sexta-feira, 2 de novembro de 2007
sábado, 15 de setembro de 2007
Não sei...
Não sei o que quero ou o que não quero.
Deixei de saber querer, de saber como se quer, de saber as emoções ou os pensamentos com que ordinariamente se conhece que estamos querendo, ou querendo querer.
Não sei quem sou ou o que sou.
Como alguém soterrado sob um muro que se desmoronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo inteiro.
E assim vou, na esteira de mim mesmo, até que a noite entre e um pouco do afago de ser diferente ondule, como uma brisa, pelo começo da minha impaciência de mim."
Texto 184 -Livro do Desassossego -Bernardo Soares (F.P.)
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Até quando?

Há dias em que me sinto inconsistente, questionando tudo e todos como se nada tivesse muito sentido...
Porém, como lufadas de ar fresco acontecem manhãs como a de hoje, em que o azul e o amarelo são mais nítidos, têm perfume e, embora não respondam a minhas perguntas me dão a sensação de que o que eu quero está logo ali...tangível, sereno. È só questão de paciência. Saber esperar.
Mas, o que é que eu quero?!!!
E até quando?!...
PS. Hoje,há festa no céu...Pavarotti acabou de chegar.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
INTERVALO

Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me pareceu deleitosa.
Chegou até mim o cansaço dos sonhos... Tive ao senti-lo uma sensação externa e falsa, como a de ter chegado ao término de uma estrada infinita. Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inutil. Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.
Assisto a mim. Presenceio-me. as minhas sensações passam diante de não sei que olhar meu como coisas externas. Aborreço-me de mim em tudo. Todas as coisas são, até às suas raízes de mistério, da cor do meu aborrecimento.
Estavam já murchas as flores que as Horas me entregaram. A minha única acção possível é i-las desfolhando lentamente. E isso é tão complexo de envelhecimentos!
A mínima acção é-me dolorosa como uma heroicidade. O mais pequeno gesto pesa-me no ideá-lo, como se fora uma coisa que eu realmente pensasse em fazer.
Não aspiro a nada. Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar.
O ideal era não ter mais acção do que a acção falsa de um repuxo - subir para cair no mesmo sítio, brilho ao sol sem utilidade nenhuma a fazer som no silêncio da noite para que quem sonhe pense em rios no seu sonho e sorria esquecidamente.
trecho 182, Livro do Desassossego, Bernardo Soares
sábado, 21 de julho de 2007
Nós...

Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...
Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?!
Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!
E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós.
J.G.de Araujo Jorge in "Eterno Motivo"
A segunda "premonição"...em um caderno envelhecido , em uma data próxima da primeira(1961), escrito pela mesma pessoa , com uma letra que eu nunca esqueceria, mesmo que essas páginas tivessem deixado de existir.
Quase acredito que criou-se essa realidade ao projetá-la na escolha de versos.Destino? Desencontro? Na época , apenas poesia...hoje, uma dolorida-mas bonita- lembrança.
sábado, 30 de junho de 2007
O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sohia de Mello B.Andresen /Livro Sexto (1962)
terça-feira, 12 de junho de 2007
Ser feliz é...

Ser feliz é, afinal, não esperar muito da felicidade, ser feliz é ser simples, desambicioso, é saber dosar as aspirações até àquela medida que põe o que se deseja ao nosso alcance.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, após essa vivência, apreendera, não pela razão mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal provém não da privação mas do supérfluo, e que, enfim, não há grandeza onde não haja verdade e desapego pelo efémero. Isto, aliás, nos é repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta síntese desoladora: «Todos lutam, sofrem e se angustiam, todos corrompem a alma para atingir bens fugazes».
Fernando Namora, in 'Sentados na Relva'
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