quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O passado tem um rosto...



Estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que não seja senão para as evitar. As contrafações do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, é atreita a falsificar o seu passaporte. Precatemo-nos contra o laço, desconfiemos dela. O passado tem um rosto, que é a superstição, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciem-lhe o rosto e arranquem-lhe a máscara.
Victor Hugo, in Os Miseráveis


Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
Bernardo Soares in " O Livro do Desassossego"


Gostaria de não ter lembranças, nem saudades...ser um livro de páginas translúcidas que se renovasse a cada dia.Gostaria...


Um comentário:

  1. Estou de acordo com você, querida amiga. Também gostaria, mas acontece que o ser mesmo de hoje é extensão de um passado, negando-o, nego a mim mesmo.

    Beijos!

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