sábado, 12 de setembro de 2009

...uma possibilidade de amor.




Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Caio Fernando Abreu
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sê vivo.




Vive o instante que passa.Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti.

Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica.E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. (...)

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente IV'

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tudo tem sua hora certa.




não se pode ficar no mesmo lugar para sempre. de braços arrumados ao longo do corpo. na pausa aparente de um tempo que não pousa. tudo tem a sua hora certa. desacertada pelo acerto do relógio. e entre a volta do ponteiro e a queda de uma estrela damos o braço ao tempo. a tempo de não morrer já.

Maria José Quintela.

(Lindooooo! quando o pouco diz muito...)

domingo, 6 de setembro de 2009

Eu fiz um sonho.



Passa-se com alma algo semelhante ao que acontece à água: flui.Hoje está um rio.Amanhã estará mar.A água toma a forma do recipiente.Dentro de uma garrafa parece uma garrafa. Porém, não é uma garrafa.Eulálio será sempre Eulálio, quer encarne ( em carne) quer em peixe.Vem-me à memória a imagem em branco e preto de Martim Luther King discursando à multidão:eu tive um sonho. Ele deveria ter dito antes : eu fiz um sonho.

Há alguma diferença, pensando bem, entre ter um sonho ou fazer um sonho.

José Eduardo Agualusa in " O vendedor de Passados"

sábado, 5 de setembro de 2009

Onde estará esse alguém?




Não quero alguém que morra de amor por mim.
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante para mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...

Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampado em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...
E não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ela é especial e importante para mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão...
Que o amor existe, que vale a pena se doar as amizades e as pessoas,
que a vida é bela sim,
que eu sempre dei o melhor de mim
... e que valeu a pena!!!

Mário Quintana

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sofremos por quê?



Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

Carlos Drumond de Andrade

( se não fosse pela beleza simples, pela sensibilidade inacreditável, pela harmonia das palavras , pela sutileza das idéias, poderíamos dizer que esse texto está aqui porque -simplesmente-foi escrito por Drummond... nada mais)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O livro.




Às vezes uma palavra é suficiente para despertar em nós reflexões às quais nunca recorreríamos em circunstancias habituais.Aconteceu comigo nessa semana.Na segunda-feira..

Presenteei, há meses , um amigo com o livro que me é essencial.Ao fazê-lo pretendi compartilhar com ele algo que me é muito precioso e que divido com pouca gente.

A obra -descobri–a em 1997 - passou a fazer parte do meu cotidiano , acalmar minha alma, levar-me a muitas indagações para as quais não tenho resposta e me provocar a pensar em muitas coisas, em especial na vida e na morte...Elegi-a no meio de centenas que me povoam e me encantam. A intenção era premiar.

No início da semana reencontrei meu amigo (?) pela primeira vez depois do acontecido e fui surpreendida quando ele se lembrou,agradeceu-me e mencionou o fato de que a obra era tensa, pesada, desconfortável. Talvez nem sejam essas as palavras, mas o sentido, estou certa, era sim.

Hoje é sábado, mas desde aquela hora há seis dias atrás com extrema insistência tenho pensado a respeito.Cada ser humano é um.Quantas vezes já ouvi ou disse isso? Como não percebi?...a verdade é que não percebi, envolta no significado que o livro tinha para mim.

Cegueira ? Egoísmo?...Acredito que nenhum dos dois, embora não consiga precisar bem o que aconteceu.

Sinto-me,desde então, incomodada, querendo reparar minha falta . Passei bastante tempo procurando um exemplar que tivesse qualidades,leveza e me redimisse do ato. Porém estou insegura : não acho discernimento para escolher.

Há tantos...e ao mesmo tempo, nenhum.Como saber o que pode preencher prazerosamente a alma de alguém que pensamos conhecer e não conhecemos o suficiente?

Creio que a comparação vai parecer esdrúxula, mas livro é como perfume: o que é delicioso para um pode ser profundamente enjoativo para outro.Espero me precaver da próxima vez...

Não em relação a livros, mas- quem sabe?- a amigos.


Encontrado , por acaso, na minha agenda 2007 , 14 de abril.