quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma questão comportamental?



Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.

É assim o homem, caro senhor, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão. Um morto no prelo, e o espetáculo começa, finalmente. Têm necessidade de tragédia, que é que o senhor quer? é a sua pequena transcendência, é o seu aperitivo.

É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!

Albert Camus, in 'A Queda'

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Entre a vida e os livros...



" A realidade é dolorosa e imperfeita-,dizia-me(minha mãe):- é essa sua natureza e por isso a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar- se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho.Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe.Entre a vida e os livros, escolhe os livros."

O Vendedor de Passados,José Eduardo Agualusa

domingo, 27 de janeiro de 2008

Que saudade!



Carnaval... que saudade de mim!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O que será...




Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz. O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.

Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além. O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.


Montaigne

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Clarice essencial...



"Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até a minha própria mentira.

E isso – já atordoada eu sentia – isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta".


Clarice Lispector (sempre ela...)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Poesia na manhã cinzenta...




Eu estou depois das tempestades.
O senhor nonada conhece de mim; sabe o muito ou o pouco? O Urucuia é ázigo... Vida vencida de um, caminhos todos para trás, é história que instrui vida do senhor algum? O senhor enche uma caderneta... O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do Céu. Eu sei.

Diadorim tinha morrido - mil-vezes-mente - para sempre de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejavam.
- "E a guerra?!" - eu disse.
- "Chefe, Chefe, ganhamos, que acabamos com eles!...
Nas vozes, nos fatos, que agora todos estavam explicando: por tanto que, assim tristonhamente, a gente vencia.

Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)


A luz de Guimarães inunda o cinza de segunda-feira.Tornou-se domingo de sol!.