Dois
amigos, inseparáveis na juventude, reencontram-se 40 anos depois.
“
A amizade, pensava eu – e tu, que andaste mais pelo mundo fora, certamente
sabes mais e melhor que eu, aqui na minha solidão campestre - , é a relação
humana mais nobre que pode haver entre os seres vivos humanos. É curioso, os
animais conhecem-na bem também. Existe amizade, altruísmo, solidariedade entre
os animais. Um príncipe russo escreveu sobre isso… já não me lembro do nome
dele. Há leões e galos bravos, criaturas de todo o género que tentam socorrer
os da sua espécie que se vêem em apuros, sim, vi com os meus próprios olhos
que, às vezes, ajudam também aos animais de outra espécie. (…).
Entre pessoas, vi menos exemplos. Para ser mais exacto, não vi nenhum. As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade.
Entre pessoas, vi menos exemplos. Para ser mais exacto, não vi nenhum. As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade.
E as pessoas fogem da solidão, entrando em todo o tipo de
intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum
tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade.
Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa
imagina – e o meu pai entendia as coisas dessa maneira – que a amizade é um
serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus
sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para
ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o
aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal.
E na verdade, vale
a pena viver, ser homem, sem esse ideal? E se um amigo falha, porque não é um
verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu caráter, a sua fraqueza?
Quando vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude,
fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afeto que espera recompensa?
Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo
abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações
humanas, esse altruísmo que não quer nada nem espera nada, absolutamente nada
do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca?(…)
Vês, dediquei-me a essas questões teóricas quando fiquei sozinho. Naturalmente, a solidão não me deu resposta. Nem os livros deram resposta perfeita. Nem os livros antigos, os estudos dos pensadores chineses, hebreus e latinos, nem os modernos que falam sem rodeios, mas dizem sobretudo palavras e não a verdade.”
Vês, dediquei-me a essas questões teóricas quando fiquei sozinho. Naturalmente, a solidão não me deu resposta. Nem os livros deram resposta perfeita. Nem os livros antigos, os estudos dos pensadores chineses, hebreus e latinos, nem os modernos que falam sem rodeios, mas dizem sobretudo palavras e não a verdade.”
In:
As Velas Ardem até ao Fim, Sándor Márai, Dom Quichote, 2006
Palavras... talvez a amizade seja antes uma palavra do que uma relação de afeto. Muito triste ler isso e ter que concordar, porque há um fundo inquestionável de verdade nesse texto e nessa magnífica obra.

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