
Os livros que mais me falam são os diários. Diários são registros de experiências comuns acontecidas na simplicidade do cotidiano, experiências que provavelmente nunca se transformariam em livros. Não foram registradas para serem dadas ao público. Quem as registrou, as registrou para si mesmo - como se desejasse capturar um momento efêmero que, se não fosse registrado, se perderia em meio à avalanche de banalidades que nos enrola e nos leva de roldão. Esse é o caso do Cadernos da Juventude, de Camus, um dos livros que mais amo, e que leio e releio sem nunca me cansar.
Um “diário” é uma tentativa de preservar para a eternidade o que não passou de um momento. Álbuns de retratos da intimidade. Pois eu fiz um “Diário”: pensamentos breves que pensei ao correr da vida e dos quais não me esqueci. Pensamentos são como pássaros que vêm quando querem e pousam em nosso ombro. Não, eles não vêm quando os chamamos. Ele vêm quando desejam vir. E se não os registramos eles voam, para nunca mais. Isso acontece com todo mundo. Só que as pessoas, achando que a literatura se faz com pássaros grandes e extraordinários, tucanos e pavões, não ligam para as curruiras e tico-ticos... Mas é precisamente com curruiras e tico-ticos que a vida é feita.
Assim, em cada página há também um espaço em branco para que o leitor registre também os seus seus tico-ticos e curruiras... Pensando num título escolhi O Poema nosso de cada dia..., em contraponto ao “pão nosso de cada dia” da oração de Jesus. Porque não vivemos só de pão; vivemos também de poemas. Quem se alimenta só de pão engorda e fica pesado.Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas...
Rubem Alves - Quarto de Badulaques
Agora ficou muito mais difícil desfazer-me das minhas agendas. Estou me achando uma curruira...




