domingo, 27 de abril de 2008

Descobrindo-se...



(...) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.

Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio.

Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco.

Gabriel García Marquez, in 'Memória das Minhas Putas Tristes'

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Um Paradoxo.



Há uma grande diferença entre viver com alguém e viver em alguém. Pessoas há em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E há os casos inversos. Só uma extrema pureza do amor e da amizade está em condições de juntar as duas coisas.

O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.

Quando duas pessoas estão inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que estão ambas enganadas.

Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sem Mim.



Precipito-me em mim sem palavras, sem tempo. Caio num buraco escuro sem respiração. Abro os olhos sem forças. Fecho as mãos geladas. O meu corpo não pede nada. Silêncio talvez. Quietude. Sentir que os dias vão passando sem se perderem. Desperdício? Precipício! Vagueio pelos sons e aromas à minha volta em vertigem permanente. Imune. Incolor. Intransparente. Vazio. Um estado lacrimejante demasiadamente doloroso para mim onde os rios secam. Preciso de um beijo. Um abraço. O ar que respiro está poluído. Asfixia-me e penetra-me nos sonhos inertes. Quero a minha respiração. Nada que tenha em mim. Que de mim tudo se sente feio e sem sorrisos. Vou correr na praia. Gritar na praia. Saltar na praia. Deixar-me levar em cada grão de areia ou onda e talvez voltar. A mim...

Pedro Branco in "Das palavras que nos unem"

sábado, 5 de abril de 2008

Renascendo....




Terminei há pouco de ler “ Sagarana “ pela sétima ou oitava vez, acho. Não importa. O que realmente importa é que estou impregnada de Guimarães Rosa e , toda vez que isso acontece, sinto-me renascer...

È como se um mundo encoberto se descortinasse e me mostrasse caminhos, atalhos, vidas possíveis que ainda não vivi, possibilidades...

Mal sei como me expressar , só sei que é uma enormidade.
É como se uma onda gigantesca se avolumasse dentro de mim...

... isso é , no mínimo, maravilhoso!

quarta-feira, 26 de março de 2008

A inocência do amor.



Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afeto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.

Fernando Namora, in 'Jornal sem Data'

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sonho criado...




(…)

Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.

(…)

Livro do Desassossego – Fernando Pessoa