quarta-feira, 10 de junho de 2009

Bolhas de sabão?




"A felicidade não está no que acontece, mas no que acontece em nós desse acontecer. A felicidade tem que ver com o que nos falta ou não na vida que nos calhou. Devo dizer-te que me não falta nada, quase nada."

Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"

terça-feira, 9 de junho de 2009



"...só consegues tirar alguma coisa dos livros se fores capaz de pôr algo de teu no que estás a ler. Quer dizer, só se te entregares à leitura como a um duelo, como quem se mostra disposto a ferir e a ser ferido, a polemicar, a convencer e ser convencido, e, depois, enriquecido com o que tirou dos livros, disso se serve para construir qualquer coisa na vida ou no trabalho..."

Sándor Márai, in "A mulher certa"

sábado, 6 de junho de 2009

Cada árvore é um ser para ser em nós




Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses



António Ramos Rosa

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Mais Clarice.





É dificil perder-se.É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo"


Clarice é outono, inverno, primavera, verão.

Clarice Lispector.





Eu não tenho enredo. SOU INOPINADAMENTE FRAGMENTÁRIA. Sou aos poucos. MINHA HISTÓRIA É VIVER. E eu só sei viver as coisas quando já as vivi. Não sei viver, só sei lembrar-me."


O calor da gloriosa Clarice na manhã gelada ouro-luz.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

aPeNaS.




A solidão que me deixasteTraz-me a vertigem de todas as falésiasGrita-me os silêncios das memóriasOs caminhos de todos os sonhosE não descanso...A minha voz é um moribundo rouco à procura de uma luz.E eu, apenas eu, sempre eu, fico-me em mim...


Mais uma vez, Pedro Branco.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Miura (excerto)



Gritos da multidão.
Que papel ia representar? Que se pedia ao seu ódio?
Hesitante, um tipo magro, doirado,entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas para se atrever assim a transpor a barreira?(...)
Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha...(...)
Avançou...Deu, como sempre na miragem enganadora.Iludido, outra vez. Parou. Não acabaria aquele martírio?(...)
Quando chegaria ao fim semelhante tormento?(...)
Quê! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio de sua humilhação??! Os homens tinham dessas generosidades?!(...)
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou a lâmina por inteira. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.


És, pois,dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia.Isso não é comigo,porque nenhuma árvore explica seus frutos, embora goste que lhos comam.
( Miguel Torga -Bichos )