domingo, 11 de fevereiro de 2007

Pastelaria.


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)
Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, 4 de fevereiro de 2007

As Palavras.



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugênio de Andrade em Coração do Dia (1958)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Cíntia.




Linda. Cachos de ouro velho teimosamente caem sobre olhos de avelã , profundos, vivos, inquisidores.Neta, filha, pessoa, companheira de todas as horas. 4 anos e dez meses de puro deleite.

Sabida como ela só, enche de apreensão e alegria minha precária vida.Amo-a tanto que dói.Não sei viver sem esperá-la, sem seu beijo molhado, sem alegrá-la, sem chegar ao seu quarto, de mansinho, e vê-la ressonando abraçada ao seu “querido boi” , um cobertor rosa sujo e desbotado.

Veio ao mundo em uma hora inadequada em que tudo conspirava contra ela, desde as circunstâncias até a frágil saúde. E lutou bravamente para sobreviver , 35 dias na UTI. Conseguiu. Admiro-a, desde então.É uma vencedora.
Por ela e para ela tenho vivido. Talvez para compensar o que lhe foi reservado, muito diferente do que possuem crianças felizes de famílias estruturadas e cobradas pelas convenções.

Porém todas as histórias de fadas se nutrem de bruxas e sombras. E eu não sou Galaaz, Parsifal, nem Lancelot, nem mesmo uma avó com saúde e idade suficientes para enfrentar bruxas malvadas.Se for preciso, no entanto , buscarei forças onde elas existam para ajudá-la a cumprir seu destino.
Só quero que ela seja feliz dentro do possível e, para tanto, preciso me fortalecer para protegê-la até que tenha discernimento para escolher o caminho de sua travessia.

Cíntia, você é luz.É sol.É ouro.É mar.É céu.É azul... Te amo.

Vovó.
Valinhos,19 de abril de 2003.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Amar!



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!


Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!


Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!


E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

AUSÊNCIA



Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

A Terceira Margem do Rio (excerto)

(...) amo os grandes rios, pois são pro fundos como a alma do homem.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas
são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens.
Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade.
Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.
João Guimarães Rosa



Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.


(Meu Deus, como um homem consegue escrever assim? Lindo, lindo...)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

de O Vendedor de Passados.



Passa-se com alma algo semelhante ao que aontece à água: flui.Hoje está um rio.Amanhã estará mar.A água toma a forma do recipiente.Dentro de uma garrafa parece uma garrafa. Porém, não é uma garrafa.Eulálio será sempre Eulálio, quer encarne ( em carne) quer em peixe.Vem-me à memória a imagem em branco e preto de Martim Luther King discursando à multidão:eu tive um sonho. Ele deveria ter dito antes : eu fiz um sonho.

Há alguma diferença, pensando bem, entre ter um sonho ou fazer um sonho.

José Eduardo Agualusa