segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


"Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive..."

Padre António Vieira

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fronteiras são freios.


O conhecimento tem sido responsável pela "quebra" de fronteiras que o ser humano realiza,hoje.Pensar, pressupunha,outrora,desejar,querer,ansiar.Agora, significa realizar.Fácil acreditar que o mundo não tem limites para quem ousa e cria.

Um breve olhar através do tempo mostra-nos o homem pressionado por uma fronteira moral,vivendo uma realidade dúbia: o que ele pensava estava longe de ser uma realização.O medo,a incerteza, o julgamento social o atemorizavam e o deixavam à mercê de em comportamento tímido,até enrustido.Isso em nome da moral.Mas o que é essa moral que tanto constrange as pessoas?

Identificam-se como moral os valores intrinsecos e extrinsecos que regem a personalidade no contexto em que está inserida.E , por isso, o individuo moralmente equilibrado comporta-se de acordo com o esperado.Comportava-se...porque a globalização ,ao derrubar fronteiras físicas,o fez ainda no tocante às fronteiras morais. Pode-se perfeitamente ser um em um espaço,e outro, no mesmo momento, em diverso lugar.Isso é positivo? Negativo?

Até que ponto é preciso observar limites? Eles devem existir?

Devem, precisam existir sempre.Fronteiras são freios.Modo definitivo de estabelecer limites em quaisquer campos de ação, sejam eles físicos, morais, científicos, religiosos e os demais.

Quando o homem não mais obedecer a eles, o caos será seu começo e seu fim.

A amizade deve ser uma alegria gratuita .


Desejar a amizade é um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. É preciso recusá-la para se ser digno de a receber: ela é da categoria da graça («Meu Deus, afastai-vos de mim...»). É dessas coisas que são dadas por acréscimo. Toda a ilusão de amizade merece ser destruída.[…]

A amizade não se procura, não se imagina, não se deseja; exercita-se (é uma virtude).
[…]
A amizade não se deixa afastar da realidade, tal como o belo. E o milagre existe, simplesmente, no fato de que ela existe.


Simone Weil, 'A Gravidade e a Graça'

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cansaço.


O que há em mim é sobretudo cansaço - Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A sutileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas - Essas e o que falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada - Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, Cansaço...


(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Natal da minha infância.


As bolas vermelhas brilham faiscantes na imensa árvore artificial. O silêncio quebrado pelo rumor da minha memória.Ela me vem através de gosto e cheiro...o perfume do cipreste do Natal da minha infância. O gosto do bolo xadrez depois da Missa do Galo....

Estranho que tanto tempo se tenha passado. Uma vida. No entanto, aí está com a nitidez de algo que nunca vai se apagar.Os natais da minha infância eram feitos de dezenas de presépios que se multiplicavam em cores e luzes nas casas abertas de amigos.Presentes raros e parcos, presenças fartas ,doces e preciosas. E família, amigos,sonhos...tantos.

Na cama,desde cedo,vestido e sapatos novos que eu não me cansava de olhar.Tocá-los era puro prazer. Quanto disso eu percebia na época? Muito. Tenho certeza agora de que aquela inefável sensação de alegria existia real dentro de mim. E ficou para sempre intocada em algum lugar que não sei qual é.
O surpreendente é que a recobrei hoje , não sem muita nostalgia.Fiquei muito tempo mergulhada em um tempo que se foi ,mas ficou.

O perfume do cipreste e o gosto do bolo estão vivos, vivíssimos.Sinto- os com todos os meus sentidos em todas as suas nuances.
Eles se chamam SAUDADE.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Soneto de Natal.


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901
Machado de Assis...porque ele "cabe" em qualquer lugar e em todas as horas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Escrever é sangrar (2)



Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

(...)

Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado(...)


Caio Fernando Abreu
Perfeito.