terça-feira, 11 de agosto de 2009




há silêncios que me protegem e silêncios que me atormentam. outros há que me crescem rente à pele. tão desmedidamente que se ouvem. como rios fecundos em noites brancas. afagos insaciados.
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instalo-me neste silêncio navegável. íntimo e acetinado. onde não existem sombras nem margens nem estradas. só a respiração a entrecortar a luz. estendo então o mapa de todos os lugares sentidos e sem nome e deposito o coração ao largo. para afastar a influência do embalo que o embarca em falsos portos.
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e assim me solto como um barco. sem a rede protectora das palavras. o silêncio ao leme a falar como um oráculo. e eu no vício insano de decifrar sinais.


Gizelda , precisando muito de um texto como esse de Maria José Quintella.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sou o minuto e a eternidade.




Não me compreendo nem compreendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inútil e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um náufrago a um pedaço de tábua.Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dor; chamo vida e morte a este cataclismo. É a imensidade e um nada que me absorve; é uma queda imensa e infinita, onde disponho de um único momento.

Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria alma. Faço parte de uma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dor ligada à minha dor, consciência ligada à minha consciência. Estou até convencido que nenhum destes seres existe. Este fel é o meu fel, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões de dor – e mais nada.

Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho, desmedido que há-de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé.

A alma que vai desesperada à procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos. O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma neste turbilhão infinito e perpétuo, neste movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A do gera dor num desespero sem limites.

Eu não sou nada. Sou o minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto – nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.O sonho completo é o universo realizado.Cada vez mais fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos de uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos de uma coisa imensa e cega – de uma tempestade viva.

Não só a sensibilidade é universal – a inteligência é exterior e universal.O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração. Toda a teoria mecânica do universo é absurda. Daqui a alguns anos todos os sistemas serão ridículos – até o sistema planetário.

Raul Brandão (1867-1930) -excerto de Húmus

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A poesia está no ar...



Na esquina do meu quarteirão, há uma árvore "majestosa" à beira da calçada.Altíssima, imponente, espargindo galhos sobre velhas e desbotadas casas que teimam em permanecer.

Há uns dez dias- mais ou menos-um delicioso bailado de folhas grandes e amareladas preencheu aquele canto tão cor de cinza.Chuva de folhas mortas. Aos borbotões.
Poético, triste e lindo.

Vivi essa queda inteira com admiração e sobressalto.(Minha alma foi ficando cada vez mais amarela... mais do que já é!)E o chão foi se cobrindo de folhas envelhecidas, um tapete espesso, por onde todos passam, pisam. Ninguém se importa. Ou vê.

Nessa manhã, porém, quando uma imensa folha-bailarina planou em meu parabrisa, olhei para o alto e...Surpresa! Poucas estão lá ainda, mas os galhos...ah! estes! estão verdinhos de folhas tenras e tímidas.Nascem. Abrem-se sutilmente para o azul.

É a vida,árvore, metáfora perfeita: o velho descartado, eis o jovem.

Cíclico ad eternum.

Pensei em Cecília Meirelles: "Tudo está certo, no seu lugar,cumprindo seu destino"
É apenas questão de olhar e ver.
Sentir...
descobrir um jeito mais simples de ser feliz!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ah, como é fatigante ter razão.!





"E eis que, enfim, cerro a porta sobre a minha discussão. É bom estar só. Depois de todo o esforço para estar prevenido, para entender, para me pensar, para ser “coerente” (tão difícil...), para organizar as razões como quem entra em combate, depois de toda a fúria e alvoroço com que enfrentei a contradita dos outros, a minha publicidade e o meu ridículo - é bom regressar e estar só.
Ouço a velha voz que me chama essa presença antiga que me espera - presença anterior a todo o meu pensar e que assim jamais discute comigo. Ah, como é fatigante ter razão.»


Vergílio Ferreira in, "Do Mundo Original"

segunda-feira, 3 de agosto de 2009




Sei-me inteira em cada uma das partes que me desligam e representam junto dos outros. Conheço cada nó desse misterioso fio que desemboca em teia de espelhos. Sei de cor a aspereza do tímido rebordo dos traços que me suspendem os gestos. Conheço os trajectos subitamente interrompidos por pontes que ruíram. Já percorri o itinerário mais longo entre dois pontos e nem por isso me atrasei. Estou onde devo estar. Não guardo memória dos equívocos. Assim poupo ao pensamento o desgaste dos significados inúteis. Tenho olhos rotativos que alcançam com antecedência a chegada dos temporais. Aceito-os sem surpresa e deixo-os ir sem despedidas. Arrumo a lição de cada instante no manual de sobrevivência que hospedo na pele. Interessa-me sobretudo a hora matinal do silêncio, quando se declara a limpidez da percepção.

Maria José Quintela

domingo, 2 de agosto de 2009

Príncipes e sapos.



Sonhar com príncipes é parte do universo feminino desde sempre.

Há na fantasia os que andam em cavalos brancos e salvam as princesas, ou mocinhas pobres, e as transformam em rainhas.Também há os que lutam com dragões ferozes e os vencem e os que, sapos, por incrível que pareça ,um dia viram príncipes perfeitos.

O triste é constatar a fabula às avessas : o tão esperado príncipe nunca passou mesmo de um reles sapo! Mas...não se enxerga.

Não há, no entanto, a menor chance de transformação...

Mensagem cifrada para um determinado sapo!...que continua pensando que é príncipe.

Sempre é tempo de descer do pedestal.

Quantos já conviveram com pessoas assim !

sábado, 1 de agosto de 2009

Sou Maria de Magdala e amei.


Um capítulo para o “Evangelho”
By José Saramago

De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: “A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?” Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: “Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas”, e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: “Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá”. E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: “Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti”, e ele respondeu: “Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos”. Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minha entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: “Ajuda-me”. Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: “Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo”, e ele respondeu: “Sei”, “Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo”, disse eu, e ele respondeu: “Não sei nada”, e eu insisti: “Que sou prostituta”, “Isso sei”, “Que me deito com homens por dinheiro”, “Sim”, “Então sabes tudo de mim” e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: “Sei só isso”. Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: “Sei só isso”. Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer.

This entry was posted on Julho 24, 2009 at 12:01 am and is filed under O Caderno de Saramago

Quando eu leio um texto como esse , sinto-me alimentada por muito tempo.Lindo!
O evangelho segundo Jesus Cristo ( imperdível...)
(os grifos são nossos)