sábado, 21 de julho de 2007

Nós...



Afinal o que eu sinto
é o sofrimento atroz
de muito tarde descobrir que nunca
falaremos em nós...

Eu, serei eu; - tu, serás tu,
e eternamente assim
nem nunca me terás como queres que eu seja
nem serás como eu quero que sejas pra mim...
Muito tarde... muito tarde...
-depois que assim te quero, e preciso de ti
como os pulmões de ar
ou os olhos de luz,
é que vou descobrir que se ficarmos juntos,
eu poderei te odiar, tu poderás me odiar!
- Quem diria afinal, ao que o amor se reduz?!

Estraguei tua vida e desgraçaste a minha
e fomos acordar, os dois, tarde demais...
Agora, eu sigo só,
tu, seguirás sozinha,
eu, fugindo, - covarde!...
a este amor que me espinha!
tu, querendo, - medrosa!...
inutilmente a paz!

E o que é estranho afinal, é que nós nos amamos,
e sentimos no entanto que nos separamos,
cada um com a sua sombra dolorosa a sós...
-conformados, na dor cruel nos convencemos.
de que nunca na vida, eu e tu... seremos
nós.

J.G.de Araujo Jorge in "Eterno Motivo"

A segunda "premonição"...em um caderno envelhecido , em uma data próxima da primeira(1961), escrito pela mesma pessoa , com uma letra que eu nunca esqueceria, mesmo que essas páginas tivessem deixado de existir.
Quase acredito que criou-se essa realidade ao projetá-la na escolha de versos.Destino? Desencontro? Na época , apenas poesia...hoje, uma dolorida-mas bonita- lembrança.

sábado, 30 de junho de 2007

O poema




O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sohia de Mello B.Andresen /Livro Sexto (1962)

terça-feira, 12 de junho de 2007

Ser feliz é...




Ser feliz é, afinal, não esperar muito da felicidade, ser feliz é ser simples, desambicioso, é saber dosar as aspirações até àquela medida que põe o que se deseja ao nosso alcance.

Tolstoi salienta-nos que Pedro, após essa vivência, apreendera, não pela razão mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal provém não da privação mas do supérfluo, e que, enfim, não há grandeza onde não haja verdade e desapego pelo efémero. Isto, aliás, nos é repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta síntese desoladora: «Todos lutam, sofrem e se angustiam, todos corrompem a alma para atingir bens fugazes».

Fernando Namora, in 'Sentados na Relva'

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Teu vulto leve ao fundo do passado...



Teu vulto leve ao fundo do passado,
Volve-me às vezes um olhar magoado
Que lembra o luar, por entre névoas finas.
Ainda tenho no espelho das retinas
O parque familiar, e os velhos bancos
Onde a vida juntou em dias vãos,
às tuas lindas mãos as minhas mãos.

Onde estás , minha doce companheira?
Como a rosa que tomba da roseira,
A hora tomba no espaço, sem rumor...
Longe murmura a trompa do pastor,
Pela tarde que morre, lentamente.
E o poente é como aquele mesmo poente
Que a terra toda encheu de um sonho triste
Quando sombra, entre sombras, me fugiste!

Ficaste numa curva do passado...
Como dói recordar o tempo andado
Nas manhãs de ilusão, nas noites calmas
Como um pálido sol num céu de outono.
Um gesto, um longo gesto de abandono,
Um desconsolo, um pouco de saudade,
E nisto está toda a felicidade.

Sobre os campos , em seu vestido louro,
A primavera ri no seus botões de ouro,
Entre as ondas vermelhas das espigas
Voltam cantndo em bandos as raparigas.

E dentre a púrpura que envolve o ambiente
Vai surgindo aos meus olhos lentamente,
Como um rolo de incenso, no ar lavado,
Teu vulto leve ao fundo do passado...

Ronald de Carvalho

Preciosidade encontrada no meu album de recordações, escrita em 11 de agosto de 1960, por alguém que , hoje, é apenas " um vulto leve ao fundo do passado..."
Premonição?!...

terça-feira, 22 de maio de 2007

Chance à vida...



Pode ser difícil fazer algumas escolhas, mas muitas vezes isso é necessário, existe uma diferença muito grande entre conhecer o caminho e percorrê-lo.

Não procure querer conhecer seu futuro antes da hora, nem exagere em seu sofrimento, esperar é dar uma chance à vida para que ela coloque a pessoa certa em seu caminho.

"A tristeza pode ser intensa, mas jamais será eterna"

A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O passado não é irrevogável...



Não tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que ele é irrevogável, não acredites nelas. O passado, o presente e o futuro não são mais do que um momento na perspectiva de Deus, a perspectiva na qual deveríamos tentar viver. O tempo e o espaço, a sucessão e a extensão, são meras condições acidentais do pensamento. A imaginação pode transcendê-las, e mais, numa esfera livre de existências ideais. Também as coisas são na sua essência aquilo em que decidimos torná-las. Uma coisa é segundo o modo como olhamos para ela.

Oscar Wilde, in 'De Profundis'

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Apodrecidos...



"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"



Eugenio de Andrade.