sexta-feira, 7 de maio de 2010

Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas...


Os livros que mais me falam são os diários. Diários são registros de experiências comuns acontecidas na simplicidade do cotidiano, experiências que provavelmente nunca se transformariam em livros. Não foram registradas para serem dadas ao público. Quem as registrou, as registrou para si mesmo - como se desejasse capturar um momento efêmero que, se não fosse registrado, se perderia em meio à avalanche de banalidades que nos enrola e nos leva de roldão. Esse é o caso do Cadernos da Juventude, de Camus, um dos livros que mais amo, e que leio e releio sem nunca me cansar.

Um “diário” é uma tentativa de preservar para a eternidade o que não passou de um momento. Álbuns de retratos da intimidade. Pois eu fiz um “Diário”: pensamentos breves que pensei ao correr da vida e dos quais não me esqueci. Pensamentos são como pássaros que vêm quando querem e pousam em nosso ombro. Não, eles não vêm quando os chamamos. Ele vêm quando desejam vir. E se não os registramos eles voam, para nunca mais. Isso acontece com todo mundo. Só que as pessoas, achando que a literatura se faz com pássaros grandes e extraordinários, tucanos e pavões, não ligam para as curruiras e tico-ticos... Mas é precisamente com curruiras e tico-ticos que a vida é feita.
Assim, em cada página há também um espaço em branco para que o leitor registre também os seus seus tico-ticos e curruiras... Pensando num título escolhi O Poema nosso de cada dia..., em contraponto ao “pão nosso de cada dia” da oração de Jesus. Porque não vivemos só de pão; vivemos também de poemas. Quem se alimenta só de pão engorda e fica pesado.Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas...


Rubem Alves - Quarto de Badulaques

Agora ficou muito mais difícil desfazer-me das minhas agendas. Estou me achando uma curruira...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cenas da vida.



Vasos quebrados podem ser diligentemente colados,sim.Continuam a enfeitar a sala sem que ninguém perceba.Porém, o conserto é aparente, apenas.Jamais voltarão a ser intactos.Nós sabemos que estão quebrados para sempre....

Imagem :www.nautikkon.blogspot.com /Fernando José Karl( Exposição Nautikkon 2010- Linda!)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tenho saudades...sei lá de quê!



O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!”

Florbela Espanca

Há momentos em que encontramos um texto e descobrimos que ele era exatamente aquilo que gostaríamos de ter escrito,porque carrega muito de nós...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

in O Nome da Rosa.


Os homens de outrora eram grandes e belos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos que testemunham a desventura de um mundo que vai envelhecendo.
A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos, os pássaros se lançam antes de alçar voo, o asno toca lira, os bois dançam. Maria não ama mais a vida contemplativa e Marta não ama mais a vida ativa, Léa é estéril, Raquel tem olhos lúbricos, Catão frequenta os lupanares, Lucrécio vira mulher.
Tudo está desviado do próprio caminho. Sejam dadas graças a Deus por eu naqueles tempos ter adquirido de meu mestre a vontade de aprender e o sentido do caminho reto, que se conserva mesmo quando o atalho é tortuoso.



Umberto Eco - O Nome da Rosa

Livros obrigatórios para entender a vida, eis um deles.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ameixas em calda com chantilly.


A maioria das minhas lembranças não são filmes, nem músicas: são cheiros e sabores.

Não me recordo quando foi que meu pai me prometeu que me levaria a S.Paulo. Pelas minhas contas, hoje, pareceria impossível, porque meu cérebro infantil não conseguia contabilizar a distancia entre o lugarejo em que morávamos e a capital.Mas, se era uma promessa, eu , um dia, iria lá, com certeza.

Quantos anos eu tinha? 10? Não sei.A promessa se cumpriu.Viajamos á noite e chegamos de manhãzinha.Enquanto eu guardava a visão da cidade, absorvendo aquela paisagem inusitada, não sobrava memória para nada mais.

Foi um grande dia...Cinzento, enevoado, e da janelinha do vagão restaurante do trem o que me descortinava era algo muito além das minhas expectativas.

São Paulo me chegou, pela primeira vez, como algo que nunca acabava, poderosa,maior do que cabia na minha imaginação.Tudo era novo e o burburinho de pessoas – de onde vinham tantas ? - me deixava atônita.

Entretanto, a impressão definitiva aconteceu quando fui levada ao “ Restaurante Leão”.Que rua era aquela? Avenida São João...um prédio sisudo, ambiente escuro de mesas com toalhas imaculadamente brancas, tilintar de copos e talheres.

Lembro-me tão bem!Se me pusessem nele , ainda hoje, 50 anos depois, eu seria capaz de parar naquela mesa, bem no meio, encostada numa pilastra quadrada e escura. O cardápio, a escolha por “Tutu à mineira” e então, ela...a sobremesa, irresistível : ameixas em calda com chantilly!

A cada bocado , eu tinha certeza de que não queria que aquilo acabasse. Mas , como tudo, acabou. Meu pai também se acabou... Entretanto, quando me lembro dele em 49 anos convivendo juntos,sinto que esse foi o momento de maior proximidade entre nós dois. Cumplicidade silenciosa e encantada na hora do almoço.

