domingo, 27 de dezembro de 2009

Eu quero.


... à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo.

Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio.

Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.

In Cemitério de Pianos

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Arrumar os amores :primeira regra da vida.


Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?

Inês Pedrosa
Mais Literatura Portuguesa porque toca a sensibilidade (a não ser as inevitáveis polêmicas provocadas por Saramago, mesmo assim imperdíveis).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um grande buraco negro que se chama depois...



"Devia existir um manual de instruções para acabar relações. A verdade é que sabemos sempre começá-las, agarramo-nos aos inícios com a sabedoria dos mágicos, operámos transformações milagrosas em nós próprios e no objecto do nosso amor, de repente tudo nos é fácil e grato, sentimo-nos com asas como albatrozes, nas nossas costas cresce uma capa encarnada e carregamos no peito o símbolo do Super Homem, tudo é óbvio e santo visto assim, "o mundo não é um mundo é um jardim", como diz Florbela Espanca.

Não há nada melhor do que começar uma relação. O novo é irresistível. Descobrem-se coincidências que vão desde o mesmo nome dado ao irmão imaginário até à mesma colecção de cromos. É a primeira vez outra vez em tudo. Descobrimos o outro em nós e nós no outro. Descobrimos que afinal gostamos de futebol e sabemos cozinhar e até uma visita ao Mosteiro de Alcobaça para ver o túmulo de Pedro e Inês de Castro é muito romântico, porque foram criaturas que morreram de amor.

No inicio de todos os inícios sentimo-nos tão estupidamente felizes que seríamos capazes de morrer a seguir, porque achamos que atingimos o ponto máximo possível da felicidade.O pior vem a seguir.

Como dizia o Picasso "bom mesmo é o início porque a seguir começa logo o fim". E quando o fim chega já é tarde demais para voltar atrás. É sempre tarde demais, porque isto do amor é mesmo uma coisa complicada, começa-se do nada, vive-se na ilusão que se tem tudo, mas o que fica quando o amor acaba é um nada ainda maior.

E o pior, o pior é que na primeira oportunidade repetem-se os mesmos erros à espera de resultados diferentes, o que é uma boa definição de demência. E quem se considere imune a tais disparates e nunca tenha passado por estas avarias sentimentais, que atire a primeira pedra.

O Miguel Sousa Tavares escreveu "primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que aparece onde antes estava a intimidade." E pronto, já está tudo estragado. Acaba-se a festa, o delírio, o fogo de artifício, o sabor da novidade e onde vamos parar? Ao vazio. Ao abismo. Ao grande buraco negro dessa coisa horrível e inevitável que se chama depois, depois de se apagar a chama.

É esta a condição humana, doa a quem doer.Ou então, a ironia da vida separa os amantes para sempre e o fim do amor é o início do mito do amor eterno. Pedro e Inês foram sepultados de frente um para o outro, para que se pudessem ver, caso regressassem ao mundo. Romeu e Julieta nunca mais se separaram no imaginário Ocidental. Dante viveu para sempre ao lado de Beatriz, a Penélope recuperou o seu guerreiro depois de 20 anos de espera.

O amor esse mistério que antecede a vida e sobrevive à morte, reina como um tirano por cima de todas as coisas, mas poucos são os que o conseguem agarrar. É mais difícil de alcançar do que o Olimpo, porque não está nem no céu nem na terra, paira como uma substância invisível, mais leve que o ar, mais profundo que toda a água dos oceanos. Talvez seja apenas uma invenção dos homens para fugir à morte. Ou talvez tenha outro nome na bioquímica. Mas não podemos viver sem ele e quando o perdemos achamos que nunca mais o vamos conseguir encontrar."



Margarida Rebelo Pinto in Jornal de Noticias

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Talvez...


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento..
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...


Pablo Neruda

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


"Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive..."

Padre António Vieira

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fronteiras são freios.


O conhecimento tem sido responsável pela "quebra" de fronteiras que o ser humano realiza,hoje.Pensar, pressupunha,outrora,desejar,querer,ansiar.Agora, significa realizar.Fácil acreditar que o mundo não tem limites para quem ousa e cria.

Um breve olhar através do tempo mostra-nos o homem pressionado por uma fronteira moral,vivendo uma realidade dúbia: o que ele pensava estava longe de ser uma realização.O medo,a incerteza, o julgamento social o atemorizavam e o deixavam à mercê de em comportamento tímido,até enrustido.Isso em nome da moral.Mas o que é essa moral que tanto constrange as pessoas?

Identificam-se como moral os valores intrinsecos e extrinsecos que regem a personalidade no contexto em que está inserida.E , por isso, o individuo moralmente equilibrado comporta-se de acordo com o esperado.Comportava-se...porque a globalização ,ao derrubar fronteiras físicas,o fez ainda no tocante às fronteiras morais. Pode-se perfeitamente ser um em um espaço,e outro, no mesmo momento, em diverso lugar.Isso é positivo? Negativo?

Até que ponto é preciso observar limites? Eles devem existir?

Devem, precisam existir sempre.Fronteiras são freios.Modo definitivo de estabelecer limites em quaisquer campos de ação, sejam eles físicos, morais, científicos, religiosos e os demais.

Quando o homem não mais obedecer a eles, o caos será seu começo e seu fim.