
Meu querido...
Sem dúvida,é agradabilíssima surpresa: uma carta sua para mim. Em pleno século XXI, quando a fria tela do computador vem substituindo o papel com tanta agilidade, eis que surge sua letra tão facilmente reconhecível em um envelope de papel pardo.Isso foi de uma gentileza ímpar.
A primeira página já o entregou: impressionante como pode ser tão analítico aos dezoito anos. Inacreditavelmente contundente , quando crê que já sabe o que quer e o que é.Mas, num relance, li a sequência e percebi o desencanto absolutamente normal a todos aqueles que sonham . O sonho transformou-se em realidade e não é o que você esperava dele.
Não é difícil entender : sonhos são fantasias e realidade é o que temos, felizmente moldável ao que precisamos que seja. A paixão, querido,é uma chama efêmera...queima intensamente e termina. O que temos que cultivar é cumplicidade com o caminho profissional que escolhemos e amor por ele. Isso não surge do nada, é preciso construir. Demora,mas é gratificante.
Fazemos rascunhos de pequenas coisas durante a vida inteira, mas quando se trata de viver o “ nosso texto”, ele vai sendo escrito no livro definitivo. Não há como apagá-lo, mas, pode-se, sim, mudar o roteiro. Afinal , esse texto é nossa vida. Pode e deve mudá-lo sempre que ele lhe oprimir .
A vida não é feita só de retas perfeitas e mansos rios. Tem-se pelo caminho tortuosas curvas, quedas d’ água violentas, muita turbulência e , às vezes, calmaria. Tudo isso faz parte da incrível aventura que é viver, nem sempre como gostaríamos que fosse. Dói, dói mesmo, porém não há como evitar.
E que delícia você ter descoberto no livro uma companhia! Ainda é cedo, mas, um dia, você vai perceber quão importante e enriquecedor foi ter feito essa escolha.
Poderia escrever muito mais, mas você vai ter que descobrir sozinho a arte de conviver com alegrias e frustrações. No entanto,Guimarães Rosa é meu escolhido para terminar essa carta : “Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenininho. Mas noutro de repente ele se torna demais de grande outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento”. Reflita a respeito desse excerto.
Obrigada por haver dividido comigo um pedacinho da sua história.
Um beijo carinhoso. E não atropele a vida. Tudo virá no tempo certo.
Gizelda.
Em tempo: a jurista , embora diplomada, era a que devia ter sido e não foi. Agradeço todos os dias por Literatura ter sido meu terceiro pensamento.Só uma feliz mudança de roteiro...
PS : a missiva original foi enviada manuscrita ao destinatário,sem dúvida.





