terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os deuses não nos protegem do medo.


Somos iguais aos animais, em que as mesmas coisas terríveis podem acontecer a eles e a nós. Mas somos diferentes deles porque eles só sofrem como se deve sofrer, isto é, quando o terrível acontece. E nós, tolos, sofremos sem que ele tenha acontecido. Sofremos imaginando o terrível. O medo é a presença do terrível-não-acontecido, se apossando das nossas vidas. Ele pode acontecer? Pode. Mas ainda não aconteceu e nem se sabe se acontecerá.

Curioso: nós, humanos, somos os únicos animais a ter prazer no medo. A colina suave não seduz o alpinista. Ele quer o perigo dos abismos, o calafrio das neves, a sensação de solidão. A terra firme, tão segura, tão sem medo, tão monótona! Mas é o mar sem fim que nos chama: “A solidez da terra, monótona, parece-nos fraca ilusão. Queremos a ilusão do grande mar, multiplicada em suas malhas de perigo...“ (Cecília Meireles).

A pomba, que por medo do gavião, se recusasse a sair do ninho, já se teria perdido no próprio ato de fugir do gavião. Porque o medo lhe teria roubado aquilo que de mais precioso existe num pássaro: o vôo. Quem, por medo do terrível, prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama.

O medo não é uma perturbação psicológica. Ele é parte da nossa própria alma. O que é decisivo é se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na própria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrerá, quando a morte vier. Mas só quando ela vier. Esse é o sentido das palavras de Jesus: “Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á. Mas quem perder a sua vida, a encontrará.“ Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é ausência do medo. É viver, a despeito do medo.

Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...“ “Mil cairão à tua direita, dez mil à tua esquerda, mas nenhum mal te sucederá...“ A vida me ensinou que esses consolos não são verdadeiros. Os deuses não nos protegem do medo. Eles nos convidam à coragem de viver a despeito dele.

Rubem Alves

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

e vai como veio.




vem sem aviso. em pequeninas doses. e vai como veio. talvez com um pouco menos de ruído.

e é só isto a felicidade. um sorriso a abrir o nevoeiro.




Maria José Quintela...porque menos é mais.

domingo, 27 de setembro de 2009

Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!




"Não tardou muito para que Fernão Gaivota voltasse a pairar no céu, sozinho, esfomeado, feliz, aprendendo. Revoltava-o saber que uma gaivota era uma presa fácil, por voar muito devagar.

O tema era a velocidade. E depois de uma semana de prática, conseguira aprender mais sobre velocidade do que a gaivota viva mais rápida.

Aprendeu que encurtando as asas, como as asas do falcão, poderia atingir em mergulho a velocidade fantástica de trezentos e vinte quilómetros por hora.

Isto aconteceu numa manhã, logo a seguir ao nascer do sol, Fernão Gaivota atravessou o Bando da Alimentação que perseguia um barco de pesca; como uma bala, riscando o céu a trezentos e vinte quilómetros por hora, num tremendo rugido de vento e penas. A Gaivota da Fortuna sorriu-lhe desta vez e ninguém foi ferido.

Radiante, pensava no bando, "Ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!"

Ao voltar à noite para o bando, Fernão foi chamado ao centro. As palavras do mais velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra.

Fernão Gaivota - disse o mais velho -, é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes... pela sua desastrada irresponsabilidade por violar a dignidade e tradição da família das gaivotas... não se pode esquecer, que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos.

Uma gaivota nunca contesta o Conselho do Bando, mas a voz de Fernão ergueu-se gritando:

Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres!

O bando mostrou-se impenetrável como a pedra. Fernão foi banido da sociedade das gaivotas, condenado para a vida solitária nos Penhascos Longínquos.

Fernão Gaivota passou o resto dos dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as esperava. Recusaram -se a abrir os olhos e a ver."

Richard Bach

sábado, 26 de setembro de 2009

Sou um ponto no horizonte...



Sou uma nascente de tanto te querer
Uma solidão no tempo perdida que corre forte.
Sou um pedaço de mim em novo desnorte
Que não se encontra,
Mal se vê.
Sou um manto de poesia fraca e velha
Um canteiro na terra pregado.
Sou um grito de novo chorado
Que não se vê,
Mal se encontra.
Sou um ponto no horizonte dos sonhos
Uma voz, ternura à deriva e tontura.
Sou uma canção que entre ti e mim ainda perdura
Mas não se encontra
e mal se vê.
Sou um rosto de desejo, de sorriso menino
Uma flor deitada sobre o teu leito.
Sou este embriagado vagabundo e desfeito
Que mal se encontra
E está cansado de se ver!


Pedro Branco ...porque a poesia transborda em seus textos, sempre.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Seus filhos não são seus.



Seus filhos não são seus.
Eles são os filhos e filhas do desejo da Vida por si mesma.
Eles vêm através de você mas não de você
e, embora possam lhe haver sido entregues, não lhe pertencem.
Você pode lhes dar seu amor, mas não seus pensamentos,
Pois eles têm os seus próprios.
Você pode abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois estas vivem na morada do amanhã, a qual você não pode visitar nem em sonhos.
Você pode lutar para tornar-se como eles, mas não tente transformá-los no que você é.
Pois a vida não anda para trás nem se prende ao passado.


Kahlil Gibran, O Profeta

Sábio e lindo, mas como é que se põe em prática?????...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Somos o rio.


Somos o tempo, somos a famosa
parábola de Heraclito, o Obscuro.
Somos a água, não diamante duro
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos esse rio
a olhar-se no rio. A sua imagem
muda na água do espelho entre as margens,
no rio que varia, fogo cego.
Somos o rio vão, predestinado
rumo ao seu mar. De fogo está cercado.
Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha moeda lesta.
E no entanto há algo que ainda resta
e no entanto ainda há algo que se queixa.


Jorge Luís Borges, in Os Conjurados

domingo, 20 de setembro de 2009





Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer.
Apesar de, se deve amar.
Apesar de, se deve morrer.

Inclusive muitas vezes é o próprio "apesar de" que nos empurra para a frente.
Foi o "apesar de" que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.


Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'

Sempre ela...é preciso mais?