem sou, como sou, porque sou...Realmente , não sei.

Tenho uma dualidade muito peculiar,ambígua, sou acessível, porém introspectiva naquilo que me diz respeito.Não sou de palco, atuo muito bem nos bastidores e gosto de estar lá. Refletores e luzes , minha alma precisa deles, não meu corpo.

Refletir e estar sozinha fazem-me bastante bem , porque é nesses momentos que me reencontro seja lá para o que for. Se rememoro algo triste, tenho lágrimas suficientes para lavar a dor , e seguir em frente. Se é algo conflituoso e complicado que me aflige, respiro fundo, busco coragem sei lá onde e recomeço. Sou dura na queda.

Contar comigo é regra, talvez porque tenha aprendido, a duras penas, que colocar expectativas nos outros é um convite à frustração. Demorei uma vida para descobrir segredos simples que poderiam ter tornado minha travessia por esse mundo muito mais leve. Tarde, porém a tempo. Engana-se quem pensa que descobri o caminho para a felicidade, apenas aprendi a atenuar as dores e os percalços do caminho.

Algo que sempre me preocupou , desde que criei o blog, era o fato de me expor. Decidi que não o faria e fui buscar em maravilhosos textos - não meus-a cumplicidade que faltava para preencher os espaços vazios. Mas, há dois dias atrás, movida por um impulso inexplicável de trazer ao presente um ontem especial que é intrínseco na minha história, postei um texto íntimo e pessoal. Era de mim para mim, mas acabou sendo de mim para o mundo. Quando me dei conta, o particular se tornara público.

Percebo agora que essa auto-exposição não foi ontem. Nasceu com o blog em cada palavra,cada vírgula, cada pausa, cada imagem ,cada reticência, cada entrelinha, cada texto escolhido... Milimetricamente, com sutileza, como a uma colcha de retalhos fui sendo tecida ,dia após dia, diante de mil olhos atrás dessa tela e , talvez, diante de mim, por tudo o que escolhi dizer aqui. Isso não é um desabafo, não estou arrependida, não...é apenas uma constatação.

Sei, no entanto , que, desde ontem, deixei de ver meus amigos virtuais como letras, textos, nomes .Eles passaram a ser muito mais :presenças de Pessoas que vou procurar construir melhor no meu imaginário, do mesmo modo com que me vi, pelos sinais. E , pelo que já conheço de cada um, poderei iniciar uma feliz sinfonia coletiva , cheia de notas e cores:

Haverá Frutos de Mim e Mar nas Interioridades de Tons de Azul .A Flor da Vida receberá um Beijo à noite, e nos mostrará que É Tudo Igual . As Horas Rotas poderão trazer as Cartas de Tiro em uma Big bag of Dreams. Com Paz & Arroz faremos uma grande festa para a qual virão a Em@ e a Zambesiana. Tudo será iluminado por uma doce Lanterna Romântica, pontilhado por Searas de Versos e profundamente guardado nas verdes Planícies da Memória. E muito e muitos mais...

Outras notas e cores ainda virão ...e a música sempre se renovará, porque lá no âmago de cada um, todos os que estamos aqui, na blogosfera, somos e vivemos desassossegados.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

E então...soprou um vento de imensa ventura.


E então...
soprou um vento de imensa ventura.

Eu senti meu coração, dourado de sol,
transbordando de amor, transbordante de você...
Olhei seus olhos e me vi neles.

De repente, você tomou-me nos braços, afagou-me a cintura,
recolheu-me em seu peito.
Meu coração inquieto pulsava mais do que o seu...
Faminto, você me colheu como a um fruto!
Sedenta, eu o bebi como a agua!
Você marcou seus dentes em minha carne,
eu escorri minha boca em seu pescoço,
e me perdi...e nos perdemos.

Seus braços tomaram minhas formas,
minha mão desenhou a sua pele,
nossas bocas se uniram e esquecemos o começo e o fim.

depois, quando falamos,
senti que você era realidade em minha vida.

E então...soprou um vento de imensa ventura.

Gizelda



1968- Direto do " tunel do tempo", há 42 anos.
Intensamente vivido e guardado em uma agenda e no meu coração.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Não podemos perder nossa capacidade de indignação.


Não conhecemos nosso destino e nem as circunstâncias interiores e exteriores que o levarão ao sucesso ou ao malogro de nossas intenções de vida. O mal não necessita de nenhuma intrepidez de caráter: multiplica-se como sombra sem fonte de luz definida.

O bem requer um esforço de sociedade e uma disposição de vontade individual tais que sua realização é sempre um ato de coragem, como, aliás, a verdadeira alegria.
A distinção entre um e outro é objeto da ética e de seus finalismos morais.
A violência é a loucura do mal e a sua banalidade, para lembrarmos Hannah Arendt, pode ser mais danosa do que todos os maus instintos juntos.

Não podemos perder nossa capacidade de indignação.

A indigência ética - para lembrar agora uma expressão de Heidegger - de nossa época é o grande desafio de nossa sociedade. Buscar arrancá-la de um relativismo absoluto no qual tudo se compreende e tudo se perdoa, sem deixá-la resvalar pela pirambeira metafísica dos universalismos místicos e racionalistas, em que tudo se explica e nada se entende, é a tarefa maior que devemos nos propor realizar.