Em minha geladeira nunca faltam ameixas em calda, mesmo que eu não as consuma.Porém aquele gosto nunca mais...

Descobri assim que o que eu sempre busquei não era a sobremesa, mas o sabor da presença do meu pai...Este ficou para sempre, atrelado à imagem de São Paulo, mesmo que eu nunca mais coma ameixas em calda com chantilly...

Gizelda/02/04/2003

Eu e minhas velhas agendas...

Esse texto foi escrito para o meu pai, e publicado pela Revista Época em Agosto de 2009 , no dia dos pais.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Livros devoradores



Saudade de devorar um livro e de ser devorada por ele.

De não conseguir largar o coitado. Ficar pensando nele. Sonhar com os personagens. Sentir a falta deles na rua quando o livro está em casa.

A questão aqui não é voltar aos clássicos, como se com eles a fome fosse certa. Não é. Há muitos chatos, há muitos maravilhosos.

A questão não é contrapor clássico X contemporâneo como se agora não se escrevesse livros devoradores. Essa visão seria simplista, anacrônica. Se escreve, sim, livros devoradores.

Nem colocar em pauta a experimentação X tradição, medindo as duas forças e qualificando uma em detrimento da outra.

Até porque entre uma e outra dou a mão aos que colocaram a linguagem ao avesso e ainda tentam levá-la a caminhos originais.

A questão é uma certa percepção de que há uma idéia meio formada de que experimentar na linguagem significa abandonar história e personagens.

Quando digo história, digo experiência, vivência, não uma historinha careta com início-meio-fim. Às vezes a experiência de um segundo na vida de alguém, um pensamento, uma descoberta.

O resultado muitas vezes monótono é uma voz falante e vertiginosa que na verdade não tem vertigem nenhuma dentro de si, apenas o movimento que se acha que a vertigem tem. Muito racional.

Quanto mais leio mais concretizo a idéia de que experimentar na linguagem é experimentar os modos de contar a história, os modos de tratar o personagem, tirar dos parâmetros estabelecidos, fazer de outra forma. É a relação original entre os elementos da escrita que faz a narrativa ser única e apaixonante.

A forma é muito importante, mas ela nasce de algum lugar, e, ao meu ver, não é do escritor. Da vontade pessoal do escritor. Ela nasce do imaginário, faz parte deste lugar que é a literatura.

A literatura é um universo próprio. E, por mais que seja praticamente irresistível, sedutor e fascinante, não é o escritor que mora nesse universo, é a escrita.


Claudia Lage in A pequena morte e outras naturezas.

O maravilhoso é constatar que eu me sinto assim sempre,em busca de livros devoradores que me comem a alma e a devolvem melhor do que era.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A todos que , sendo águias, são reduzidos a galinhas.



“Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar num filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no tecto da casa. Sussurrou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá em baixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu havia-lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento…
(…)

Leonardo Boff – A águia e a galinha (uma metáfora da condição humana)

Ao ver uma galinha e uma águia, você vai ver mais que uma galinha e uma águia. Você vai se confrontar com duas dimensões fundamentais da existência humana. A dimensão do enraizamento, do cotidiano, do prosaico, do limitado: o símbolo da galinha. A dimensão da abertura, do desejo, do poético, do ilimitado: o símbolo da águia. Como equilibrar estes dois pólos? Como impedir que a cultura da homogeneização afogue a águia dentro de nós e nos tolha voar?
Para dar uma resposta convincente a esses desafios, o autor visita a moderna cosmologia, a psicologia profunda, a nova antropologia, a ecologia, a espiritualidade e a mística. O resultado é uma reflexão instigante que provoca entusiasmo na busca da identidade humana através da inclusão das contradições e da superação dos eventuais obstáculos a nível pessoal, social e planetário.

Cada um hospeda dentro de si uma águia. Sente-se portador de um projeto infinito. Quer romper os limites apertados de um arranjo existencial.
Há movimentos na política, na educação e no processo de mundialização que pretendem reduzir-nos a simples galinhas, confinadas aos limites do terreiro. Como vamos dar asas à águia, ganhar altura, integrar também a galinha e sermos heróis de nossa própria saga? Este livro sugere caminhos, mostra uma direção e projeta um sonho
promissor.

Dedico este livro:

– aos sensíveis à dimensão feminina, a águia mais aprisionada e reprimida de
nossa cultura. Sem ela,]ames Aggrey jamais teria contado a história que contou. Eu,
certamente, não teria tido a sensibilidade para guardá-Ia e refleti-Ia no coração. E
vocês não seriam capazes de experienciá-Ia.
– a todos os que, sendo águias, são impedidos de o ser e se vêem reduzidos à condição de galinhas.
– de maneira especial ao povo negro e às nações indígenas, naturalmente portadores da ânsia de ser-águia.

Por: http://hermesgama.files.wordpress.com/2008/09/leonardo-boff-a-aguia-e-a-galinha.pdf .
Extensível :http://www.anped.org.br/concurso/curriculos/20mhdanielarezende/danielarezendemonog.pdf .

Por FREI Leonardo