sábado, 3 de outubro de 2009

"Um recado" que preciso entender...



Hoje recebi um inusitado presente ( adiantado) pelo dia do professor. Um envelopinho pardo trazia bem guardada uma...sementinha de ipê amarelo!
Não me lembro de haver recebido antes algo tão simbólico e tão bonito.

Voltei no tempo para me lembrar de que sempre tive uma atração irresistível por cores brilhantes e vivas, mas o amarelo , ah...minha alma sempre foi amarela!

Há quase 20 anos atrás, ao construir minha primeira ( e única) casa, plantei dois ipês amarelos no gramado das calçadas e esperei ansiosamente que me trouxessem flores, as quais vieram só dez anos depois.

A partir de então, esperar as floradas em agosto/setembro tornou-se ritual.E rezar para que os pardais não bicassem todos os botões...

Quando as flores vinham, minha cozinha resplandecia de amarelo, dourada, iluminada, feliz.! Aliás, nem havia como ser diferente com todo aquele brilho ,ficávamos contaminados por aquela exuberância e beleza. Uma dádiva, sem dúvida.

Quanto tempo passei mergulhada em manhãs perfumadas e silenciosas repletas daquele encanto!

Mas, a beleza é transitória e qualquer ventinho derrubava uma multidão de flores que coalhavam o corredor e o gramado.E que pena vê-las escurecer...Ficava, no entanto, a certeza de que viria outro ano e os meus ipês se guardariam até lá.
E voltariam pra mim, lindos e majestosos...

Porém,a vida se processa em ciclos. A casa foi vendida há três anos atrás. As lembranças guardadas por ela ali permaneceram, tristes e /ou alegres como em qualquer história. Ao fechar a porta da casa pela última vez não olhei para os meus ipês, porque não saberia como me despedir deles. Abandoná-los parecia uma traição.E era.

Nesses anos, sempre que vi, em qualquer lugar , tais árvores floridas, pensei nas “ minhas” flores, encantando outros olhos , outras pessoas... E senti dor e ciúme. O coração pesado, de chumbo .Ainda sinto.

Hoje , a sementinha me trouxe uma mensagem . Será que eu conseguirei ouvi-la? Guimarães Rosa diz só as pessoas disponíveis conseguem receber “ recados da natureza” e entender a magia da vida.Não sei se merecerei tanto, mas espero conseguir ouvi-lo.

Minha alma tem certeza de que nessa semente há um recado para mim. Tomara que eu tenha sensibilidade suficiente para entendê-lo...e coragem para tomar atitudes.

Gizelda/ transbordando de amarelo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

...



Tarde de primavera...Façam-se flores ( sem espinhos) no meu coração!

...um tempo de noite e de morte.



Para mim, tudo tinha parado. Mesmo que o dia nascesse, mesmo que as coisas vivas começassem lentamente a acordar. Para mim, tudo tinha parado. O dia podia nascer, os pássaros podiam cantar, que, para mim, o tempo tinha parado num tempo de noite e de morte.

Para mim, os pássaros não existiam, porque eu não acreditava nos pássaros a cantarem. Mas os corpos começavam a mexer-se. Os pássaros cantavam. Os dias nasciam. O céu brilhava. Eu sabia tudo aquilo em que não acreditava e estava ainda mais sozinho, ainda mais sozinho por isso.

Eu estava tão sozinho que a minha solidão, eu, tinha sido recortada com precisão do mundo. Os meus contornos eram exatos a isolarem-me do mundo.

Eu não queria existir. Eu não queria que o meu rosto fizesse parte das coisas que podem ver-se. Eu queria que os espelhos não me refletissem, que ninguém me ouvisse, que ninguém soubesse da minha voz ou se lembrasse do meu nome, do meu rosto, das minhas memórias. Eu queria não ser sequer algo que se esquece.

Lutava sozinho contra as manhãs.

José Luis Peixoto in Uma Casa na Escuridão

Voltando á sanidade mental... ( será????)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tsunami MORAL .EDUCAÇÃO À DERIVA.



HINO NACIONAL

Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!


Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado."

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!


Letra: Joaquim Osório Duque Estrada
Música: Francisco Manuel da Silva

Atualizado ortograficamente em conformidade com Lei nº 5.765 de 1971, e com
art.3º da Convenção Ortográfica celebrada entre Brasil e Portugal. em 29.12.1943.

Começando por mudar a letra do Hino...
Bem,sei que será uma surpresa esse post, porque não costumo enveredar por questões políticas e sociais, uma vez que não consigo deixar de me indignar e me expor muito. Mas, hoje, ao abrir o portal Terra na internet, às 7 da manhã, fui surpreendida pela manchete de cancelamento ( em cima da hora ) da prova do Enem POR FRAUDE. Senti uma vergonha avassaladora, senti-me cúmplice dessa sujeira.