Estudar, sob os seus mais diferentes aspectos, os mecanismos da violência é, sem dúvida, um passo importante para o seu entendimento, mas não necessariamente para o seu perdão. Um pouco de Nietzche não fará mal a ninguém!


Violência : faces e máscaras.
In O mistério da impiedade

Carlos Vogt

"Por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira, e para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniqüidade". (Tessalonicenses, 2: 11- 12).

Texto integral :http://www.comciencia.br/reportagens/violencia/vio01.htm

IMPERDÍVEL.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cortázar, perfeito.


Te desafio a por e falar de mim, sem dar pista nenhuma de quem eu sou, apenas falando o que represento na tua vida.

Te amo por sobrancelha, por cabelo, te debato em corredores branquíssimos onde se jogam as fontes de luz,
te discuto em cada nome, te arranco com delicadeza de cicatriz, vou pondo em teu cabelo cinzas de relâmpago e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas precisamente o que vem atrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo suas lâmpadas no meio do encontro.

Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho,
disposto a te apagar, assim, não és, muito menos com esse cabelo liso, esse sorriso.

Busco tua soma, a borda da taça onde o vinho é também lua e o espelho,
busco essa linha que faz o homem tremer numa galeria de museu.

Além do mais, te amo, e faz tempo e frio.


Julio Cortázar

Esse texto dispensa adendos. É demais.

domingo, 12 de setembro de 2010

Amigos...




Nessa madrugada acordei sobressaltada com uma sensação estranha de que algo estava fora do lugar. Inquieta, sem conseguir dormir e controlar o caos de pensamentos fui levada a lembranças de pessoas com as quais convivo e convivi.E me veio a incrível solidão de sentir-me longe dos amigos, aqueles para com os quais não são necessárias palavras, um olhar é mais.

Com uma clareza contundente pude selecionar conhecidos, colegas e , poucos , raros amigos. Estes ,os que por mim passaram e passam deixando a si próprios, e por quem também me deixei,cuja ausência é a presença mais nítida de ombro, de identidade, de complemento de abraço. Amor em duas mãos, incondicional, dia e noite.

Outros, os primeiros, transitórios ,oportunistas presenças na conveniência, na deslavada altitude de usufruir sem se dar, de transitoriedade, de olhos baixos porque não há como tê-los altos, Afinal não foi através de um olhar que Bentinho se perdeu em Capitu?...

É para os amigos preciosos que escrevo, hoje, na certeza de que não preciso citar nomes : eles sabem o quê e quem são. Poucos e bons.
Minha alma ficou repleta e em paz.
Então...adormeci.




Esse post já esteve nesse blog em setembro de 2009. Mas, ao lê-lo, hoje, senti uma necessidade premente de repeti-lo. Saudades de amigos raros que escreveram minha história , foram-se , mas permanecem nela de uma maneira definitiva.
Gostaria de tê-los aqui, mesmo que só para um abraço.

PS: Depois do comentário do AC, acredito ser essencial expor aqui um vínculo afetivo, que se criou com pessoas inacreditáveis que se tornaram meus amigos virtuais. Por eles sou abraçada sempre que postam aqui, mesmo em silêncio e quero abraçá-los de volta. E dizer que isso é algo que se construiu e que desejo que se multiplique e perdure.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

...diante dos nossos olhos.




Ás vezes,há um momento excepcional para a felicidade.

O campo das possibilidades infinitas se abre para nós e, assim sendo, muitas coisas tornam-se palpáveis, principalmente aqueles desejos há muito acalentados. Este é o momento em que os sonhos podem virar realidade.

...Mas,todos possuímos uma parte que rejeita a felicidade. Somos tão viciados em nossos próprios sofrimentos, que não sabemos reconhecer quando uma boa oportunidade se escancara diante de nossos olhos.

E a perdemos...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

As roupas da minha vida.


Dentro de um caixote ou dentro de um móvel de ébano precioso vou pôr a guardar as vestes da minha vida.
As roupas azuis.
E depois as vermelhas, as mais belas de todas.
E a seguir as amarelas.
E por fim de novo as azuis, mas muito mais desbotadas estas últimas do que as primeiras.
Vou guardá-las devotamente e com muita tristeza.

Quando vestir as roupas negras e quando morar dentro de uma casa negra, dentro de um quarto escuro, abrirei de vez em quando o móvel com alegria, com desejo e com desespero.
Verei as roupas e lembrar-me-ei da grande festa - que será nesse momento de todo finda.
Os móveis espalhados desordenadamente dentro das salas.
Pratos e copos partidos no chão.
Todas as velas gastas até ao fim.
Todo o vinho bebido.
Todos os convidados idos.
Cansados alguns estarão completamente sozinhos, como eu, dentro de casas escuras - outros mais cansados terão ido dormir.



Konstandinos Kavafis, in Vestes

A nossa vida se multiplica em mil outras vidas, bem ou mal vividas, não importa.As cores que elas têm são aquelas que lhes damos pelo entusiasmo ou pela tristeza com que as preenchemos.

Quando " a festa acabar", quero que a roupa guardada da minha vida seja amarela e intensa. Não quero guardar uma roupa branca e translúcida...

Você sabe de que cor é a roupa de sua vida?

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