quarta-feira, 12 de agosto de 2009

...nenhum Deus, eu quero estar só.




Não, não, nenhum Deus, eu quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento.

Eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro.

Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante; sempre fundido, porque então viverei, só então serei maior que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas.

Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a compreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte sem medo de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Perto do coração selvagem.

Clarice Lispector , essencial.

terça-feira, 11 de agosto de 2009




há silêncios que me protegem e silêncios que me atormentam. outros há que me crescem rente à pele. tão desmedidamente que se ouvem. como rios fecundos em noites brancas. afagos insaciados.
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instalo-me neste silêncio navegável. íntimo e acetinado. onde não existem sombras nem margens nem estradas. só a respiração a entrecortar a luz. estendo então o mapa de todos os lugares sentidos e sem nome e deposito o coração ao largo. para afastar a influência do embalo que o embarca em falsos portos.
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e assim me solto como um barco. sem a rede protectora das palavras. o silêncio ao leme a falar como um oráculo. e eu no vício insano de decifrar sinais.


Gizelda , precisando muito de um texto como esse de Maria José Quintella.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sou o minuto e a eternidade.




Não me compreendo nem compreendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inútil e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um náufrago a um pedaço de tábua.Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dor; chamo vida e morte a este cataclismo. É a imensidade e um nada que me absorve; é uma queda imensa e infinita, onde disponho de um único momento.

Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria alma. Faço parte de uma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dor ligada à minha dor, consciência ligada à minha consciência. Estou até convencido que nenhum destes seres existe. Este fel é o meu fel, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões de dor – e mais nada.

Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho, desmedido que há-de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé.

A alma que vai desesperada à procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos. O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma neste turbilhão infinito e perpétuo, neste movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A do gera dor num desespero sem limites.

Eu não sou nada. Sou o minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto – nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.O sonho completo é o universo realizado.Cada vez mais fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos de uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos de uma coisa imensa e cega – de uma tempestade viva.

Não só a sensibilidade é universal – a inteligência é exterior e universal.O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração. Toda a teoria mecânica do universo é absurda. Daqui a alguns anos todos os sistemas serão ridículos – até o sistema planetário.

Raul Brandão (1867-1930) -excerto de Húmus

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A poesia está no ar...



Na esquina do meu quarteirão, há uma árvore "majestosa" à beira da calçada.Altíssima, imponente, espargindo galhos sobre velhas e desbotadas casas que teimam em permanecer.

Há uns dez dias- mais ou menos-um delicioso bailado de folhas grandes e amareladas preencheu aquele canto tão cor de cinza.Chuva de folhas mortas. Aos borbotões.
Poético, triste e lindo.

Vivi essa queda inteira com admiração e sobressalto.(Minha alma foi ficando cada vez mais amarela... mais do que já é!)E o chão foi se cobrindo de folhas envelhecidas, um tapete espesso, por onde todos passam, pisam. Ninguém se importa. Ou vê.

Nessa manhã, porém, quando uma imensa folha-bailarina planou em meu parabrisa, olhei para o alto e...Surpresa! Poucas estão lá ainda, mas os galhos...ah! estes! estão verdinhos de folhas tenras e tímidas.Nascem. Abrem-se sutilmente para o azul.

É a vida,árvore, metáfora perfeita: o velho descartado, eis o jovem.

Cíclico ad eternum.

Pensei em Cecília Meirelles: "Tudo está certo, no seu lugar,cumprindo seu destino"
É apenas questão de olhar e ver.
Sentir...
descobrir um jeito mais simples de ser feliz!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ah, como é fatigante ter razão.!





"E eis que, enfim, cerro a porta sobre a minha discussão. É bom estar só. Depois de todo o esforço para estar prevenido, para entender, para me pensar, para ser “coerente” (tão difícil...), para organizar as razões como quem entra em combate, depois de toda a fúria e alvoroço com que enfrentei a contradita dos outros, a minha publicidade e o meu ridículo - é bom regressar e estar só.
Ouço a velha voz que me chama essa presença antiga que me espera - presença anterior a todo o meu pensar e que assim jamais discute comigo. Ah, como é fatigante ter razão.»


Vergílio Ferreira in, "Do Mundo Original"

segunda-feira, 3 de agosto de 2009




Sei-me inteira em cada uma das partes que me desligam e representam junto dos outros. Conheço cada nó desse misterioso fio que desemboca em teia de espelhos. Sei de cor a aspereza do tímido rebordo dos traços que me suspendem os gestos. Conheço os trajectos subitamente interrompidos por pontes que ruíram. Já percorri o itinerário mais longo entre dois pontos e nem por isso me atrasei. Estou onde devo estar. Não guardo memória dos equívocos. Assim poupo ao pensamento o desgaste dos significados inúteis. Tenho olhos rotativos que alcançam com antecedência a chegada dos temporais. Aceito-os sem surpresa e deixo-os ir sem despedidas. Arrumo a lição de cada instante no manual de sobrevivência que hospedo na pele. Interessa-me sobretudo a hora matinal do silêncio, quando se declara a limpidez da percepção.

Maria José Quintela

domingo, 2 de agosto de 2009

Príncipes e sapos.



Sonhar com príncipes é parte do universo feminino desde sempre.

Há na fantasia os que andam em cavalos brancos e salvam as princesas, ou mocinhas pobres, e as transformam em rainhas.Também há os que lutam com dragões ferozes e os vencem e os que, sapos, por incrível que pareça ,um dia viram príncipes perfeitos.

O triste é constatar a fabula às avessas : o tão esperado príncipe nunca passou mesmo de um reles sapo! Mas...não se enxerga.

Não há, no entanto, a menor chance de transformação...

Mensagem cifrada para um determinado sapo!...que continua pensando que é príncipe.

Sempre é tempo de descer do pedestal.

Quantos já conviveram com pessoas assim !