Tenho vivido de perto a apreensão de jovens, cujo futuro começaria nessa prova, e que seriam cobaias dela, pois ainda é um experimento.Vá lá , é uma tentativa de mudança!

Mas, são cerca de 4,1 milhões de candidatos que realizariam o exame que , hoje, estarão atônitos, impotentes, frustrados, pois vão prolongar neles a agonia. Quem merece????

Meu Deus! Não consigo ficar calada sob pena de pactuar com MAIS UMA SUJEIRA! Será que ninguém percebe que Olimpíadas é acessório e Educação é essencial????

Temos que mudar o Hino Nacional, urgente :

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salvem-na! Salvem-na! enquanto é tempo.


Em tempo: É preciso "levantar-se do berço esplêndido" , mesmo porque quem "está deitado eternamente" já morreu!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Enquanto me lembrar estarei vivo.



A memória é a nossa escola de vida. É a nossa única verdadeira defesa contra a traição e o abandono. Tudo pode ser traído e abandonado menos a memória. É mais fiel que qualquer amigo, é mais longa que a própria vida é mais verdadeira do que qualquer verdade que temos como certa.

Não posso negar o que vi, o que cheirei, o que senti, o que amei. Não posso negar que fui feliz, se fecho os olhos e sinto outra vez todos os instantes felizes. Não não posso negar que atravessei rios contigo, que te ensinei o nome das estrelas, que ouvimos juntos os pássaros e o vento nas árvores, que caminhei pelas ruas de mãos dadas contigo..

Enquanto me lembrar estarei vivo, porque esse é o mais certo indício de vida. Eu estarei vivo e, vivendo, não deixarei morrer quem caminhou comigo, ao longo do caminho.

Miguel Sousa Tavares

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Amigos...




Nessa madrugada acordei sobressaltada com uma sensação estranha de que algo estava fora do lugar. Inquieta, sem conseguir dormir e controlar o caos de pensamentos fui levada a lembranças de pessoas com as quais convivo e convivi.E me veio a incrível solidão de sentir-me longe dos amigos, aqueles para com os quais não são necessárias palavras, um olhar é mais.

Com uma clareza contundente pude selecionar conhecidos, colegas e , poucos , raros amigos. Estes ,os que por mim passaram e passam deixando a si próprios, e por quem também me deixei,cuja ausência é a presença mais nítida de ombro, de identidade, de complemento de abraço. Amor em duas mãos, incondicional, dia e noite.

Outros, os primeiros, transitórios ,oportunistas presenças na conveniência, na deslavada altitude de usufruir sem se dar, de transitoriedade, de olhos baixos porque não há como tê-los altos, Afinal não foi através de um olhar que Bentinho se perdeu em Capitu?...

É para os amigos preciosos que escrevo, hoje, na certeza de que não preciso citar nomes : eles sabem o quê e quem são. Poucos e bons.
Minha alma ficou repleta e em paz.
Então...adormeci.



Esse post já esteve nesse blog em setembro de 2008. Mas, ao lê-lo, hoje, senti uma necessidade premente de repeti-lo. Saudades de amigos raros que escreveram minha história e de quem estou precisando agora.Só para um abraço.

Os deuses não nos protegem do medo.


Somos iguais aos animais, em que as mesmas coisas terríveis podem acontecer a eles e a nós. Mas somos diferentes deles porque eles só sofrem como se deve sofrer, isto é, quando o terrível acontece. E nós, tolos, sofremos sem que ele tenha acontecido. Sofremos imaginando o terrível. O medo é a presença do terrível-não-acontecido, se apossando das nossas vidas. Ele pode acontecer? Pode. Mas ainda não aconteceu e nem se sabe se acontecerá.

Curioso: nós, humanos, somos os únicos animais a ter prazer no medo. A colina suave não seduz o alpinista. Ele quer o perigo dos abismos, o calafrio das neves, a sensação de solidão. A terra firme, tão segura, tão sem medo, tão monótona! Mas é o mar sem fim que nos chama: “A solidez da terra, monótona, parece-nos fraca ilusão. Queremos a ilusão do grande mar, multiplicada em suas malhas de perigo...“ (Cecília Meireles).

A pomba, que por medo do gavião, se recusasse a sair do ninho, já se teria perdido no próprio ato de fugir do gavião. Porque o medo lhe teria roubado aquilo que de mais precioso existe num pássaro: o vôo. Quem, por medo do terrível, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama.

O medo não é uma perturbação psicológica. Ele é parte da nossa própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier. Esse é o sentido das palavras de Jesus: “Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á. Mas quem perder a sua vida, a encontrará.“ Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é ausência do medo. É viver, a despeito do medo.

Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...“ “Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas nenhum mal te sucederá...“ A vida me ensinou que esses consolos não são verdadeiros. Os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem de viver a despeito dele.

Rubem Alves