terça-feira, 17 de abril de 2007

Canção da manhã feliz



Luminosa manhã Por que tanta luz?
Dá-me um pouco de céu
Mas não tanto azul

Dá-me um pouco de festa, não esta
Que é demais p'ro meu anseio
Ela veio, manhã .Você sabe, ela veio

Despertou-me chorando
E até me beijou
Eu abri a janela .E este sol entrou

De repente em minha vida
Já tão fria e sem desejo
Estes festejos .Esta emoção

Luminosa manhã
Tanto azul, tanta luz
É demais
Para o meu coração...

1962 - Haroldo Barbosa e Luiz Reis

É indescrítivel a beleza das manhãs de abril...

domingo, 15 de abril de 2007

Uma história para minha neta...



Era uma vez...uma floresta encantada, onde bichos falavam , o vento cantava e as flores sorriam.
Em uma manhã de céu azul, todos festejavam o sol, mais ainda as borboletas, menos mamãe Passarinho.Ela, muito quietinha no topo da árvore, chocava dois ovinhos com muito amor. Não via a hora de seus filhotinhos nascerem.

Naquela mesma tarde, escutou um barulhinho e ah! Que alegria : um ovinho quebrou –se e dele nasceu um ser muito pequenino. Ela ficou tão feliz que nem percebeu, na hora , que ali também nascera um problema: o outro ovinho ainda estava inteiro.Quando é que o segundo iria nascer? Percebeu logo que precisava dar comida ao recém-nascido e , portanto, sair para buscá-la.E o ovinho fechado?Como protegê-lo? Pensou, pensou ,pensou e achou uma saída:

-Filhinho...a mamãe está indo buscar comida e você vai tomar conta de seu irmãozinho. Fique em cima dele, proteja-o.
E voou...
Mas o pequeno era muito miudinho e não resistiu. Adormeceu. Assustado acordou com gritos estridentes da mãe, desesperada. O ovinho sumira.

Triste, triste, enquanto a mãe chorava, saiu à procura dele e não soube mais voltar. Durante dois dias inteiros escondeu-se como pode ao rés do chão e entre folhas secas e terra, encontrou –o inteiro, mas oh! Um buraquinho! O irmãozinho, com grande dificuldade, começava a nascer.

Assustado e feliz, juntou restos de árvores e criou um ninho para protegê-lo.Passou, então, por muito sofrimento, porque precisava devolvê-lo à mamãe para deixá-la feliz.O tempo era seu inimigo.

Todos os dias procurava comida, escondia-se com medo, mas foi, aos pouquinhos, aprendendo a voar.O irmãozinho foi ficando forte e ele sentia-se orgulhoso por estar cuidando dele.

Ensiná-lo a voar,então, foi uma aventura maravilhosa .Algum tempo depois , alçaram vôo , juntos.

Dona Passarinho cochilava, quando foi acordada por um pipilar fora do normal. Mas...o que via? Não podia ser? Será? Ah! Nem importava como ou porquê.
Estavam ali, os dois juntinhos. Seus dois filhotes.Ela abriu as asas e os acolheu.

E os três cantaram juntos pela primeira vez.
Na floresta, era primavera!

Para Cíntia, por quem –de novo- eu aprendi a voar...

Gizelda ,18 de abril de 2004

...e cai estrondosamente no chão, 9 anos depois. A pessoinha para que eu escrevi esse texto não existe mais.

06.10.2013

sexta-feira, 13 de abril de 2007

in Poemas Inconjuntos.



Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo a flores tornam, ou as folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Gizelda / Impregnada de Alberto Caeiro :da alma aos ossos.
Semana pródiga em colheita...

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Saudade.



Saudade é um pouco como fome.Só passa quando se come a presença. Mas, às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.


Clarice Lispctos in "Aprendendo a viver" ( crônicas)

sábado, 31 de março de 2007

Uma questão de escolha.



Estou só...

Minha parceira de vida – e de vôo - viajou nesse final de semana. Cíntia,8 anos e 9 meses de uma existência mágica tornaram -na o meu “vale a pena”. Fiquei vazia de vozes, de ruídos,de sorrisos, de beijos estalados, mas repleta de lembranças que teimam em permanecer.

Pairo sobre o que fui e que sou com um poder (?) oco de observar algo que não consigo explicar, nem mudar. Dói. E dói muito.

A consciência de que tudo, desde a primeira vez, não passou de uma escolha, torna-me perplexa e pequena.

Tenho e tive o que escolhi.Não mais. Não menos.

Ir por ali e não por aqui,os caminhos se abrindo (...ou se fechando?) na fluidez do tempo que não me permitiu voltar. Ou parar.

Não há balanço.Nem julgamento.Não sei o bem ou o mal. Não há estrutura emocional para avaliar estragos, nem para dosar sucesso, se algum houve.Do infinito luminoso a um escuro poço sem escada. Ou vice-e-versa.Apenas foi.É.

Minha escala de valores contabiliza dores e alegrias com a mesma profundidade. Irreversíveis. Quase não acredito que as vivi.

Sair de mim, ver-me assim é, paradoxalmente, um soco na boca do estômago com uma rosa entre os dentes...e dói.

Gizelda, 31/03/2007


( Só quando mergulho em Clarice Lispector consigo alguma coragem para falar sobre mim....)

sexta-feira, 30 de março de 2007

in "Coral"



Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 27 de março de 2007

A Alma Transforma-se em Sensações .


Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, um amor contrariado por obstáculos invencíveis:

A vista de tudo o que é extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recordação do que amamos, com a rapidez de um relâmpago. É que, pelo processo do ramo de árvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo é belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta visão imprevista da felicidade enche-nos os olhos de lágrimas num instante. É assim que o amor do belo e o amor se dão vida um ao outro.

Uma das infelicidades da vida é que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar não deixa recordações distintas. Aparentemente, a alma está demasiado perturbada pelas suas emoções para poder prestar atenção ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na própria sensação.

É talvez porque estes prazeres não se podem renovar sempre que queremos, por simples força de vontade, que se renovam com tanta força, desde que um objeto qualquer nos venha tirar da meditação consagrada à mulher que amamos, e lembrar-no-la mais vivamente por meio de uma nova sugestão (o perfume dela, por exemplo).

Stendhal, in 'Do Amor'