quinta-feira, 10 de maio de 2007

Apodrecidos...



"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos"



Eugenio de Andrade.

sábado, 5 de maio de 2007

Felizes para sempre?!...



Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, "e foram felizes para sempre", isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos.

Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem.

Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre.

José Eduardo Agualusa, in 'O Vendedor de Passados'

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Reler...



"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Nelson Rodrigues

terça-feira, 1 de maio de 2007

A pergunta.



Só a nossa noção de tempo nos faz pensar em Juízo Final, quando é de justiça sumária que se trata.

O suicida é como o prisioneiro que, vendo armar-se uma forca no pátio, imagina que é para ele - foge de sua cela, à noite, desce ao pátio e pendura-se ao baraço.

Os mártires não menosprezam o corpo, apenas fazem-no pregar à cruz: é no que estão de acordo com seus adversários.

As portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas. Há um propósito e nenhum caminho: o que denominamos caminho não passa de vacilação.

Os leopardos invadem o Templo e esvaziam os vasos sagrados... O fato não cessa de reproduzir-se; até que se chega a prever o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual.

Os bons vão a passo certo; os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa.

Outrora eu não podia compreender que minhas perguntas não obtivessem resposta; hoje em dia não compreendo que jamais tivesse admitido a hipótese de formular perguntas... Bem, eu não acreditava então em coisa alguma - só fazia perguntar.


Franz Kafka

segunda-feira, 30 de abril de 2007

in Memórias de Adriano .


"Como toda gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana:

o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos;

a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou de nos convencer que os têm;

os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas."

Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Amo os grandes rios...



(...) amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas
são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens.
Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade.
Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.

João Guimarães Rosa
Há possibilidade de conviver com a obra de Guimarães sem se contagiar?...Como terá sido ser Guimarães "povoado" por essa obra?

domingo, 22 de abril de 2007

Uma fresta para a liberdade...



Quando todas as possibilidades nos são tiradas, a menor das aberturas se transforma numa grande liberdade... De certa forma, os contos de fadas, ou os romances, nos dão a liberdade que a realidade nos nega."

Azar Nafisi, iraniana, professora de literatura, autora de "Lendo Lolita em Teerã".