quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Em trânsito.


Tempo de pausa para o meu coração.

sábado, 30 de janeiro de 2010

in Desassossego.


"O coração, se pudesse pensar, pararia."

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."


Fernando Pessoa

...


"Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas."

Heinrich Heine

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

...o mundo não nos dá garantia alguma.


Uma pequenina mudança hoje acarreta-nos um amanhã profundamente diferente. São grandes as recompensas para aqueles que optam pelos caminhos duros e difíceis, mas essas recompensas acham-se ocultas pelos anos.

Toda escolha é feita inteiramente às cegas, e o mundo não nos dá garantia alguma. A única maneira de evitar todas as escolhas assustadoras consiste em deixar a sociedade e tornar-se um ermitão, e também isso é uma escolha assustadora.

O bom caráter advém de seguirmos nosso supremo senso de retidão, de confiarmos nos ideais sem querer estarmos certos de que darão certo. Um dos desafios de nossa aventura na terra consiste em nos elevarmos acima de sistemas mortos... guerras, religiões, nações, destruições... recusarmos a fazer parte deles, e em vez disso exprimirmos o que temos de melhor dentro de nós.

Não importa qual seja nossa habilitação ou nosso merecimento, nunca alcançaremos uma vida melhor até conseguirmos imaginá-la para nós próprios e permitir-nos tê-la.
Deus sabe que isso é verdade!”


(Richard Bach – Fugindo do Ninho)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sempre é tempo de entender.


É domingo. O sol entra pela fresta da janela no meu quarto.Pela claridade difusa percebo que ainda é cedo.Repito, então, um ritual que me acompanha desde os 8 anos: aliso um velho tapete colorido e fico esperando que ele se mova.
Nada. O que é que eu esperava? Que ele voasse, sem dúvida.Deito-me ali mesmo e me pergunto se estou ficando maluca.

Foi há tanto tempo...há precisos 15 anos atrás.Também era domingo, a casa estava imersa no doce silêncio da manhã que nem acabara de nascer.
Descalça, sonolenta,abri a porta e caminhei lentamente pelo corredor.Quando meus pés nus pisotearam o tapetinho, ele se mexeu .Estatelei-me no chão,aborrecida com minha falta de jeito.Mas então esfreguei os olhos a tempo de vê-lo levantar vôo comigo.
Queria gritar, mas minha voz não saiu. Algo estava muito errado. Mas, o quê???

O tapete parecia doido. Desviava de móveis, deslizava pelo corredor e...onde estavam todos ? Ninguém viria me socorrer?
Tudo acontecia de maneira espantosa.Sobrevoamos a geladeira em um lance tão rasante que eu me deitei e agarrada a ele fechei os olhos.Passamos pela pequena abertura do vitrô da cozinha e ganhamos espaço.

Maravilhada abri os olhos. O medo se fora.O céu muito azul, nuvens de algodão quase tocáveis, pássaros, amplidão, nós, eu e ele. Inacreditável.
Comecei a gostar da aventura.Olhei para baixo -uma vertigem: outro céu?O mar.Céu e mar azuis e límpidos. Eu tinha morrido, com certeza.Mas, então , pouco me importava. Aquilo era um presente do qual eu iria usufruir até o fim .

Parecendo entender o que eu sentia, em volteios encantadores,o tapete foi descendo e tocou as ondas geladas. Respingos. Por que não?Que mal havia naquilo se só eu sabia?
Depois de requebros e meneios, voou em uma velocidade surpreendente até uma sala imaculadamente em ordem. Que lugar era aquele? Vozes, risadas e duas meninas gritavam pela avó.Permaneci imóvel. Quem eram? O que eu fazia ali? Será que me viam?

As duas afastaram-se, cheguei –me a um móvel alto e espelhado; ali estava a foto de um rosto que me era conhecido.Claro. Claríssimo. Era eu, envelhecida, cercada de flores, bichos e duas crianças.

Não houve tempo para entender.Eu me vi – a outra- entrando na sala . Quantos anos eu teria? 60? Engoli seco.O que iria acontecer. Enquanto eu-velha saia de cena, eu- menina fechei os olhos desesperadamente não querendo abri-los no mesmo lugar.Contei até 10, mais 20, criei coragem , abri-os e continuava ali. Vagarosa, com medo, sentei-me no tapete em um mudo pedido de socorro e ele me tirou dali.

Minutos depois, sentada no corredor da sala, ouvi a voz do meu pai : Menina, o que faz tão cedo acordada?Por que está aí no chão?Hoje é domingo. Volte para a cama .

Os anos se passaram , e por mais que minha sanidade me diga que dormi ali no chão e sonhei, acredito que houve algo mais.

Tenho 23 anos agora e continuo vagando pelo corredor nas manhãs de domingo à espera de que a mesma cena se repita e que eu consiga entendê-la.

Mas não foi hoje...ainda não.De uma maneira ou de outra , acredito que foi maior do que um sonho....Eu estive lá...onde um dia, com certeza, vou estar!


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Escrito em uma agenda de 1971 /13 de dezembro.Enquanto transcrevo aqui esse texto de ficção, claro!- jamais andei em um tapete encantado-olho à minha frente e vejo a mim, envelhecida, refletida em um espelho.Ao lado a foto de minhas duas netas.A nítida impressão de algo já vivido. Teria sido premonição?????Afinal, aqui estamos,eu e elas .

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

De sorrisos e risos.


Há muitas formas de riso e de rir. Entre o rir e o sorrir, existe um espaço extremamente complexo. Não cultivo o riso, cultivo a ironia. A ironia não chega a ser riso, também não é sorriso, estando mais próxima do sorriso do que o riso. O riso, subjacente a alguns dos meus textos, é uma forma de ironia, manifestação pouco comum na tradição portuguesa. Quando se diz rir em português significa algo em que não me incluo de maneira nenhuma, embora possa rir com os amigos. Existem alguns sorrisos na minha obra, riso não.

Ana Hatherly

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Entender é sempre limitado.


Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo. Gênero não me pega mais. Além do mais, a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender é sempre limitado. As coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro


Clarice Lispector
...um pouco do muito.