terça-feira, 12 de agosto de 2008

Amor de Longo Alcance



Durante sete anos , separados pelo destino, amaram-se a distância. Sem que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam. Bússola de
longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente, redesenhava os traços apagados pelo tempo.

Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, num praça se encontraram. Juntos, podiam agora viver a vida com que sempre haviam sonhado.Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era
insuperável.

Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados, apaixonadamente desejando-se. E, entre risos e lágrimas, despediram-se, indo morar em cidades distantes.

Marina Colasanti

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

...



estamos sós entre a memória da infância e a estação do esquecimento. como se entrássemos a meio da viagem. sem ninguém nos perguntar o destino.

medimos o tamanho da vida pelo consumo do tempo. e nem por isso suspendemos a respiração.

no instante de um pulsar uma ave bate as asas. uma árvore tomba fulminada. o corpo apaga-se como uma vela. e isto é tudo.

nada sabemos do sono que nos destina o relógio alojado no peito. nem do destino reservado às cinzas.

Maria José Quintela

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Eu.



Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito?Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado?
Sem dúvida...
Tenho um presente?
Sem dúvida...
Terei um futuro?
Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

[Alvaro de Campos]

sexta-feira, 4 de julho de 2008

...



O prazer que tu esperas varia na razão inversa do tempo de o esperares. E da inquietação também. Porque quanto mais esperas e te inquietas, menos prazer ele é. Espera-o no infinito para te não inquietares. E que ele seja depois o prazer que for. Mas o contrário também é verdadeiro.

Vergílio Ferreira
in, «Pensar»

domingo, 29 de junho de 2008

Vou, sou, nao sei bem...



Cada peso da palavra me magoa.Rompe-me os silêncios por entre as memórias e as viagens.Tudo é rouquidão, cansaço, inquietação que atordoa os secretos trilhos de todas as passagens
Vou, sou, não sei bem.
Caio, grito, talvez demais.Choro, sonho, tudo tem os pedaços de terra por onde vais.
Tudo é fogo, ardente caminhar.
Vertigem, retalhos, suor em sargaço.Que de tanto eu ser rio e ser mar, morro, renasço em tudo o que faço.

Lindo. (Pedro Branco 6/27/2008 )

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Aninha e suas pedras



Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina (Outubro, 1981)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Há dias...



“Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa. Eu estava num desses dias quando afastei a cortina e olhei pela janela a tarde que se ofuscara de repente, com pressa de se evadir da atmosfera enfastiada e, sobretudo, de um cenário sem alegria…”. (…)

“Mas em fechando a cortina tudo isso desaparecia: eis-me de novo isolado no gabinete fofo, de paredes que, a partir de certo momento, me davam a sensação irrespirável de uma espessura acolchoada onde tudo ficava retido: a fadiga, o silêncio…"


Fernando Namora - Retalhos da Vida de Um Médico