domingo, 9 de março de 2008

As Palavras.



Se escrevo não é para procurar a minha voz
a minha voz está em toda a parte embora não a ouça
É sempre precisa uma palavra como quem acende uma lâmpada
mesmo que seja apenas para iluminar uma página branca

Talvez só o leitor descubra a terra das palavras
e a voz que não é a minha como a voz do outro
Só ele talvez sinta a ferida que em mim não dói
porque escrever é sempre ir além do que se sente ou não

Não escrevo para ascender ou mergulhar no fundo
mas para evitar uma queda ou atolar-me num charco
Se o mundo é composto de apelos sufocados e vertiginosas linhas
quando o escutamos nada mais ouvimos do que o rumor da ausência
e não sabemos se ela é a dimensão do silêncio
ou a lentidão alheia do deserto


António Ramos Rosa

quinta-feira, 6 de março de 2008

O mar,o cacto,o sol, os pombos.



"...Agarra-te ao teu fiozinho de esperança, experimenta. Começa a preparar a mão, coisa que contigo leva tempo. Tenta que aquilo que existe em qualquer parte tua caminhe na direção certa onde as palavras te esperam, adormecidas. Acorda-as devagarinho, não escutes os passos da insônia, tac, tac, tac, no corredor. Tens 10 anos, 20 anos, tens todas as idades ao mesmo tempo, estás cheio de medo mas começa. O mar, o cacto, o sol, os pombos."



[Lobo Antunes -Agora que já pouco te falta]

quarta-feira, 5 de março de 2008

...




Rasgo todos os dias a minha alma em busca das respostas.
Das perguntas que me perseguem em direcção ao futuro.
Umas vezes canso-me e desgasto-me, ficando deitado nas memórias.
Outras avanço em direção ao passo decidido e de mão dada.
A Revolução começa dentro.
Tão dentro que às vezes não se vê.
Ainda bem que me abriste este desassossego e
esta impaciência mais um pouco com este aroma.


Pedro Branco in " Das palavras que nos unem"(blogspot)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma questão comportamental?



Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.

É assim o homem, caro senhor, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espetáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer? é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.

É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!

Albert Camus, in 'A Queda'

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Entre a vida e os livros...



" A realidade é dolorosa e imperfeita-,dizia-me(minha mãe):- é essa sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar- se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho.Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe.Entre a vida e os livros, escolhe os livros."

O Vendedor de Passados,José Eduardo Agualusa

domingo, 27 de janeiro de 2008

Que saudade!



Carnaval... que saudade de mim!