sexta-feira, 31 de julho de 2009

Não quero me acostumar.Não devo.



Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

Marina Colassanti

Definitivamente, esse texto me faz refletir muito.É triste a gente se acostumar...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Inquietação.



Há alguns dias ( ou seriam meses?...) tenho estado silenciosa. Desencantada?Caustica? Crítica? Talvez, esse silêncio tenha duas faces e me faça enxergar mais do que quero ver.Não sei...

Olho à minha volta e não gosto do que me circunda, nem do que sinto.Fazer parte da superficialidade com que se estabelecem as relações pessoais próximas e distantes está me deixando fragilizada. Há algum tempo estou me sentindo inadequada sem conseguir descobrir em relação a quê.Não consigo existir assim.Preciso de profundidade.De pé no chão. De base.

Sinto enorme falta de olhos nos olhos, de emoção do abraço apertado, de sorriso prazeroso de encontros e reencontros, de amenidade gostosa do bem-querer descompromissado
e gratuito saboreado ao largo de uma xícara de café, de camaradagem profissional. Falta de simplesmente me deixar ser e entrar no ritmo da vida.

Onde estão a verdade, o afeto, a lealdade, as alegrias puras de ser o que se é, sem cobranças , sem parâmetros de comparação e sem culpas?

Em um cotidiano sem tréguas, feroz e competitivo, o mundo caminha por uma trilha onde sucesso é sinônimo de prioridades materiais e prestígio público.Uma indizível solidão salta dos olhos das pessoas que já não se fitam , nem se amam. Não se importam...afinal poder tem sido melhor do que ser.

Ter consciência disso , fazer parte disso , é, como diria Clarice Lispector,“uma lucidez perigosa”.O que fazer com essa certeza?

Definitivamente não quero isso para mim...Talvez me faltem - ainda- coragem e ousadia para quebrar o círculo e ser sozinha mesmo, porque é assim que vou estar.Mas, então,pode ser que eu encontre a mim mesma para me fazer companhia!

sábado, 25 de julho de 2009

Nossas almas estão ligadas.




"A razão porque dói tanto separarmos-nos é porque as nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham estado e sempre o fiquem. Talvez tenhamos vivido milhares de vidas antes desta, e em cada uma delas nos tenhamos reencontrado. E talvez que em cada uma tenhamos sido separados pelos mesmos motivos. Isto significa que esta despedida é, ao mesmo tempo, um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio ao que virá.

Quando olho para ti vejo a tua beleza e graça, e sei que cresceram mais fortes com cada vida que viveste. E sei que gastei todas as vidas antes desta à tua procura. Não de alguém como tu, mas de ti, porque a tua alma e a minha têm que andar sempre juntas. E assim, por uma razão que nenhum de nós entende, fomos obrigados a dizer-nos adeus.

Adoraria dizer-te que tudo correrá bem para nós, e prometo fazer tudo o que puder para garantir que assim será, mas se nunca nos voltarmos a encontrar outra vez, e isto for verdadeiramente um adeus, sei que nos veremos, ainda noutra vida. Iremos encontrar-nos de novo, e talvez as estrelas tenham mudado, e nós não apenas nos amemos nesse tempo, mas por todos os tempos que tivemos antes."


Nicholas Sparks / "Diário da nossa Paixão"

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O universo renasce a cada manhã...



Cada dia é um universo novo, Fatma, dizia-me ele. Cada manhã.O universo renasce a cada manhã, tal como nós, e isso desperta em mim tanto entusiasmo que nalgumas manhãs acordo antes de raiar o dia, e sei que o sol vai nascer, e que tudo será novo, e que também eu me vou renovar, juntamente com tudo o que se renova, e que poderei ver, ler e aprender coisas que ignoro, e que depois de as ter apreendido poderei de novo rever tudo o que sei, e então a minha emoção é tanta, Fatma, que tenho vontade de me levantar imediatamente, de correr... quero ir de imediato.... sem perder tempo, ... por que razão tu não conheces esse sentimento, Fatma, porque não dizes nada, em que pensas? “

“... é preciso observar tudo, reparar em tudo ... e as capacidades do nosso cérebro têm de ser desenvolvidas, senão ficamos iguais aos outros, aos que passam o tempo a apodrecer nos cafés, como carneiros, infelizmente...”


Excerto “A Casa do Silêncio” by Orhan Pamuk:

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Neruda...imperdível!



(...)
Mais longe, já perto das fronteiras que me afastariam por muitos anos da minha pátria, chegamos à noite às últimas gargantas das montanhas. Subitamente, vimos urna luz acesa que era indício certo de habitação humana e, quando nos aproximamos, encontramos umas construções derruídas, uns galpões miseráveis que pareciam vazios. Entramos num deles e vimos, ao clarão do lume, grandes troncos acesos no centro da habitação, corpos de árvores gigantes que ali ardiam de dia e de noite e que deixavam sair pelas fendas do teto uma fumaça que flutuava no meio das trevas como um profundo véu azul. Vimos montões de queijos acumulados por aqueles que os coalharam naquelas alturas. Perto do fogo, agrupados como sacos, jaziam alguns homens. Distinguimos no silêncio as cordas de um violão e as palavras de uma canção que, nascendo das brasas e da escuridão, nos trazia a primeira voz humana que tínhamos encontra do pelo caminho. Era uma canção de amor e de distância, um lamento de amor ede saudade dirigido à primavera longínqua, às cidades de onde vínhamos, à infinita extensão da vida. Eles ignoravam quem nós éramos, eles nada sabiam do fugitivo, eles não conheciam a minha poesia nem meu nome. Ou o conheciam, nos conheciam? O fato real foi que junto àquele fogo cantamos e comemos, e depois caminhamos dentro da escuridão até uns quartos elementais. Através deles passava uma corrente termal, água vulcânica onde nos submergimos, calor que se desprendia das cordilheiras e que nos acolheu no seu seio.

