segunda-feira, 4 de junho de 2007

Teu vulto leve ao fundo do passado...



Teu vulto leve ao fundo do passado,
Volve-me às vezes um olhar magoado
Que lembra o luar, por entre névoas finas.
Ainda tenho no espelho das retinas
O parque familiar, e os velhos bancos
Onde a vida juntou em dias vãos,
às tuas lindas mãos as minhas mãos.

Onde estás , minha doce companheira?
Como a rosa que tomba da roseira,
A hora tomba no espaço, sem rumor...
Longe murmura a trompa do pastor,
Pela tarde que morre, lentamente.
E o poente é como aquele mesmo poente
Que a terra toda encheu de um sonho triste
Quando sombra, entre sombras, me fugiste!

Ficaste numa curva do passado...
Como dói recordar o tempo andado
Nas manhãs de ilusão, nas noites calmas
Como um pálido sol num céu de outono.
Um gesto, um longo gesto de abandono,
Um desconsolo, um pouco de saudade,
E nisto está toda a felicidade.

Sobre os campos , em seu vestido louro,
A primavera ri no seus botões de ouro,
Entre as ondas vermelhas das espigas
Voltam cantndo em bandos as raparigas.

E dentre a púrpura que envolve o ambiente
Vai surgindo aos meus olhos lentamente,
Como um rolo de incenso, no ar lavado,
Teu vulto leve ao fundo do passado...

Ronald de Carvalho

Preciosidade encontrada no meu album de recordações, escrita em 11 de agosto de 1960, por alguém que , hoje, é apenas " um vulto leve ao fundo do passado..."
Premonição?!...

terça-feira, 22 de maio de 2007

Chance à vida...



Pode ser difícil fazer algumas escolhas, mas muitas vezes isso é necessário, existe uma diferença muito grande entre conhecer o caminho e percorrê-lo.

Não procure querer conhecer seu futuro antes da hora, nem exagere em seu sofrimento, esperar é dar uma chance à vida para que ela coloque a pessoa certa em seu caminho.

"A tristeza pode ser intensa, mas jamais será eterna"

A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...

Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O passado não é irrevogável...



Não tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que ele é irrevogável, não acredites nelas. O passado, o presente e o futuro não são mais do que um momento na perspectiva de Deus, a perspectiva na qual deveríamos tentar viver. O tempo e o espaço, a sucessão e a extensão, são meras condições acidentais do pensamento. A imaginação pode transcendê-las, e mais, numa esfera livre de existências ideais. Também as coisas são na sua essência aquilo em que decidimos torná-las. Uma coisa é segundo o modo como olhamos para ela.

Oscar Wilde, in 'De Profundis'

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Apodrecidos...



"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"



Eugenio de Andrade.

sábado, 5 de maio de 2007

Felizes para sempre?!...



Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, "e foram felizes para sempre", isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos.

Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem.

Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre.

José Eduardo Agualusa, in 'O Vendedor de Passados'

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Reler...



"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Nelson Rodrigues

terça-feira, 1 de maio de 2007

A pergunta.



Só a nossa noção de tempo nos faz pensar em Juízo Final, quando é de justiça sumária que se trata.

O suicida é como o prisioneiro que, vendo armar-se uma forca no pátio, imagina que é para ele - foge de sua cela, à noite, desce ao pátio e pendura-se ao baraço.

Os mártires não menosprezam o corpo, apenas fazem-no pregar à cruz: é no que estão de acordo com seus adversários.

As portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas. Há um propósito e nenhum caminho: o que denominamos caminho não passa de vacilação.

Os leopardos invadem o Templo e esvaziam os vasos sagrados... O fato não cessa de reproduzir-se; até que se chega a prever o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual.

Os bons vão a passo certo; os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa.

Outrora eu não podia compreender que minhas perguntas não obtivessem resposta; hoje em dia não compreendo que jamais tivesse admitido a hipótese de formular perguntas... Bem, eu não acreditava então em coisa alguma - só fazia perguntar.


Franz Kafka