Chapinhamos com gozo, penetrando naquela água, limpando o peso da imensa cavalgada. Sentimo-nos frescos, renascidos, batizados, quando ao amanhecer empreendemos os últimos quilômetros da jornada que separar-me-iam daquele eclipse da minha pátria. Afastamo-nos cantando sobre as nossas cavalgaduras, repletos de um ar novo, de um hábito que nos empurrava para o grande caminho do mundo que estava me esperando. Quando quisemos dar (recordo vivamente este fato) aos montanheses algumas moedas de recompensa pelas can ções, pelos alimentos, pelas águas termais, pelo teto e pelos lei tos, isto é,pelo inesperado amparo que encontramos, eles rejeitaram o nosso oferecimento sem um gesto. Eles tinham nos servido e nada mais. E nesse nada mais,nesse silencioso nada mais havia muitas coisas subentendidas, talvez o reconhecimento, talvez os próprios sonhos.
(...)


Excerto do discurso de Neruda (em 1971 ) ao receber o Nobel de Literatura.
(Relato de seu exílio na cordilheira dos Andes)
http://www.lpm-editores.com.br/v3/artigosnoticias/user_exibir.asp?ID=516073&Showback=ON /Texto integral.

domingo, 19 de julho de 2009





“Quantas pessoas teriam começado a amar-se, se se tivessem visto primeiro como nos vemos ao fim de muitos anos? Mas quantas também se poderiam separar, se se voltassem a ver como se viram pela primeira vez?”

O Amor,de Camille Laurens

sábado, 18 de julho de 2009

A inevitável pergunta : por que eu?




Em 1992 um tumor de mama me visitou.Era insignificante no tamanho, mas poderoso no mal que trazia. Foi como uma noite de tempestade infernal e eu , sozinha, ao relento.Não era chuva de verão. Durou intermináveis anos da minha vida.O ritual diário era o mesmo a que se submetem , cotidianamente ,milhares de pessoas acometidas por essa doença.Doloroso e angustiante.Sem chão.

Durante dois anos lutei bravamente para não sucumbir. Não era dor. Era medo.A radioterapia me colocava em uma sala cinza e feia, onde um monstruoso aparelho, todos os dias, aproximava-se de mim, atada a uma maca. E aos sábados, fizesse sol ou chuva, o laboratório me esperava para um implacável exame de plaquetas.Essas manhã eram um mar de solidão...

Aqui começou uma história...

Sempre que lá chegava , era recebida solicitamente, as pessoas sorriam e se apressavam em me atender. E eu me regozijava por- pelo menos- ter escolhido um laboratório tão prestativo e tão humano.Jamais imaginei que, na verdade, uma força divina me protegia porque um equívoco se formara.

A fluidez do tempo, no entanto, foi me dando conta de que estava em lento processo de cura.Aos poucos a vida parecia ter mais brilho.

Então,em uma rua inusitada onde eu nunca costumava ir, encontrei, casualmente, um amigo que não via há muito ,e ele me disse que sua esposa era assistida por uma ginecologista, baixinha e risonha, que se parecia comigo e ...acreditem, chamava-se Gizelda Nogueira!Homônimos são comuns, mas raramente cruzamos com eles!.Fiquei curiosa...

Aquilo me deixou inquieta e não sosseguei enquanto não marquei uma consulta na Clínica Lane –era 1997. Quando me vi diante da outra Gizelda, e conversamos ,entendi que era alguma coisa maior. Ela também estava saindo de um câncer de mama e havíamos sido operadas pelo mesmo cirurgião...

Confesso que fiquei aturdida, embora o seu sorriso cálido não dissesse que ela se surpreendera tanto quanto eu.Fui-me embora e me esqueci do fato, que atribui a uma simples coincidência.Será que existe ???Saramago afirma que não.

Em 2002, passando aleatoriamente as folhas de um jornal de Campinas, vi meu nome impresso em uma página fúnebre. A princípio fiquei chocada, mas aos poucos compreendi que era ela: médica conceituada da Unicamp ( eis aí o porquê dos sorrisos no laboratório...eu era confundida com ela! Era o tal equívoco.)

Perguntei-me inúmeras vezes : por que ela e não eu? Estávamos na mesma estrada, o destino era semelhante, por que só a mim coubera mais tempo? Nunca houve resposta.Ou se houve não a percebi.

Recentemente, porém, ao fazer uma pesquisa,na WEB, deparei-me com uma homenagem póstuma a ela . De novo incomodada , li sua biografia : nascemos as duas no mesmo dia, no mesmo mês- 12 de fevereiro , ela em 1943 , eu em 1944...
Inacreditável. E mais : nasceu em Batatais, bem pertinho de mim, em Sales Oliveira ( pouco mais de 30 Km)Fomos vizinhas...

Fiquei absorta um longo tempo. E continuo me questionando. Seríamos parecidas em algo mais? Como pudemos estar tão próximas em tantos dados sociais, sem que nos conhecêssemos como pessoas, seres humanos, almas?
Sei que há milhares de pessoas homônimas por esse mundo afora,mas nome, sobrenome, data de nascimento, a mesma doença, o mesmo médico...ela morta ,eu viva!?

Falta alguma coisa nessa história: por que eu ?...